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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Jorge de Sena (2/11/1919 - 4/6/1978)

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CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS


Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
de que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada:nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores, no túmulo.


Jorge de Sena


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Jorge de Sena

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"SER UM GRANDE POETA"



Ser um grande poeta
morto e nacional
é atrair as moscas
como idiotas e
os idiotas como
moscas.

Ser um poeta medíocre
vivo e universal
é atrair os catedráticos
de literatura como
idiotas e moscas.

Ser um poeta apenas
nem vivo nem morto
ou nacional ou universal
é atrair apenas os poetas
como moscas idiotas.

Moralidade: não há saída.



Jorge de Sena

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Nota: Hoje, não o Jorge de Sena, mas apenas as suas ossadas regressaram a solo português.
Fez-me impressão ver primeiras-damas cavaquensis e outros ex-libris do "comedimento" mental pelintra e da aurea mediocritas, a fazerem "guarda-de-honra", à cerimónia.
Restam-nos os versos, onde esse dissídio é patente.
Vou postar outros poemas deste génio do séc. XX.