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terça-feira, 26 de junho de 2018

MIRCEA CARTARESCU *


(...)
'Qual é o objecto mais valioso do mundo?', perguntam a um mestre zen. 'Um gato morto - responde ele - pois ninguém lhe poderá dar um preço'. A poesia é o gato morto no mundo de consumismo, hedonista e mediático, em que vivemos. Não se pode imaginar uma presença mais ausente, uma grandeza mais humilde, um terror mais doce. Ninguém lhe pode pôr um preço e, contudo, não existe nada mais valioso. Só a encontramos nas livrarias se temos a paciência de chegar às últimas filas das prateleiras. (Cartarescu, Mircea. El ojo castaño de nuestro amor)
Mas a poesia é muito mais do que livros abandonados em estantes recônditas, é um verdadeiro sentido. Mais à frente, Cartarescu desenvolve essa mesma ideia: "No entanto, humilhada e dissolvida no tecido social, quase desaparecida como profissão e como arte, a poesia continua a ser omnipresente e ubíqua como o ar que nos envolve. Pois antes de ser uma fórmula e técnica literária, a poesia é um modo de vida é uma maneira de olhar o mundo."


in PARALAXE, Afonso Cruz, JL de 20 de Junho de 2018

*Poeta, ficcionista e ensaísta romeno (Bucareste, 1956)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Eleições americanas 2016

"Oito anos, um preto na Casa Branca e agora uma mulher?" Os USA, por intermédio dos seus eleitores mais xenófobos, misóginos, homofóbicos, matarruanos de poucas letras, que nem sabem onde fica o Iraque nem o Vietnam, onde tantos dos seus morreram, essa gente catapultou para a presidência do país mais influente do mundo, uma simiesca personagem, que mercê dos seus biliões e dos seus dislates subiu ao pódio. Afinal não valeu de nada ao Comité Nobel travestir um cantor de protesto de autor de obra poética assinalável, porque os seus compatriotas se estiveram nas tintas para isso.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Ainda José Rodrigues


  Um desenho do Mestre ilumina a capa do n.º 2 dos Cadernos Hífen, editados em 1988.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O burkini e as mulheres de Atenas





É de uma grande hipocrisia ou então de profundo desconhecimento histórico, apelar à "liberdade" de mulheres fortemente condicionadas na sua cultura por submissões antiquíssimas e regimes teocráticos. Leva-se a estupidez a ponto de comparar as embiocadas senhoras, quase sempre ao lado de companheiros da mesma nacionalidade livremente vestidos à ocidental, a surfistas, mergulhadores, pessoas com patologias de pele, etc.
Como se diz, já dei mui...tas vezes para este peditório das infames desigualdades de género. Mas irrita-me sempre constatar que o pessoal de ocidente não quer entender o largo fosso entre a liberdade individual e os arcaicos condicionalismos de certas culturas que desaguam entre nós. Já se sabe que houve coisas mais relevantes para as mulheres, como o direito a voto, a entrada nas universidades, o controle da própria fecundidade; mas, os símbolos são importantes, como seja a evolução do vestuário e outras simbologias presentes no nosso quotidiano.
Voltando à canção, também em Atenas, o tal sítio da invenção da democracia, as mulheres não tinham quaisquer direitos políticos, como os escravos e os metecos, e estavam confinadas ao gineceu. Mas isto foi 500 anos AC.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

GEORGE STEINER

(...)
Somos bípedes capazes de sadismo indizível, ferocidade territorial, ganância, vulgaridade e todo o tipo de torpeza. A nossa inclinação para o massacre, para a superstição, para o materialismo e o egotismo carnívoro pouco se alterou durante a breve história da nossa estada na Terra. No entanto, este mamífero desgraçado e pergoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente. São eles a música, a matemática e o pensament...o especulativo (no qual incluo a poesia, cuja melhor definição será música do pensamento). Radiantemente inúteis, por vezes profundamente contra-intuitivas, estas três actividades são exclusivas dos homens e das mulheres e aproximam-se tanto quanto algo se pode aproximar da intuição metafórica de que fomos realmente criados à imagem de Deus.
(...)





in A Ideia de Europa

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Leave the kids alone





Ficaram sozinhos com as redes sociais, a partilharem as maiores humilhações e sevícias entre eles. É tempo de analisar os resultados desta fraude.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Eduardo Lourenço


 Do Colonialismo como Nosso Impensado


« (...)
E o regime de Salazar, em particular, "deu origem a uma das mais grotescas mitologias colonialistas de que há memória": a metrópole tinha colónias mas não as podia assumir enquanto tal e os " malabarismos luso-tropicalistas" de Freyre "forneciam a necessária caução científica a esta operação mágica".
   Depois, a falta de pensamento dos tempos coloniais ou imperiais foi herdada pelos tempos pós-coloniais, da descolonização: "Num caso e noutro: sem problemas. A não problematização da história portuguesa (com a excepção de Oliveira Martins) é uma das características capitais da consciência nacional, e essa ausência de olhar crítico sobre nós está relacionada justamente com o facto de sermos os prodigiosos autores de uma gesta de colonização que nunca nos pôs problemas. Quando os houve, e graves, foram os outros que no-los puseram." (...)»




DRC
in ípsilon , PÚBLICO, 26 de Setembro de 2014.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Carlos Drummond de Andrade



JOSÉ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

António Guerreiro


" Um homem entrou num café onde se encontrava a sua ex-companheira e matou-a com um tiro: esta é a primeira parte de uma notícia que pudemos ler na semana passada em vários jornais e que, de tão repetida, já não tem o valor de uma notícia, mas de uma enumeração. A segunda parte também segue um modelo: o homem foi depois entregar-se à polícia. Os uxoricidas ou se entregam à polícia ou se suicidam. Aquilo de que não há notícia é que se tenham suicidado ou entregado à polícia preventivamente, para não cometerem o homicídio. Em comparação com a violência política, racial e entre povos e nações, a violência dos homens sobre as mulheres fornece matéria para o livro negro mais volumoso da história universal. A lógica social da "dominação masculina" (para utilizarmos o título de um livro de Bourdieu cuja tradução portuguesa foi publicada pela Relógio d'Água) deixou os seus traços - e de que maneira! - na linguagem: a ética da virilidade refere-se ao vir, ao virtus. O princípio da honra surge assim indissociável da virilidade física. A relação entre os géneros - que os gender studies analisam como social e culturalmente construída - surge assim marcada por este princípio de violência do homem sobre a mulher. (...) As estatísticas mostram que as mulheres entraram em força, no último século, nos lugares que antes eram dominados pelos homens; e que a divisão sexual do trabalho se alterou radicalmente. Mas o que as estatísticas não mostram é que a hierarquia se vai reconstruindo, como as relações de dominação se restabelecem, de outra maneira, no interior dos territórios que pareciam ter-se libertado delas. É o que acontece quase sempre nos meios exclusivos dos gays: reproduzem no seu território princípios de discriminação que têm como matriz a violência heterossexual. A misoginia e a violência física e psicológica dos homens sobre as mulheres encontraram ao longo da história cauções essencialistas e filosóficas como nenhum outro crime. Talvez apenas o anti-semitismo (mas só nalguns momentos) possa ser comparável. (...) Para Weininger, há uma equivalência entre a Mulher e o Judeu: ambos são privados de personalidade, privados de um Eu, falhos de grandeza e de valor próprio. Daí o axioma weinigeriano: "A mulher mais elevada está infinitamente abaixo do homem mais ínfimo". Mulheres e judeus são, do ponto de vista de Weininger, responsáveis pelo declínio do Ocidente. Weininger era judeu (convertido ao protestantismo) e homossexual."



in O continente negro são os homens, Estação Meteorológica, ÍPSILON - PÚBLICO Janeiro 2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Thomas Bernhard


Este é um dos meus autores favoritos, desde há muito.
A propósito da próxima edição, da editora Sistema Solar, de Autobiografia de Thomas Bernhard, relembro aqui um poema que publiquei em 2005.


Thomas Bernhard

Dediquei-lhe um poema, há mais
de dez anos, para o qual certamente
se estaria nas tintas, se o lesse. É
um dos raros escritores que conseguiu
a difícil lucidez de detestar a pátria, essa
obrigatória e durável fonte de equívocos
e mal-entendidos. Por isso
ele gostava de passar temporadas
em Portugal, não pelo mar, nem
pela comida, nem pelos modos
amigáveis para turistas, mas sim
porque podia escutar uma língua
sem ter de entendê-la.


in Logros Consentidos, Ed. & etc , Lisboa 2005, pág.42.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pisar o risco


   Nunca pensei chegar a esta altura, após o restabelecimento em Portugal de uma democracia participativa, em que um governo dito legítimo, tome decisões políticas e administrativas, que mercê da sua inadequação à Constituição vigente e a outras leis do país, tenham de ser anuladas pelos tribunais. Aconteceu isso já, por diversas vezes, no caso de cortes em ordenados e subsídios. Agora foi a máxima humilhação, com os advogados da leiloeira Christie's a meterem o governo português na ordem e a mandá-lo ser mais escrupuloso e decente.
   Como é que havemos de educar as crianças, ou recomendar modelos de actuação aos jovens, quando os poderes mais altos da nação vivem  da trapaça, da negação do óbvio e de pisar o risco?
   E depois ainda há quem se admire de que a juventude se desinteresse da política e se entretenha em grupelhos secretos e praxes baseadas na humilhação e no mais violento disparate. Como dizia o outro, isto anda tudo ligado.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Rui Nunes


(...)
É interessante ver como a nossa história é uma sequência de abandonos da pátria. Abandonámos a pátria pela África, abandonámos a pátria pela Índia, abandonámos a pátria pelo Brasil, pela Europa. O que significa que esse abandono da pátria está presente na nossa matriz. Daí que pense que a grande pátria dos portugueses é a errância.
(...)


in ACTUAL - EXPRESSO, Ideias & Debates, 30 de Novembro 2013, pág.36.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

António Guerreiro


(...)
A cultura como redenção, decoração e fuga aos aborrecimentos quotidianos é um bem partilhado pelo humanismo dos filisteus, aqueles que se "atiram ao ornamento como o cão à salsicha", como dizia Karl Kraus.
(...)

in Estação Meteorológica, Ípsilon - Público, 29 Nov. 2013


Nota: A.G. é talvez a voz mais lúcida, informada e actualizada, que escreve ainda na nossa imprensa. Detecta as encenações, hipocrisias e logros que dão corpo a muitas atitudes bem pensantes, perfilhadas por muito boa gente. Por isso, ele é tão combatido e posto em questão pelos simplistas de pacotilha.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Povo: essa entidade múltipla



O populismo sem povo

(...)
Tal entidade - o povo - só existe como uma elaboração ficcional, ou, pelo menos, sob a forma de uma pluralidade de figuras que nada têm a ver umas com as outras: o "povo soberano" da democracia não é a mesma coisa que o "povo jurídico" de kant; e ambos são diferentes do "povo trabalhador" que o movimento comunista elevou a sujeito da História; e nenhum deles se confunde com o povo definido por uma relação orgânica com o solo e o sangue (de onde advém a ideia de um Volk, que foi, em todo o lado, um mito nefasto e quase sempre criminoso). Não existindo o povo, existe no entanto algo que se chama "populismo", contra o qual estamos constantemente a ser alertados. (...) Hoje, o fantasma do populismo alimenta-se de imagens e representações do povo que, à falta de outras, são aquelas criadas pela televisão. Não existe uma figura apreensível do povo como entidade, mas existe um "povo" da televisão, não apenas dos concursos e dos programas de entretenimento, mas também o dos telejornais, fetichizado pelas câmaras e pelos microfones, numa encenação que nos quer fazer crer que é a pura realidade. Trata-se de um povo postiço, que satisfaz uma forma aberrante de telegenia e só existe nos ecrãs. (...)


António Guerreiro, in Público, Ípsilon 4 Outubro 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A novilíngua do novo fascismo

(...)
« É, aliás, significativo que alguns críticos mais indulgentes, perante a afirmação de Passos Coelho de que a Constituição não fez nada por novecentos mil desempregados, o tenham aconselhado a nunca fazer discursos longos improvisados, o que corresponde à ideia orwelliana de que o falante da novilíngua "faz fluir o discurso articulado pela laringe, sem nenhuma implicação dos centros cerebrais". Mas a novilíngua deste novo fascismo já não é imposta por um poder como o dos fascismos históricos: é um fascismo que não vem de cima, é produzido no próprio tecido das interacções sociais. Alimenta-se da cultura que habitamos e respiramos. Ninguém obriga ninguém a tornar-se falante desta novilíngua, são os sujeitos - súbditos - dela que se auto - limitam inconscientemente para se situarem no interior do jogo da linguagem em curso. Trata-se de um poder microfísico que Foucault tão bem analisou.»

António Guerreiro

in Estação Meteorológica, O fascismo da língua, ípsilon, 13 Setembro 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Salazar sem Pide

Num destes fóruns radiofónicos aberto ao público em geral, um encantador participante declarou, que perante a sua desilusão acerca do nosso leque partidário, sugeria que Portugal devia ser governado por um novo Salazar... mas sem Pide.
Felizmente um outro ouvinte que se lhe seguiu, acrescentou, muito acertadamente que "não há Salazar sem Pide".
É com estas intelijumências iguais à do 1º ouvinte que elegemos a qualidade de gente que está nos postos cimeiros da nação.

terça-feira, 30 de julho de 2013

7 anos de prisão e 600 chicotadas...

Arábia Saudita condena activista dos direitos humanos a sete anos de prisão e 600 chicotadas


Raef Badawi, de 35 anos, estava detido desde Junho do ano passado.
                                        
Um tribunal saudita condenou nesta segunda-feira um activista dos direitos humanos a sete anos de prisão e 600 chicotadas por ter criado uma fórum online "liberal" e por insultos ao Islão.
"Raef Badawi foi condenado a sete anos na prisão e 600 chicotadas” escreveu no Twitter o advogado de defesa, Waleed Abualkhair, acrescentando que o juiz ordenou o encerramento do site Rede Liberal Saudita. O advogado afirmou que Badawi, co-fundador do site, foi acusado de criticar a política religiosa e de apelar à “liberalização religiosa”.
 
Em Dezembro, um juiz tinha também remetido Badawi para um tribunal superior por renúncia à crença religiosa, um crime que pode levar à pena de morte na Arábia Saudita, mas as autoridades desistiram da acusação.
 
Badawi, de 35 anos, foi detido em Junho do ano passado por razões então desconhecidas. A rede que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari anunciou a 7 de Maio de 2012 um “dia de liberalismo” naquele reino muçulmano, pedindo o fim da influência da religião na vida pública da Arábia Saudita.
 
Este não é o primeiro caso em que as autoridades actuam por causa de actividades na Internet. Em Fevereiro do ano passado, um blogger saudita que estava na Malásia acabou deportado e está detido sob acusações de blasfémia, por ter publicado no Twitter comentários considerados insultuosos para o profeta Maomé.
 
in PUBLICO, por

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O bom Francisco


   Nos seus 76 anos, o novo Papa Francisco concita simpatias e adesões babadas. O discurso do chefe do Vaticano não deixa de ser encantatório e cheio de misericórdia para com os excluídos e vítimas de todas as prepotências deste mundo. Mas, já estamos escaldados do bonzão e actualmente santo João Paulo II, que foi um dos papas mais conservadores e retrógrados desde o Concílio Vaticano II.
   Para eu me babar com Sua Santidade Francisco, seria preciso:
      a) acabar com a hipocrisia do celibato dos padres.
      b) abrir o sacerdócio às mulheres.
      c) não continuar a proibir o preservativo, mesmo em doentes com HIV...
   Já ninguém espera anuências a favor da IVG ou outras possibilidades laicas, porque se sabe que nenhuma religião as aprova. Mas, tenham dó! Os seminários estão vazios. Por que será?