quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Cláudio Neves (Brasil)

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MALHADO






No gato malhado,
dito vira-lata,
a sombra invade,
milparte o gato.


Falta-lhe a linha
dorsal compacta
e o passo infalível
dos outros gatos;
falta-lhe a idéia
de contraparte:
nem bem é branca
ou negra metade
e ao todo é menor
que as manchas somadas.


É talvez assimétrico,
um antigato em seu claro-escuro
barroco, abstracto.


Não é a coisa,
mas as muitas falhas,
as muitas faltas
que lhe são inatas;
como uma idéia
despedaçada
numa palavra muitas palavras.



(do ciclo De Sombras e Gatos)

Neves, Cláudio, De sombras e vilas, Rio de Janeiro, 7Letras, 2008


Nota: Excelente poema, que nos revela num grande saber poético do manejo do verso curto, elíptico, (de contenção e contensão) uma visão muito própria do gato "rafeiro", sem raça definida.
O autor consegue evidenciar, a imagem do animal,quase plasticamente:" milparte"," negra metade", "falta-lhe a linha dorsal", etc.
Para além deste nível mais ligado à visualidade, ainda toda a densidade semântica que o poema consegue, ligada à poderosa e antiquíssima simbologia do gato, simultaneamente fidalgo e plebeu, requintado e vadio, insubmisso e meigo, doméstico e selvagem.

Releiam-se achados como: "antigato" ou "uma idéia despedaçada", ou ainda "seu claro-escuro barroco, abstracto". Note-se neste últimp exemplo, de novo, para leitores mais atentos a sugestão plástica da estética do barroco (claro-escuro) ou das assimetrias pictóricas do abstraccionismo.

O verso final pode remeter para a pluralidade de sentidos duma imagem, dum poema, da própria vida.

O pequeno ciclo, inclui ainda, os poemas:"Negro", "Siamês, "Persa".

O livro é constituído pelos seguintes ciclos:

I - INTRODIÇÃO À SOMBRA
II - DE SOMBRAS E VILAS
III-DE SOMBRAS E CATOS
IV - OS CONSTRUTORES (DOIS EXCERTOS)
V - POEMAS ESPARSOS (1990-2007)


Relembre-se que enormes poetas abordaram o tema do gato, nos seus livros : Baudelaire, Verlaine, Yeats, Rilke, Appolinaire, Ezra Pound, T. S. Eliot, Jorge Luis Borges. Paul Eluard, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, erc, etc.
Em Portugal: Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Luíza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, João Miguel Fernandes Jorge, etc, etc.

7 comentários:

pilantra disse...

Esse poema até me faz inveja: mais pilantra menos pilantra tanto faz, desde que vira-lata para sempre!

Então venha lá um à Maria Tobias - é só o que falta no panegírico poético-gatal! E dedicado aqui à pilantra, evidentemente, adoradora de cães. rsrsrss
Prometo que o ponho na mesa de cabeceira, ao lado do «os livros»

pilantra disse...

Não há mais gatos? Vá lá mais uns, que fiquei curiosa deles.
Bjs
M

pilantra disse...

«Nem mais um só gatito para o blogue»? Olhe que por esse «malhado» tanto o Cláudio Neves como aqui os fiéis, mereciam mais uns! Vá lá que a gente só os pode ler aqui!

Bjs

Victor Oliveira Mateus disse...

... apenas para dizer que gostei mto do post e... que gosto também
mto. desta poesia...

Logros disse...

Pilantríssima,

Prometo que vêm aí mais felinos.
Tenho andado noutros zoos :)))))

Bj.

Victor,

Obrigada. Até breve.

I.

I.

pilantra disse...

Já sei, já sei... Bons afazeres!
Na volta...«cá te'spero»!
Beijos

Cláudio Neves disse...

Agradeço a todos pelas palavras.

À Pilantra:
é só me escrever que remeto o livro, onde há também alguns tigres - que, sabemos, não são mais que gatos crescidos - e outros bichos.

Um abraço
Cláudio