quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Rui Nunes


(...)
É interessante ver como a nossa história é uma sequência de abandonos da pátria. Abandonámos a pátria pela África, abandonámos a pátria pela Índia, abandonámos a pátria pelo Brasil, pela Europa. O que significa que esse abandono da pátria está presente na nossa matriz. Daí que pense que a grande pátria dos portugueses é a errância.
(...)


in ACTUAL - EXPRESSO, Ideias & Debates, 30 de Novembro 2013, pág.36.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

António Guerreiro


(...)
A cultura como redenção, decoração e fuga aos aborrecimentos quotidianos é um bem partilhado pelo humanismo dos filisteus, aqueles que se "atiram ao ornamento como o cão à salsicha", como dizia Karl Kraus.
(...)

in Estação Meteorológica, Ípsilon - Público, 29 Nov. 2013


Nota: A.G. é talvez a voz mais lúcida, informada e actualizada, que escreve ainda na nossa imprensa. Detecta as encenações, hipocrisias e logros que dão corpo a muitas atitudes bem pensantes, perfilhadas por muito boa gente. Por isso, ele é tão combatido e posto em questão pelos simplistas de pacotilha.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Manuel de Freitas



 
BWV 232


«Uma asa partida, outra desfeita» - assim chegou
a pomba à livraria, trazida junto ao peito do poeta.
Chegámos a tempo de ver a santíssima trindade:
um deus ágil e vetusto, cristo cigano, com o cigarro
aceso, e a pomba enferma, pelos dois banhada.

E era como se nada mais importasse, ou se
suspendesse, abruptamente, o ruído plebeu da cidade,
o som martirizante das pessoas que passavam,
leves de alma, de honra, e sem palavras que luzissem.
Entardecia em Lisboa, a asa batia no cartão ocasional.

A mesma que talvez não volte a voar sobre os telhados
nus desta cidade. Porque o sangue, mais do que
o espírito, tende às vezes a parar, deixa-nos quietos
e tolhidos numa caixa de papelão e sofrimento
onde nem Deus, se existisse, nos poderia ajudar.



in CÓLOFON, Fahrenheit 451, Lisboa 2012, pág. 35.

 
 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Wislawa Szymborska


Elogio dos sonhos


Nos sonhos
pinto como Vermeer Van Delft.

Falo grego com fluência
e não apenas com os vivos.

Conduzo um automóvel
que me é obediente.

Sou hábil,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
tão bem como os santos mais austeros.

Ficaríeis admirados
da perfeição com que toco piano.

Consigo voar como devia ser,
isto é, eu de mim própria.

Ao cair de um telhado
sei como descer levemente na verdura.

Não tenho problemas
em respirar debaixo de água.

Não me lamento:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico contente porque, antes de morrer,
consigo acordar sempre.

A guerra a rebentar
e eu a virar-me para o melhor lado.

Sou, sem ter porém
que o ser, filho da época.

Aqui há alguns anos
vi dois sóis.

E, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim.



in PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA, trd. de Júlio Sousa Gomes, RELÓGIO D'ÁGUA, Lisboa 1998, pág. 133 e 135.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Teoria da Des-possessão


 (...)
 "As palavras vivem de serem vivas, da decisão que as possui, do arrebatamento interior, de não serem bens, propriedades, objectos que se usam e nos desgastam, mas intensidades, sopros onde os corpos se deslocam e se encontram. Amantes."
 (...)


 Silvina Rodrigues Lopes, in Teoria da Des-possessão (Sobre textos de Maria Gabriela  Llansol), Averno, Lisboa 2013, pág. 9.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Poemas com gatos ( V )


                       PORTUGUÊS VULGAR


O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.


I.L.

in LOGROS CONSENTIDOS, & etc, Lisboa 2005, pág.38.




                   QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR *


Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.

Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre doméstico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sítio de partidas
que ele conhecia.

Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir da porta. O latir
festivo de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.

Só os nossos animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum hades, nenhum céu.


* verso de um poema de Ruy Belo

I.L.
idem pág.43 e 44.


Nota: Tenho vindo a postar aqui, alguns poemas "felinos" que foram publicados em diversos livros meus. Já lá vão 10. Vou fazer um pequeno interregno, mas prometo que voltarei à temática porque  ainda há mais...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( IV )

LITANIA PARA UM LIMOEIRO URBANO

Para mover o céu e os alicerces, partir
velhos caixilhos e cantarias, chega o último
dos moradores. Cumprido o tempo das
polpas douradas, o estio das crianças ficará
ainda algum tempo nos retratos
sépia, com hidrângeas e bicicletas, expulso
para sempre o cio dos gatos e o impudor
dos ramos nas florações precoces.


I.L.

in OS SOLISTAS, Ed. Limiar, Porto 1994, pág. 27.




ALGUNS EPITÁFIOS

para um gato

Assassinei alguns pardais
mas depois lambia o meu pêlo
exaustivamente para ser
digno das carícias do dono.


I.L.

in COISAS QUE NUNCA, & etc, Lisboa 2010, pág.49

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( III )

BONJARDIM 

3.

Vindo do Marquês, o autocarro
chiava na curva estreita, soltando
os seus vapores de gasóleo, e
num portal surgia um gato pardo
para o qual me inclinei, sabendo
que fugiria ao contacto
da minha mão, ou apenas ao
esboço de carícia, como fazem
os gatos, tão fugidios na presença
de estranhos. Mas o animal no
instante do recuo, aceitou o
deslizar dos meus dedos,
em troca de amáveis energias. E
uma longa saudade subiu-me pelo
braço, no arquear festivo
daquele pequeno tigre.


I.L.



in UM QUARTO COM CIDADES AO FUNDO, Ed. Quasi, V.N. Famalicão, 2000, pág.118.



VÍTIMAS

O gato reinava no terraço
entre hidrângeas, sardinheiras e
muros, silencioso e súbito
na ferida que rasgaria
algum gorjeio. Muitas mortes de asa
incauta, na cobiça de larvas ou insectos
em sucessivos Maios, justificaram
o fulgor das garras, o espinho
certeiro entre veludos. Agora
que se foi o vivaz caçador, na garra
letal dos anos, novos bandos
de pardais inundam
o terraço sem gato.


I.L.


idem, pág. 123.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( II )

















AMÁVEIS  (DE AMAR)


D. Fuas o gato de Jorge de Sena e
Coral o gato de Sophia ou
a gata Maravilhas de
João Miguel Fernandes Jorge e os
de tantos outros como Baudelaire ou Eliot,
amáveis (de amar) mas ferozmente
independentes, olham-nos
dos poemas com aquelas luzentes e atentas
contas de vidro (podia aqui comparar com ágatas
ou opalas, mas não quero entrar
no joalheiro).

Eles são talvez os mais puros
aristocratas entre os animais de companhia.
Tratam do próprio pêlo com minuciosos cuidados,
mesmo que não tenham casa certa e
até na extrema míngua conservam
uma distante prudência e unhas afiadas
de quem não se vende facilmente.
E é tanta a sua generosa fidalguia
que nunca desprezam a mão assídua
que lhes afaga o dorso e partilha
o sedentário desprezo do mundo,
mesmo doente velha ou caída em desgraça.


I.L.

in A DISFUNÇÃO LÍRICA, & etc, Lisboa 2007, pág.35.



ÍTACA SEM GATOS


Nenhum gato reconheceu  Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso
me soa estranha a Odisseia e o
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato.


I.L.

idem, pág. 36.




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( I )

















FELINUS

A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

I.L.
in COISAS QUE NUNCA, & etc, Lisboa 2010, Pág.31.




PRÉSTIMO

Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir.

I.L.
in ASSINAR A PELE, Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos,
Org. de João Luís Barreto Guimarães, Ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001, Pág. 96.
 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

José Manuel Teixeira da Silva

 
TRATADO DE ARQUITECTURA
SEGUNDO NICOLAU NASONI

 

Repouso a sete palmos de terra
cumprindo a ciência das fundações
e o mistério dos números
Por minha estrita disposição, escapei-me
em local secreto de um templo
que desenhei até ao pormenor
 
 
Se me quiserem descobrir
não é certo que insista
o sangue quente italiano
Terão de perder-se na planta
que lhes deixei, mas ofereci
a causas mais divinas
Juntou depois a natureza
ornamentos de humidade
e o trabalho paciente das aranhas
 
 
Agora que me chamaste
ficará também aqui
qualquer coisa soterrada
sílabas escuras, mínimas
lascas de osso, e é como
se estivesse à espera
dos que vêm a caminho
 
 
Falaríamos de quanto pude erguer
em fundos tão confusos
para que a paisagem pousasse
como nas gravuras
a minha torre dividindo o espaço
e orientando as aves, por ela
a inclinação dos remos a repetir
o rio, olhassem-na distantes
os operários amestrando o fogo
entre os fumos do poente, soprassem
as nuvens por volutas da minha
inspiração até ao lugar
em que a vida aquietasse
 
De longe os avisos, pressentimento
do tremor da terra, a tempestade
e seus andaimes, mas tudo assim
arrisquemos em esplendor
e abatimento
 
 
 
in O LUGAR QUE MUDA O LUGAR, Língua Morta Lisboa 2013, p.49 e 50.

Nota: Este livro vai ser apresentado no próximo dia 19 de Outubro, pelas 15 horas, no Solar dos Condes de Resende em Canelas - Gaia. Estarão presentes José Manuel Teixeira da Silva, o editor Diogo Vaz Pinto e o respectivo apresentador Pedro Eiras. Uma sessão a não perder, pela qualidade dos intervenientes e excelência da poesia do autor.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Povo: essa entidade múltipla



O populismo sem povo

(...)
Tal entidade - o povo - só existe como uma elaboração ficcional, ou, pelo menos, sob a forma de uma pluralidade de figuras que nada têm a ver umas com as outras: o "povo soberano" da democracia não é a mesma coisa que o "povo jurídico" de kant; e ambos são diferentes do "povo trabalhador" que o movimento comunista elevou a sujeito da História; e nenhum deles se confunde com o povo definido por uma relação orgânica com o solo e o sangue (de onde advém a ideia de um Volk, que foi, em todo o lado, um mito nefasto e quase sempre criminoso). Não existindo o povo, existe no entanto algo que se chama "populismo", contra o qual estamos constantemente a ser alertados. (...) Hoje, o fantasma do populismo alimenta-se de imagens e representações do povo que, à falta de outras, são aquelas criadas pela televisão. Não existe uma figura apreensível do povo como entidade, mas existe um "povo" da televisão, não apenas dos concursos e dos programas de entretenimento, mas também o dos telejornais, fetichizado pelas câmaras e pelos microfones, numa encenação que nos quer fazer crer que é a pura realidade. Trata-se de um povo postiço, que satisfaz uma forma aberrante de telegenia e só existe nos ecrãs. (...)


António Guerreiro, in Público, Ípsilon 4 Outubro 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Dia Mundial da Música

Nota: Escolhi este grande pianista, Arcadi Volodos, nascido em 1972, em São Petersburgo, para assinalar este dia. Tive o enorme prazer de assistir ao seu recente concerto na Casa da Música, no Porto, no passado dia 26 de Setembro. O programa que apresentou incluía Schubert, Brahms e Schumann. Foi muito aplaudido e tocou vários encores. Isto na noite em que noutros espaços da cidade, ainda cheirava a porco no espeto autárquico e se apresentavam best-sellers que não vão durar na memória, uma milionésima parte das composições executadas por Volodos.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Herberto Helder

irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no
                                                                    futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e
                                                                         das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é
                                                                  insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como
                                                                                       era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda - trepai por ela acima até à
                                                                  vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que há-de medrar melhor na memória do mundo


in Servidões,Assírio & Alvim 2013 Porto, p.90 e 91.


Nota: Finalmente, graças à generosidade de um amigo, que me emprestou um exemplar de "Servidões", tenho acesso a esta magnífica obra. Sim, porque não há só especuladores na troika; guardadas as devidas proporções, também há agiotas em Portugal; quanto mais não seja para fazerem uns cobres com o açambarcamento da edição de um livro de poesia.
          Este poema que transcrevo fez em mim o efeito do "Poema em linha recta" de Álvaro de Campos. Grande, enorme, inimitável Herberto Helder, que me fazes esquecer a mesquinhez
de tanta coisa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Para um Amigo Tenho Sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio

esquecido em qualquer fundo de algibeira.

Mas esse relógio não marca o tempo inútil.

São restos de tabaco e de ternura rápida.

É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.

É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa

in "Viagem Através de uma Nebulosa"

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A novilíngua do novo fascismo

(...)
« É, aliás, significativo que alguns críticos mais indulgentes, perante a afirmação de Passos Coelho de que a Constituição não fez nada por novecentos mil desempregados, o tenham aconselhado a nunca fazer discursos longos improvisados, o que corresponde à ideia orwelliana de que o falante da novilíngua "faz fluir o discurso articulado pela laringe, sem nenhuma implicação dos centros cerebrais". Mas a novilíngua deste novo fascismo já não é imposta por um poder como o dos fascismos históricos: é um fascismo que não vem de cima, é produzido no próprio tecido das interacções sociais. Alimenta-se da cultura que habitamos e respiramos. Ninguém obriga ninguém a tornar-se falante desta novilíngua, são os sujeitos - súbditos - dela que se auto - limitam inconscientemente para se situarem no interior do jogo da linguagem em curso. Trata-se de um poder microfísico que Foucault tão bem analisou.»

António Guerreiro

in Estação Meteorológica, O fascismo da língua, ípsilon, 13 Setembro 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

End Child Marriage

Rawan, 8 anos, foi morta pelo «marido», de 40 anos, na noite do casamento. A curta notícia do El Pays - http://sociedad.elpais.com/sociedad/2013/09/09/actualidad/1378749337_077900.html - destapa uma pontinha do véu que encobre a realidade b...rutal dos casamentos forçados, que todos os anos vítima mais de 14 milhões de meninas. O mundo é só um sítio cruel para tantas e tantas crianças e mulheres...
Foto: http://unfpa.org/endchildmarriage

 Chamava-se Rawan, contava 8 anos, vivia no Iémen e morreu na noite de núpcias, vítima lesões graves nos órgãos genitais e no útero. A menina casara com um homem de 40 anos, que diversos ativistas querem ver sentado no banco dos réus. Segundo o The Huffington Post, também a família é visada, por ter permitido o casamento.
Uma menina de 8 anos casou com um homem de 40, o que é permitido no Iémen. Mas este casamento durou apenas algumas horas, já que Rawan, a menor, morreu durante a noite de núpcias, vítima de lesões graves decorrentes de atos sexuais que foi obrigada a praticar.
De acordo com o jornal britânico The Huffington Post – que cita o Al Watan, diário do Kuwait –, a menor sofreu uma rutura nos órgãos genitais e lesões graves no útero, que lhe provocaram a morte.
Esta morte provocou manifestações de repúdio por parte de ativistas locais, que querem agora que o homem e a família de Rawan sejam responsabilizados pela morte desta criança.
Aquele jornal do Kuwait escreve que muitas menores ienemitas são obrigadas a casar, bastando, para o efeito, que a família dê consentimento. Estima-se que uma em cada quatro meninas case com menos de 16 anos de idade.
Estes casamentos resultam também de extremas dificuldades económicas das famílias, que vendem as filhas para conseguirem combater a fome que assola o Iémen.
A morte de Rawan veio levantar esta polémica, sendo que os ativistas reforçaram a sua luta contra este tipo de violência contra as crianças.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

SETEMBRO




SETEMBRO

 

Aonde estará aquela doce nostalgia de Setembro? Aquelas despedidas de Verão, divididas entre o desgosto e lassidão da partida e a ansiedade do porvir? Onde estão as melodiosas canções dos prelúdios outonais?

Com metade do país a arder por incúria do poder ou grunhice e miséria cívica do povo, com as músicas apimbalhadas da época ou o fartote de percussão, berros e passas dos festivais para os juves…, com os anciãos arrastando-se sozinhos, com as famílias, coitadinhas, ausentes. Com cães e gatos deixados à caridade dos vizinhos ou de algum veículo de passagem que lhes dê melhor sorte, cresça depressa Setembro, mesmo com a ameaça de mais uma farsa autárquica, para votarmos em quem não conhecemos e que vai seguir interesses de poderes mesquinhos.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Salazar sem Pide

Num destes fóruns radiofónicos aberto ao público em geral, um encantador participante declarou, que perante a sua desilusão acerca do nosso leque partidário, sugeria que Portugal devia ser governado por um novo Salazar... mas sem Pide.
Felizmente um outro ouvinte que se lhe seguiu, acrescentou, muito acertadamente que "não há Salazar sem Pide".
É com estas intelijumências iguais à do 1º ouvinte que elegemos a qualidade de gente que está nos postos cimeiros da nação.

terça-feira, 30 de julho de 2013

7 anos de prisão e 600 chicotadas...

Arábia Saudita condena activista dos direitos humanos a sete anos de prisão e 600 chicotadas


Raef Badawi, de 35 anos, estava detido desde Junho do ano passado.
                                        
Um tribunal saudita condenou nesta segunda-feira um activista dos direitos humanos a sete anos de prisão e 600 chicotadas por ter criado uma fórum online "liberal" e por insultos ao Islão.
"Raef Badawi foi condenado a sete anos na prisão e 600 chicotadas” escreveu no Twitter o advogado de defesa, Waleed Abualkhair, acrescentando que o juiz ordenou o encerramento do site Rede Liberal Saudita. O advogado afirmou que Badawi, co-fundador do site, foi acusado de criticar a política religiosa e de apelar à “liberalização religiosa”.
 
Em Dezembro, um juiz tinha também remetido Badawi para um tribunal superior por renúncia à crença religiosa, um crime que pode levar à pena de morte na Arábia Saudita, mas as autoridades desistiram da acusação.
 
Badawi, de 35 anos, foi detido em Junho do ano passado por razões então desconhecidas. A rede que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari anunciou a 7 de Maio de 2012 um “dia de liberalismo” naquele reino muçulmano, pedindo o fim da influência da religião na vida pública da Arábia Saudita.
 
Este não é o primeiro caso em que as autoridades actuam por causa de actividades na Internet. Em Fevereiro do ano passado, um blogger saudita que estava na Malásia acabou deportado e está detido sob acusações de blasfémia, por ter publicado no Twitter comentários considerados insultuosos para o profeta Maomé.
 
in PUBLICO, por

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O bom Francisco


   Nos seus 76 anos, o novo Papa Francisco concita simpatias e adesões babadas. O discurso do chefe do Vaticano não deixa de ser encantatório e cheio de misericórdia para com os excluídos e vítimas de todas as prepotências deste mundo. Mas, já estamos escaldados do bonzão e actualmente santo João Paulo II, que foi um dos papas mais conservadores e retrógrados desde o Concílio Vaticano II.
   Para eu me babar com Sua Santidade Francisco, seria preciso:
      a) acabar com a hipocrisia do celibato dos padres.
      b) abrir o sacerdócio às mulheres.
      c) não continuar a proibir o preservativo, mesmo em doentes com HIV...
   Já ninguém espera anuências a favor da IVG ou outras possibilidades laicas, porque se sabe que nenhuma religião as aprova. Mas, tenham dó! Os seminários estão vazios. Por que será?

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Moção masturbatória


   Legal, regimental ou seja lá o que for a próxima moção de confiança ao governo remendado, que vai ser posta em prática pela maioria parlamentar é simultaneamente cómica e ridícula. O governo é sustentado pela maioria e pelo PR, gentinha de direita, abençoados pela troika e pelos agiotas nacionais e internacionais, tudo numa incestuosa prática, que vai levar a esse filme decadente da dita moção. Vou procurar não ouvir nem ver reportagens desse logro.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Carlos Alberto Machado

[elipse, o rapaz]


o homem é de novo menino e corre corre pelas ruas de
                                                                  basalto negro
e à noite recolhe-se no baldio com trapos e sucatas
                                                                     e raízes
                                                                     podres
antes de adormecer olha o céu negro sugado de estrelas
e adormece sobre camadas de jornais velhos
passa o sono a viajar na matéria dos sonhos
e é menino ainda quando acorda
abre muito os olhos
como se pudesse ver o futuro
mas não vê


in O GATO VISITADOR, volta d'mar, 2013, pág.23 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Frase

"Uma boa frase cria a sua verdade. É por isso que os políticos escolhem meticulosamente os seus slogans para criarem a deles." Vergílio Ferreira

quinta-feira, 4 de julho de 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Telhados de Vidro nº 18

 
Direcção: Inês Dias e Manuel de Freitas
Arranjo gráfico: Inês Mateus (sobre grafismo de Olímpio Ferreira)
Capa: Maria João Worm


Aos domingos
aos domingos o golo no estádio
chega até minha casa
e até ao mar

O próprio sol
é uma imagem de couro no espaço

a chuva
uma imagem de redes batidas

Ah Que fazer
senão esperar pela semana

dormindo



António Reis, Poemas Quotidianos, Lisboa, Edição do Autor, 1957

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Vitor Silva Tavares


Prémios...
Tem a chafarica o prazer de informar que o alegado «editor» VST declinou aceitar, e portanto receber, um tal «prémio carreira» que por aí tem sido divulgado. O referido «editor» fez questão de comunicar à festiva mensageira que não sendo carreirista de coisa nenhuma, mais lhe surgia adequado atribuir tal prémio ao Tony Carreira, isto porque não se lembrou na altura da carreira 28 dos eléctricos, essa que, sim, frequenta.

O prémio foi pois atribuído à revelia.
 
in http://editoraetc.blogspot.com.br/, Março de 2013
 
Nota: Leia-se no recente nº 3 da revista literária Cão Celeste, Maio 2013, dirigida por Inês Dias, Manuel de Freitas e com a coordenação gráfica de Luís Henriques, um interessante texto acerca desta respeitável e coerente recusa do referido editor, da autoria de Pádua Fernandes, pág. 8.
 
 

sábado, 22 de junho de 2013

Quadra Sanjoanina 2013















S. João santo do povo,

Do manjerico e do alho,

Dá-nos um governo novo

E manda este pró

 

 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O que é isto?


   O que se passa com o poder autárquico neste "nosso" município do Porto?
   Não se realizou a Feira do Livro, como era usual desde há 82 anos, falha vergonhosa, nesta cidade de Garrett, Camilo, Agustina, Eugénio, Jorge de Sena, Sophia, António Nobre, Soares de Passos, José Gomes Ferreira, etc e tantos outros que por aqui passaram como Eça de Queirós (frequentou o Colégio da Lapa) ou Florbela Espanca que se finou em Matosinhos. E mais uma palavra para os que actualmente cá vivem, que se sentiram ainda mais invisíveis por esta grave falha.
   Agora diz o autarca maior que o S. João vai deixar de ser feriado municipal. E isto é assim? A população não é tida nem achada para nada acerca de uma das suas marcas de identidade? Os feriados municipais são uma instituição em todo o país; todos os municípios têm um dia feriado, geralmente consagrado a um patrono religioso, pois que essas tradições são antiquíssimas. E que tal se o Stº. António, em Lisboa, deixasse de ser feriado?
   Já chega de tanta prepotência e menosprezo pelos portuenses e pelo sítio da nação, de onde "houve nome Portugal".

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Maria Bethânia/Álvaro de Campos


   Mandato de despejo aos mandarins do mundo

 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Servidões das "Servidões"


    "Mal tinha saído, já Servidões (numa edição de cinco mil exemplares e com reedição interdita pelo autor, informou a editora) estava esgotado na maior parte das livrarias. Estranho fenómeno este, de precipitação e multiplicação de leitores e compradores de um livro de poesia - o único medium de massa em que o número de produtores ultrapassa o dos consumidores, como escreveu uma vez o poeta e ensaísta Hans Magnus Enzensberger. Um dos factores que explicam o que aconteceu é ao mesmo tempo perverso e irónico: Herberto Helder zela tanto pela autonomia da sua obra (e isto significa, sobretudo, fazer com que ela apareça, livre de tudo o que a parasite ou a desvie para um espaço que não é o seu), que acabou por criar as condições aptas a um investimento mercantil: o seu livro é capturado por especuladores, como se se tratasse de um produto financeiro ou de uma mercadoria rara. E para que seja considerada rara é preciso que se torne objecto de um desejo de posse e não de leitura, pois o acesso a esta está sempre garantido e não se pode manter como desejo, não pode ser objecto de especulação. A este triunfo do valor de troca (ou melhor, da perspectiva de que ele vai triunfar, como acontece nos valores cotados na bolsa) soma-se um outro factor que o potencializa: o papel que na sociedade de massa têm os "filisteus cultivados" (tal designação, em que a palavra "cultivados" não deve ser substituída por "cultos", é de Hannah Arendt)."

António Guerreiro in Estação Meteorológica, ípsilon 14-06-13

Herberto Helder

"(...)A beleza herbertiana é trágica, é sempre uma composição a partir do caos e não traz consigo nenhuma salvação. Apresenta-se sob a forma demoníaca da imaginação alegórica: anti-representativa, anti-humanista, anti-mimética. Esta poesia interrompe o curso do mundo. É uma catástrofe."

António Guerreiro in ípsilon, 14-06-2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fernando Pessoa

"Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue."

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.

domingo, 9 de junho de 2013

Camões

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m' espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado.
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que: só para mim
Anda o mundo concertado.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Victor Oliveira Mateus


A ferida era aquela tarde antecipando o fim.
As minhas mãos trôpegas a procurar-te
abrigo num guarda-chuva grosseiro
e rombo, e numa vida que me abandonava
sem que tu o entendesses. A ferida
surgia, certeira e fera, no mais ínfimo
pormenor, pormenor esse que tu não vias,
pois de tudo se estava longe (ainda),
excetuando, contudo, um dorido
abandono a infiltrar-se insidiosamente
nos meus olhos. A ferida éramos nós pela rua:
tu a puxares o guarda-chuva para ti
e eu, sem que te apercebesses, gotejando
um fogo que o vendaval alimentava.

A ferida era eu, desajeitado, frente
ao parquímetro com as moedas sempre
a caírem-me e tu perguntaras-me
o que era uma retrosaria. A ferida
éramos nós a rir, a rir por haver palavras
iguais que, nos intentos iguais, não falavam
de coisas iguais... e isso era bom,
pensaria o meu Proust, que no complexo
buscava a harmonia para só depois tentar
o simples. A ferida era esse futuro caminho
com o oceano já a avançar, essa razia
do tempo numa cidade a findar-se
comigo a ler-nos por dentro - última
tentativa de suster o irremediável.


in Gente dois Reinos, Labirinto 2013, Fafe, pág.26.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Federico García Lorca

Federico García Lorca
Fuente Vaqueros, 5 de Junho de 1898 — Granada, 19 de Agosto de 1936
 
 
El remanso del aire
bajo la rama del eco.

El remanso del agua
bajo fronda de luceros.

El remanso de tu boca
bajo espesura de besos.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Sagração da Primavera - 29 de Maio de 1913

"A Sagração da Primavera, do compositor russo Igor Stravinsky, subverte a estética musical do século XX, dando origem ao Modernismo. A célebre composição musical deste irreverente artista do século passado é hoje considerada um símbolo da musicalidade erudita, mas na época causou polémica ao embalar o ballet em dois actos criado pelo não menos rebelde Vaslav Nijinsky, coreógrafo também originário da Rússia.
(...) e a estreia se deu em pleno Théâtre des Champs-Élysées, na capital francesa, no dia 29 de maio de 1913.
Esta obra revolucionou praticamente todas as principais características da música de então, ou seja, o arcabouço do ritmo, a estrutura orquestral, o timbre, a forma, os aspectos harmónicos, a maneira como se utilizavam as dissonâncias, e o valor conferido à percussão, a qual sobrelevava a própria melodia, algo impraticável até este momento.
Não foi casualmente que esta peça escandalizou a sociedade da França em sua estreia. O público não sabia como assimilar tantas mudanças e subversões, não estava preparado para recepcionar positivamente esta nova estética. A proposta coreográfica também foi rejeitada, por seu carácter primitivista, pelo resgate da ancestral arte rupestre.
Sobraram vaias para todos os lados, e o caos se instaurou na plateia. Diversos músicos e maestros se retiraram do teatro logo no começo da representação, revoltados com a nova abordagem dos instrumentos. Actualmente a história de sua polémica apresentação talvez seja mais conhecida que a obra em si.
O espectáculo é estruturalmente dividido em duas partes essenciais: a adoração da terra e o sacrifício. A orquestra é composta por 8 trompas entre 38 instrumentos de sopro. Tudo tem início com a execução de compassos de fagote, seguidos pelo princípio de uma musicalidade lituana, por um andamento sem nenhuma simetria e repleto de padrões complexos, e por um timbre raro nos instrumentos.
Ainda hoje sua natureza subversiva desnorteia o público, por seu teor provocativo e incivilizado. No palco desfilam cenas ancestrais e excêntricas, despertando em quem as assiste emoções aflitivas. Músicas de natureza folclórica distorcidas, uma feroz estruturação de ritmos totalmente independentes, harmonias politonais desagradáveis aos ouvidos, a rejeição drástica das frases longas, a transferência constante dos acentos rítmicos, a inebriante criação de novos timbres, são características que contribuem para o desconcerto do público. Mas também são aspectos que transformam A Sagração da Primavera em uma completa detonação de energia e vida. (...) "

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A semana que passou


  Um pouco distraída da actualidade tuga, para não entrar em constatações deprimentes, apetece-me, hoje alumiar (ou escurecer) alguns episódios semi-burlescos da semana passada. Começarei pelo caricato português do Prof. Cavaco, com os seus "cidadões", que até nem resistiu a bisar na mesma frase. Ainda a mesma personagem resolveu convocar a mãe de Cristo para assuntos de traficância e agiotagem financeira, com a evocação de uma deliciosa cena doméstica digna dos velhos livros da Instrução Primária do Estado Novo.
  Outro assunto da semana ou mais concretamente de domingo, foram as excitações futebolísticas. Claro que eu até acho graça às vitórias do F.C.P. perante a estultícia e o convencimento do clube da capital do império. Acho menos graça aos 4 milhões que esse mesmo clube paga, ao que dizem, ao seu treinador, que pelos vistos até nem ganha taças nem campeonatos. Quanto ao jogo ou à indústria que tanto ocupa e faz vibrar tanta gente, temos que nos render ao facto de que faz parte do nosso mundo. Mas, acaba por ser uma cena primitiva e atávica, que muitas vezes despoleta os piores instintos nos seres humanos e fazer meia dúzia de tipos, no mundo, ganhar quantias obscenas. No joguinho, lá está a arena verde, as massas ululantes a reclamar identidades, cores e pertenças, lá está uma catrefada de violadores das redes, enquanto outros potenciais violadores da baliza do "inimigo"  defendem a própria, apesar de lesões, punições e insultos. Lá está um juíz, que apesar dos avanços tecnológicos continua a "julgar" a olho nu, para que assim o erro e caganeira humana, que quase sempre tráz cifrões na ponta, possam continuar a entreter a turba. Por tudo isto este é um grande "desporto" de massas...
   Parece mesmo que a única coisa ética e humanamente válida desta semana, foi a aprovação no nosso desclassificado Parlamento de uma lei que procura fazer justiça a gente de bem.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Três epigramas de Goethe


Não queres deitar-te nua a meu lado, doce amor;
Envergonhada, continuas a esconder-te de mim sob as roupas.
Ouve, achas que desejo os teus vestidos? Ou desejo-te o adorável corpo?
Repara, a vergonha é um vestido. Entre amantes, despe-se!

                                      *

Todos, filha, me dizem que me enganas.
Ah, continua sempre a enganar-me assim!

                                      *

Procurei muito tempo uma mulher; procurava, só encontrava pegas.
Finalmente apanhei-te, minha pegazinha, e que mulher eu encontrei!



in Erotica & Curiosa, J. W. Goethe, Apáginastantas, Lisboa 1986,
trad. de João Barrento

terça-feira, 30 de abril de 2013

Inês Dias

    LEI SÁLICA


As  mulheres da família sempre
tiveram  um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.


Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.


Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.


Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.

pág. 10



   RESTAURAÇÃO


Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.


Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.

pág, 14

in UM RAIO ARDENTE E PAREDES FRIAS,
Ed. Averno, Lisboa 2013.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

quarta-feira, 24 de abril de 2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

Dia Mundial do Livro


 LIVROS USADOS

Tudo que se disse depois e
ainda se diz, pode estar num usado
exemplar de Crime e Castigo ou da Utopia.
Os livros usados - mesmo
mesmo que se chamen Utopia -
têm aquela terna docilidade
das páginas em que outras
mãos passaram, ao contrário
dos novos, que em rígidas e
intactas páginas são só apenas
papel impresso.

E para escassos amigos, quando
se fugiu duma livraria de
consumíveis tops,
talvez seja essa
a melhor oferta.

Inês Lourenço
in A Disfunção Lírica, & etc, 2007 Lisboa.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Manuel Gusmão


uma árvore é um anjo

um anjo lenhoso, altamente inflamável,
de alto a baixo prometido
a um incêndio que a si mesmo se combatesse

uma árvore é um anjo da terra
um anjo que está sempre a enraizar-se
e a erguer-se a poder de braços

Uma árvore conhece pouco
das nossas maneiras de lutar
e morrer; por isso:

uma árvore é e não é um anjo



in Da Linguagem das Árvores e do Vento,
pág.27 , em PEQUENO TRATADO DAS
FIGURAS, 2013.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Jorge Sousa Braga


 O novíssimo testamento

     para acabar de vez com os direitos humanos
     e restaurar os direitos divinos

Escrevi este testamento com sangue
de galinha
eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas
condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de
      galinhas-da-índia patos perus gansos garnizés
e a cacarejar pela noite fora
sem que um só galo da vizinhança me responda
nem os galos dos cataventos
- quando o galo cantar renegar-me-ás três vezes quando o galo
      cantar -
Quando era criança antes de matar uma galinha
a minha mãe pedia-me para lhe prender as pernas e as asas
eu metia as mãos por debaixo da saia e prendia-lhe as asas e as
      pernas com todas as minhas forças
O sangue jorrava da sua cabeça para uma malga com vinagre
e ficava depois muito tempo ainda a espernear no alguidar
o pequeno olho muito aberto...
Os meus sonhos estão cheios de cabeças de galinha
ainda escorrendo sangue
de milhões de asas de milhões de patas de galinha de milhões
       de ovos
Quem vai bater esta gigantesca omeleta de ovos
na frigideira celeste?
A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas
Que tamanho tem a alma dum mosquito?
Proclamo a minha solidariedade com todos os biliões de frangos
       do planeta
que tentam em vão escapar à máquina de depenar eléctrica
com todos os carneiros cabras ovelhas avestruzes
- Eu sou um cordeiro inocente que se perdeu do pastor
e não sabe senão balir -
com todas as vacas
condenadas a comer rações impróprias e a um orgasmo gelado
No silêncio dos estábulos elas preparam a sua vingança
enquanto sonham com um prado verde de gramíneas
- e essa vingança será terrível -
Este é um testamento escrito com o sangue
do último dos genocídios
- e esse sangue é da cor do alcatrão -
tendo como testemunhas apenas as duas metades
do meu coração

in RESUMO a poesia em 2012, pág.102 e 103, Ed. Documenta.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

ANA HATHERLY


A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se


... O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita


O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende


E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta


- ANA HATHERLY -

terça-feira, 9 de abril de 2013

Fernando Guimarães

    Morte

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.


in RESUMO a poesia em 2012,
pág. 82, Ed. Documenta.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

António Ramos Rosa

O mais seguro abrigo
é o que oscila um pouco
como se oscilássemos
sobre a matéria viva
ou no coração do espaço

             pág.46


O poema deve
aparecer
como um objecto supérfluo
e surpreendente

              pág.47


Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida

              pág.48


in RESUMO a poesia em 2012, Ed. DOCUMENTA, Lisboa.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A obra magistral de Óscar Lopes



«Neófito, a morte não existe»
- lembrando Óscar Lopes

Óscar Lopes foi um homem bom. E foi um homem humilde como só os homens sábios sabem ser. Humilde no saber, nas certezas, sempre pronto a rever-se e a ensaiar novas soluções para o mar de interrogações por onde navegava procurando persistentemente respostas, sem que isso implicasse perda de um norte ideológico que toda a vida procurou com perseverança, estudo e abertura de espírito. A vida desafiava-o quotidianamente e todos os planos da realidade o interpelavam, por isso nunca se fechou numa única área do saber, nunca foi rato de biblioteca, embora tivesse sido um leitor compulsivo, nunca se fechou ao chamamento do mundo, quer o mundo fosse a sua escola, a sua cidade, o seu partido, o seu país, o planeta, o cosmos. Tudo o interessava e por isso era tão fascinante ouvi-lo, sempre apaixonado pelo ato de pensar, falar, quer da história duma palavra, como da de um longínquo astro, quer de uma qualquer estrutura linguística, como de um verso de Camilo Pessanha, quer da música que tanto amava, como do último problema de lógica com que se debatia. Amava a humanidade e o mundo tão agreste em que lhe foi dado viver.

A curiosidade intelectual insaciável faz dele, jovem professor de português nos liceus, já com duas licenciaturas feitas, um incansável estudioso da literatura e da língua. Começa por se dedicar à historiografia literária, publicando abundantemente já nos anos 40, mas, depois, a crítica literária da produção contemporânea atrai-o e torna-se um brilhante ensaísta, que publica nas páginas do Comércio do Porto, durante as décadas de 50 e 60, uma crítica extremamente original, atenta à materialidade formal do texto literário, na qual vai construindo o seu conceito singular de “realismo problemático ou dialético”, um realismo longínquo da tradição oitocentista e heterodoxo relativamente a neorrealismo imperante, que se manifesta sempre que a literatura resiste ao senso comum e produz um alargamento de mundos. Através desse exercício crítico vai afinando o seu conceito de que a leitura tem sempre um carácter provisório. Ler é fazer tentativas, é ensaiar sínteses, pontos de equilíbrio num palco de conflitos que um texto sempre constitui. Por isso, para Óscar Lopes, a leitura de um texto literário constitui um desafio para quem lê: “compreender, realmente, uma obra é compreender-se melhor.”

Esta tentativa de ler com propriedade e instrumentos tão rigorosos quanto possível leva-o a mergulhar mais no estudo da língua. Nos anos 60, num clima intelectualmente adverso, impedido até, por algum tempo, de ensinar, controlado nos contactos, movimentos, correspondência, em clima de grande solidão intelectual, Óscar Lopes torna-se um investigador de ponta no campo da linguística. Escreve, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, a inovadora Gramática Simbólica do Português, a partir das experiências que faz com os seus estudantes adolescentes, cruzando formalmente o ensino do português com o da matemática. Quando, com o 25 de Abril, vê finalmente abrirem-se-lhe as portas da Universidade, será no campo da linguística que exercerá o seu magistério. Eu, então jovem assistente universitária, recordo o pasmo com que assisti a algumas das aulas de Linguística Matemática e Computacional que dava nos intervalos que a gestão da Faculdade de Letras do Porto, em quotidiano processo de mudança e democratização lhe permitiam, gestão que ele abraçou com o entusiasmo que punha em tudo.

Claro que todos o lembramos por essa obra fundadora de uma historiografia literária nova, arredada da historiografia positivista imperante, que escreveu a duas mãos com o amigo de sempre, António José Saraiva, a História da Literatura Portuguesa, a qual, com cerca de 20 edições, formou gerações de estudantes em Portugal e no Brasil. Mas ela é apenas a parte com mais visibilidade da obra muito mais vasta e complexa, até muito tarde desconhecida, deste homem do norte.

A bondade já evocada de Óscar Lopes, fruto evidentemente da sua elevada dimensão ética, também decorre em grande medida do ensaísmo que sempre praticou em todos os domínios – ensaísmo no seu sentido etimológico de ensaiar, tentar, encontrar soluções e tentar de novo novas hipóteses. A sua bondade manifestava-se neste espírito de abertura ao conhecimento e ao diálogo com o outro. Das coisas de que mais gostava era de trocar, debater, defender ideias e por isso ouvia o outro com uma disponibilidade sem limites: do aluno principiante ao intelectual ou ao criador de maior renome. Ouvia-os com um interesse genuinamente idêntico conjugando ao máximo os seus próprios preconceitos ou pressupostos ideológicos. O membro do Comité Central do PCP que também foi durante algum tempo não adotava qualquer ortodoxia nas suas opções ideológicas ou epistemológicas.

Um dia, em 1992, Óscar Lopes escrevia a um António José Saraiva doente e desalentado: “Só o enfraquecimento da convicção é que nos pode dar a obsessão da morte. Lembra-te do verso de Pessoa, no poema Iniciação: «Neófito, a morte não existe». Cada um de nós é muito mais (e muitos mais) do que aquele que se vê. (…) «Neófito, a morte não existe», a não ser na falta de convicção de verdade ou de valor».

Era assim Óscar Lopes, não acreditando na morte e perseguindo sentidos de verdade para a vida no pensamento.

Isabel Pires de Lima
Publicado no JN a 28-03-2013









segunda-feira, 25 de março de 2013

Amalia Bautista

OS MEUS MELHORES DESEJOS

Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.

in "Estou Ausente", Averno 2013, pág 21, trad. de Inês Dias.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Oscar Lopes


Seu filho, Sergio Lopes,  acaba de nos comunicar o falecimento de seu pai, Oscar Lopes,
esta tarde.

O corpo estará até amanhã exposto na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, em frente do café Garça Real, na Praça D.João I .

Sábado, ás 15 horas , haverá uma pequena cerimónia, com uma intervenção de um membro do PCP e  outra a cargo da Prof. Doutora Isabel Pires de Lima,  finda a qual o corpo seguirá para o crematório do cemitério de Matozinhos

 
Breve Nota Biográfica


 









Oscar Lopes (1917 – 2013)
 Licenciou-se em Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Foi professor efectivo do Liceu Nacional de Vila Real e dos liceus Alexandre Herculano e Rodrigues de Freitas, do Porto. Em 1975 ingressou, como professor catedrático, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se jubilou.
Militante do Partido Comunista Português, fez parte do seu Comité Central.
Crítico literário, publicou uma vasta colaboração em diversos jornais e revistas, onde se destacam a Seara Nova, a Vértice, o Mundo Literário, o Colóquio/Letras e o suplemento literário de O Comércio do Porto.
Pelos seus trabalhos de ensaio e crítica recebeu o prémio Rodrigues Sampaio da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e o prémio Jacinto do Prado Coelho (1985), instituido pelo Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários.

 Na Universidade do Porto desempenhou, entre outros cargos, o de vice-reitor da Universidade (1974-1975) e o de director da Faculdade de Letras (1974-1976).
Recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, em 1989, e a Ordem da Liberdade, em 2006.
É autor de dezenas de obras no domínio da linguística e da literatura, de que destacamos:
 na  Linguística
- Gramática simbólica do português. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2.ª ed., corrigida, 1972.

 - Entre a palavra e o discurso: Estudos de Linguística (1977-1993). Porto, Campo das Letras, 2005.
na Literatura e crítica literária
-  História da Literatura Portuguesa (com António José Saraiva).

-  Antero de Quental: Vida e Legado de Uma Utopia. Lisboa, Editorial Caminho, 1983.
-  Os Sinais e os Sentidos: Literatura Portuguesa do Século XX. Lisboa, Editorial Caminho, 1986.

- Entre Fialho e Nemésio: Estudos de Literatura Portuguesa Contemporânea. 2 vols., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia

ANONYMUS


Não me tragas um poema
de sentidos inócuos, nem engenharias gráficas a ocupar
a página. Afasta-te dos bons sentimentos, das
mansas paisagens com asas de permeio
ou brancas flores de salgueiro. Modela o barro
das palavras como um artesão anónimo
inventa a própria ferramenta
a ferir os dedos
na proximidade da pedra


E não incandesças no ludíbrio
do amor. Esse também pouco vale
mais que um mero espelho, se
a ti próprio procuras possuir ou vencer
em quem julgas amar


Nem me fales da luz dos deuses,
que já envelheceram
há milhares de galáxias
caídos na demência senil
e caídos nós nesta orfandade sem mistério


No dia paralelo ao
teu nascimento, decerto transporás
a porta das horas pela derradeira vez
ciente por fim da vacuidade
dos versos onde te escondeste.


Inês Lourenço
2013

terça-feira, 19 de março de 2013

Sermão do Bom Ladrão


Não são ladrões apenas os que cortam as bolsas.Os ladrões que mais merecem este título são aqueles a quem os reis
encomendam os exércitos e as legiões, ou o governo das províncias, ou a
administração das cidades, os quais, pela manha ou pela força, roubam e
despojam os povos.
Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros
furtam correndo risco, estes furtam sem temor nem perigo.
Os outros, se furtam, são enforcados; mas estes furtam e enforcam.


Padre António Vieira

sábado, 16 de março de 2013

Natália Correia

São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993



A defesa do poeta



  Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Natália Correia

terça-feira, 12 de março de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

Fruto Proibido


Ela era a árvore da sabedoria. Erguia-se no centro do Éden. E o par bíblico estava impedido pela divindade, uma certa divindade bastante despótica, de consumir os frutos que dela pendiam iridiscentes e mágicos. Até que no decorrer daquele tempo indefinível e sem medida, que é o tempo gerido pelos deuses, a parte feminina do casal decidiu ceder à tentação da busca do conhecimento, às rotas ignoradas do Bem e do Mal, coisas imponderáveis até ali. Não sabia, pois a acção de saber era-lhe interdita, se ela própria existia há séculos ou milénios naquele ininterrupto estado edénico de inconsciência. Pois nada se renovava porque nada morria, nada se construía porque nada era destruído. E assim se iniciou a História da Humanidade, graças a uma mulher e a uma árvore.

A celebração de cinco décadas da Cooperativa Árvore, sita no Passeio das Virtudes, na cidade do Porto, convocando simultaneamente a data de 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, numa tessitura criativa da autoria de 50 mulheres, transporta-nos pelos materiais eleitos, como a lã em diversos estádios ou o burel, a uma ancestralidade simbólica de onde é possível interrogar percursos, avanços e recuos. Assim como a simbólica que acompanha a figuração da árvore se impõe pela completude que a define: simultaneamente ligada às raízes e à Mãe Terra mas também a uma verticalidade celeste, que a faz assim detentora de todas as forças do Cosmos, num todo harmonioso, onde não há exclusões.

Neste ano de 2013 e apesar da enorme caminhada percorrida no que ao estatuto das mulheres nas sociedades diz respeito, sobretudo nas sociedades do comummente denominado Ocidente, interrogamo-nos ainda perante práticas selváticas como a da violência doméstica e os assassínios de esposas e companheiras que perfazem, no nosso país algumas dezenas por ano, sem contar com as tentativas de homicídio que não chegam a provocar a morte, mas originam brutais lesões físicas e psíquicas. A realização profissional sai muitas vezes prejudicada e até abandonada devido às tarefas familiares, que muito lentamente começaram a ser partilhadas pelo elemento masculino do casal. De notar que as próprias mulheres tardam em reconhecer estas candentes questões de género e não se obstinam em mudar os modelos arcaicos que herdaram das mães e avós e prolongam nos filhos e na auto-estima, que reduzem apenas às proporções da silhueta, as segregações de género em que foram educadas. No mundo islâmico a condição feminina é deplorável, desde as burkas e outras peças de vestuário obrigatórias, até às mutilações genitais de meninas, aos casamentos encomendados pela família ou às sentenças de morte pelo crime de violação de que foram as vítimas. Casos recentes desde a Nigéria ao Paquistão têm sido notícia e motivo de pedidos de clemência por parte de organizações internacionais de Direitos Humanos. O flagelo das violações, em muitas zonas do Planeta, foi ultimamente posto em evidência pelo horrendo episódio indiano, em que uma jovem estudante foi vítima de um grupo de estupradores, dentro de um autocarro, incluindo o próprio motorista.

Para terminar esta breve evocação da situação actual das mulheres, no mundo, terá porventura algum interesse lembrar aqui a figura de Carlota Beatriz Ângelo (1871-1911), nascida na Guarda, onde há uma escola com o seu nome, que foi a primeira eleitora portuguesa e das primeiras da Europa. Licenciada em Medicina pela Escola Politécnica de Lisboa, conseguiu mercê do veredicto de um tribunal, o direito a votar para a Assembleia Constituinte, em 1911, direito só atribuído aos cidadãos chefes de família, que soubessem ler e escrever. Como Carlota estava viúva e era mãe, foi possível apresentar-se como chefe de família e assim poder votar após larga controvérsia. Porém, logo no ano seguinte a lei foi modificada, não fosse o diabo tecê-las e foi aposto no texto legal aos ditos cidadãos “do sexo masculino”. O sufrágio universal, a que iriam ter acesso todas as mulheres portuguesas, só se concretizou após a revolução de 25 de Abril, de 1974. Tinham passado mais de 60 anos.

Março de 2013
Inês Lourenço

domingo, 24 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Vasco Graça Moura

sobre a minha cidade

sobre a minha cidade, falei-te ontem mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.

in "visto da margem sul do rio - o porto", Porto, Modo de Ler 2012.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mamografia de Mármore

in Expresso - Caderno de Economía, 26 de Janeiro 2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

José Ángel Cilleruelo

PRESENTACIÓN DE BARCELONA 08009

Cómo se aburriría entre nosotros
Rimbaud. Sin su melena, su pipa,
sin un talud al borde del caminho
donde echarse a dormir, nos saludamos.

Oficia el viejo sacerdote, ateo
por desmemoria, de la poesía.
Café del Centro, calle de Girona
sesenta y nueve. Junio ensucia y afea.

Qué nos haría hermanos de Rimbaud?
Envejecemos muy despacio, en calma.
Nadie nos amenaza en el asilo

de malos editores y ninguna
reseña. Pero nos queremos mucho,
porque, muerto Rimbaud, no queda vida.

in MALEZA (Cilclo completo 1990-2010), pág. 204
HUACANAMO, Barcelona.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Avacalhamentos

     Há algumas diferenças entre boçalidades e vernáculo. No programa de entretenimento, de uma das nossas estações televisivas, a famigerada "Casa dos Segredos", só da mais repelente boçalidade se trata. Sim, porque umas vernáculas caralhadas ou exclamativos "foda-se", usam-se na melhor literatura. Mas, aquela insistência badalhoca de falar constantemente em "por cima e por baixo", se os concorrentes estão, ó suprema epifania, encaixar-se debaixo dos edredons é de vómitos, reduzindo as pessoas a microcéfalos apenas com existência da cinta para baixo. Recuso-me a admitir, que aquela gentinha rasca, tem alguma coisa a haver com uma desejável juventude portuguesa. Engalanar os corpos, bem despidinhos e depilados, sem cuidar de outras características do humano é uma orientação horrenda e condenável, sobretudo se se trata de um programa de larga audiência, visto por pré-adolescentes e crianças.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

7 de Janeiro de 1355

Faz hoje 658 anos que foi

executada Inês de Castro

por ordem de Dom Afonso IV




Episódio da linda Inês


Passada esta tão próspera vitória,

Tornado Afonso à Lusitana Terra,

A se lograr da paz com tanta glória

Quanta soube ganhar na dura guerra,

O caso triste e dino da memória,

Que do sepulcro os homens desenterra,

Aconteceu da mísera e mesquinha

Que despois de ser morta foi Rainha.



Tu, só tu, puro amor, com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga,

Deste causa à molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que a sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.



Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuito,

Aos montes insinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.



Do teu Príncipe ali te respondiam

As lembranças que na alma lhe moravam,

Que sempre ante seus olhos te traziam,

Quando dos teus fernosos se apartavam;

De noite, em doces sonhos que mentiam,

De dia, em pensamentos que voavam;

E quanto, enfim, cuidava e quanto via

Eram tudo memórias de alegria.



De outras belas senhoras e Princesas

Os desejados tálamos enjeita,

Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,

Quando um gesto suave te sujeita.

Vendo estas namoradas estranhezas,

O velho pai sesudo, que respeita

O murmurar do povo e a fantasia

Do filho, que casar-se não queria,



Tirar Inês ao mundo determina,

Por lhe tirar o filho que tem preso,

Crendo co sangue só da morte ladina

Matar do firme amor o fogo aceso.

Que furor consentiu que a espada fina,

Que pôde sustentar o grande peso

Do furor Mauro, fosse alevantada

Contra hûa fraca dama delicada?



Traziam-na os horríficos algozes

Ante o Rei, já movido a piedade;

Mas o povo, com falsas e ferozes

Razões, à morte crua o persuade.

Ela, com tristes e piedosas vozes,

Saídas só da mágoa e saudade

Do seu Príncipe e filhos, que deixava,

Que mais que a própria morte a magoava,



Pera o céu cristalino alevantando,

Com lágrimas, os olhos piedosos

(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando

Um dos duros ministros rigorosos);

E despois, nos mininos atentando,

Que tão queridos tinha e tão mimosos,

Cuja orfindade como mãe temia,

Pera o avô cruel assi dizia:



(Se já nas brutas feras, cuja mente

Natura fez cruel de nascimento,

E nas aves agrestes, que somente

Nas rapinas aéreas tem o intento,

Com pequenas crianças viu a gente

Terem tão piedoso sentimento

Como co a mãe de Nino já mostraram,

E cos irmãos que Roma edificaram:



ó tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar hûa donzela,

Fraca e sem força, só por ter sujeito

O coração a quem soube vencê-la),

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela;

Mova-te a piedade sua e minha,

Pois te não move a culpa que não tinha.



E se, vencendo a Maura resistência,

A morte sabes dar com fogo e ferro,

Sabe também dar vida, com clemência,

A quem peja perdê-la não fez erro.

Mas, se to assi merece esta inocência,

Põe-me em perpétuo e mísero desterro,

Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,

Onde em lágrimas viva eternamente.



Põe-me onde se use toda a feridade,

Entre leões e tigres, e verei

Se neles achar posso a piedade

Que entre peitos humanos não achei.

Ali, co amor intrínseco e vontade

Naquele por quem mouro, criarei

Estas relíquias suas que aqui viste,

Que refrigério sejam da mãe triste.)



Queria perdoar-lhe o Rei benino,

Movido das palavras que o magoam;

Mas o pertinaz povo e seu destino

(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.

Arrancam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,

Feros vos amostrais e cavaleiros?



Qual contra a linda moça Polycena,

Consolação extrema da mãe velha,

Porque a sombra de Aquiles a condena,

Co ferro o duro Pirro se aparelha;

Mas ela, os olhos, com que o ar serena

(Bem como paciente e mansa ovelha),

Na mísera mãe postos, que endoudece,

Ao duro sacrifício se oferece:



Tais contra Inês os brutos matadores,

No colo de alabastro, que sustinha

As obras com que Amor matou de amores

Aquele que despois a fez Rainha,

As espadas banhando e as brancas flores,

Que ela dos olhos seus regadas tinha,

Se encarniçavam, fervidos e irosos,

No futuro castigo não cuidosos.



Bem puderas, ó Sol, da vista destes,

Teus raios apartar aquele dia,

Como da seva mesa de Tiestes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia !

Vós, ó côncavos vales, que pudestes

A voz extrema ouvir da boca fria,

O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,

Por muito grande espaço repetistes.



Assi como a bonina, que cortada

Antes do tempo foi, cândida e bela,

Sendo das mãos lacivas maltratada

Da minina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está, morta, a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas e perdida

A branca e viva cor, co a doce vida.



As filhas do Mondego a morte escura

Longo tempo chorando memoraram,

E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transformaram.

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês, que ali passaram.

Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água e o nome Amores.   


  Camões, Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135

(Gama conta ao rei de Melinde a História de Portugal- e aí se insere o episódio da linda Inês)