Mostrar mensagens com a etiqueta novas edições (poemas). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta novas edições (poemas). Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de julho de 2021

KATZEN UND MENSCHEN Gedichte und Prosa aus Portugal ILSE POLLACK (Hg.) Verlag Bibliothek der Provinz 2021 (Ein gewöhnlicher Portugiese pág. 8 Felinus pág.12 Brauchbarkeit pág.19) Illustrationen von Kurt Rendl

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Lógos, Biblioteca do Tempo, nº8, Maio 2021. Direcção editorial: Adília César e Fernando Esteves Pinto. (Poemas da página 13 à página 21)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

PEDRO & INÊS - Palavras Vivas

15 Poetas Contemporâneos
Organização e prefácio de António Carlos Cortez
Ed. Caleidoscópio, 2018

quarta-feira, 8 de abril de 2015

RUI CAEIRO

Na minha terra as largadas são, antes de mais, pretexto para um são convívio entre a população e os touros.



Uma vez assisti à seguinte cena: um jovem está a ser perseguido por um dos touros e refugia-se atrás de um banco de pedra a meio da praça. Fica ele de um lado do banco, o touro do outro, os dois assim se fitando e desafiando. Imóveis, arquejantes ambos. Não chegava a um metro a distância que separava a cabeça do rapaz e a do corpulento animal. O rapaz enfrent...ava com uma inesperada serenidade as chispas ou o ódio que os olhos do touro despediam. Estiveram assim durante uma eternidade, isto é, um ou dois minutos, cada um como que encantado pelo outro. Em volta, a multidão seguia a cena conservando um silêncio religioso. Foi o touro a dar o pontapé de saída, ou antes, a cornada no banco que lhe esfanicou a parte de cima. O jovem mal teve tempo para dar um salto atrás, assim evitando ser atingido: pelos cornos do touro, ou por um calhau de mármore proveniente da desintegração do banco. Foi, sem dúvida, um magnífico "tête à tête".
E tudo acabou bem.




Em Vila Viçosa um banco de mármore substitui-se com facilidade.



in DEUS E OUTROS ANIMAIS, Averno 2015.

quinta-feira, 12 de março de 2015

CATÁLOGO DE PÁSSAROS DE O. MESSIAEN

Exactamente setenta e sete pássaros diferentes
repartidos por sete livros de música
Não chega só uma vida para contar a plumagem
as películas esvoaçantes do breu real
ou os saltos coloridos de espessuras entre galhos
Volteiam de transparência em transparência
trespassam o dia, bicam o nó da sombra


Aguardamos sob o peso do sol, névoas até aos ossos
preenchemos depois as noites com cifras de aérea
                                                               gravidade
humilde exercício, transposição luminosa
É o mundo todo visível, questão de paciência
invisível totalmente, olhos recomeçados?


Pequenos factos radiantes
corações de tempos demasiado vivos
registos sobreagudos, coisas de atenta surdez
Sobrevoam os intervalos mais discretos da terra
alheios ao peregrino, humano sobressalto
anjos ou penas pesadas da neve


Já nos visitavam nas coutadas da Silésia
pedradas, tiros, valas comuns em Stalag VIII A
A cotovia dos campos, o papa-figos dourado
maçarico real, chasco preto, melro azul



José Manuel Teixeira Silva
in "Música de Anónimo", Companhia das Ilhas, Lajes do Pico 2015





segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cão Celeste nº 6


(…)
 
Depois de ti, Fernando.
Depois de ti vieram outros praticantes menores, sempre menores do que tu, e sem arca que se visse. E não mais correndo os mesmos riscos. E não mais adeptos de uma obscuridade assim heróica como a tua.
Desses, o mais relevante parece ser o grande Buda Agá-Agá.
Agora, já idoso e de pantufas calçadas, na sua casa de Cascais. Aguardando, aborrecendo-se. E quase nada escrevendo. Já um tanto perdido também ele, mas ainda sensível aos cantos de sereia da meninice e do esoterismo.
Mas não há comparação possível contigo, Fernando, que foste, para além de ti e do mistério de ti, do mistério que sempre se é, a tua especialíssima e enorme circunstância.
 
Tu foste mais longe, mais além, mais fundo e mais profundo: na realização e na perdição, na sinceridade e na mistificação. Na imobilidade e no voo. No sonho, na dispersão, na despersonalização.
Rimbaud, é da legenda, perdeu as botas na Abissínia. Pior do que isso, perdeu a perna, perdeu a saúde e a vida. Tu, Fernando, foi em ti que te perdeste.
A cada um o seu deserto.
Tu limitaste-te a sumir por Lisboa, nessas tuas ruas da Baixa.
E tanto te perdeste que pelos vistos ainda lá estás, ou por lá andas ainda.
Visível ou invisível, sumiste até não seres ninguém.
Até seres ninguém.
 
Rui Caeiro In Poema para o Fernando seguido de algumas falripas de prosa também para o Fernando.  Cão Celeste nº 6. Lisboa, Novembro de 2014.




 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

LEI SÁLICA




As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.



Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.


Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.


Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.



Inês Dias
in DA CAPO, Ed. Averno 2014, Lisboa, p.62.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O INSTANTE ANTERIOR

Uma ave estremece
no instante anterior
à rigidez das asas. Também ela
apesar do sentido inato...
para sobrevoar abismos
transporta no corpo
a circulação pastosa do sangue
e a informe substância do
perseguido alimento.

In " O Instante Anterior", Texto Sentido ed., 2014.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Herberto Helder



a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui...
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para
                                                                          outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da
                                                                              morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por
                                                       aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer
                                                        que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das
                                                               bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!



    
in A Morte sem Mestre, 2014, pág.57 e 58.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Cintilações da Sombra 2

 
 
antologia poética - Coordenação: Victor Oliveira Mateus


O poema abaixo integrou esta antologia:



ANTES

 

No princípio não era o verbo
mas o antes. Não-lugar onde
nenhum mantimento
era  necessário. Mesmo isso
a que chamam palavras, cadeias
servis de contágio e contagem,
não tinha qualquer serventia.

 

Era muito antes da cisão
da luz e da treva e
da fábula fatal de qualquer
existência. Muito antes da
invenção maligna de Cronos e
de outros princípios divinos. Muito
antes do negro e do branco,
do bem e do mal, do macho
e da fêmea.

 

Desnecessários eram,
por inúteis: searas e ceifeiros,
rebanhos e pastores, senhores e servos,
possuidores e coisas possuídas. Antes,
muito antes
do amor, do sangue e da sede, antes
da viagem, antes da subida, antes
do declive. Desde sempre
muito antes da morte.

 
Inês Lourenço
In A Disfunção Líríca, & etc, 2007, Lisboa

 

 




segunda-feira, 17 de março de 2014

Luís Filipe Castro Mendes


É verdade, somos do Sul.
Teve razão em reparar em nós.
Somos aqueles que passámos
de pedreiros e mulheres-a-dias,
que cumpriam as suas tarefas
com modéstia e simplicidade,
a devedores alegres e inconscientes,
que vivem à custa dos sacrifícios
dos operários da Renânia-Palatinado.
Somos nós mesmos, gnaedige Frau.

Sim, eu li como viveram os seus pais
nesse ano em que perderam a guerra:
nas caves encharcadas
de prédios em ruínas,
com esmolas avulsas
dos soldados da Ocupação.

Mas reparou
como depois foram tratados
pelos vencedores?

Sim, você disse-me também
que desde a adolescência
não compreende
que tenha de pagar
pelas culpas dos seus pais
e dos criminosos
que governaram o seu povo,
antes mesmo de você ter nascido.

Mas se para a vossa língua
dívida e culpa
são a mesma palavra,
então seremos nós agora a pagar
até aos netos dos nossos netos,
já que as vossas dívidas estão saldadas?
É isso, gnaedige Frau?



'Conversa no Tiergarten' in "A misericórdia dos mercados", Assírio & Alvim 2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

A BULA de Março

http://www.correiodoporto.pt/a-bula/a-bula-de-marco

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Inês Dias


















    "Grief returns like the rain,
                         like the night."

                          Iris Murdoch


Assim que a estação morria,
o mar vinha buscá-la
entre salvas de limos
e restos de outros naufrágios.
Os banheiros desmontavam a praia,
arriando bandeiras friorentas
enquanto eu, rei sem reino
para trocar pelo meu cavalo,
regressava então ao exílio.


À espreita, rancorosos, os dias
úteis, caçadores com a alma
pela trela e o prazer
de atirar para ferir;
atrás de mim o verão,
como água salgada
a lamber uma ferida aberta.


A tua chuva, poeta,
já nada me consegue ensinar:
tornei-me um cego
a quem cortaram as mãos
para não ler mais
o mundo, invariavelmente,
repetidamente, ainda ali.


in TEMPOS VÁRIOS, paralelo w, Lisboa 2014

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Rui Caeiro

(...)
A Rua das Flores é, pode dizer-se, uma continuação
da Travessa dos Remolares.
Pode, mas não deve, porque nada têm de facto a ver
uma com a outra.
A Rua das Flores é de graves inclinação e apresenta
pergaminhos burgueses, conotações literárias. Para
não falar do vizinho grupo escultórico, ao Largo do
Barão de Quintela, ou do fantasma do camiliano
Vieira de Castro a abafar o rosto da mulher com a
almofada, há a queiroziana Genoveva a atirar-se de
uma janela e a dar tragédia à rua.
A Travessa dos Remolares não tem direito a tragé-
dias. Só a quotidiano reles.


Quotidiano reles mas ainda assim parte integrante
de um mundo e sui generis. Aguardando o seu Ber-
nardo Soares como quem espera o D. Sebastião.
E para que o mito se cumpra - ou nem mito
haveria - ainda não foi ou será desta.
(...)



in TRAVESSA DOS REMOLARES, paralelo w, Lisboa 2013, p.7

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Carlos Alberto Machado

[elipse, o rapaz]


o homem é de novo menino e corre corre pelas ruas de
                                                                  basalto negro
e à noite recolhe-se no baldio com trapos e sucatas
                                                                     e raízes
                                                                     podres
antes de adormecer olha o céu negro sugado de estrelas
e adormece sobre camadas de jornais velhos
passa o sono a viajar na matéria dos sonhos
e é menino ainda quando acorda
abre muito os olhos
como se pudesse ver o futuro
mas não vê


in O GATO VISITADOR, volta d'mar, 2013, pág.23 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Telhados de Vidro nº 18

 
Direcção: Inês Dias e Manuel de Freitas
Arranjo gráfico: Inês Mateus (sobre grafismo de Olímpio Ferreira)
Capa: Maria João Worm


Aos domingos
aos domingos o golo no estádio
chega até minha casa
e até ao mar

O próprio sol
é uma imagem de couro no espaço

a chuva
uma imagem de redes batidas

Ah Que fazer
senão esperar pela semana

dormindo



António Reis, Poemas Quotidianos, Lisboa, Edição do Autor, 1957

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Victor Oliveira Mateus


A ferida era aquela tarde antecipando o fim.
As minhas mãos trôpegas a procurar-te
abrigo num guarda-chuva grosseiro
e rombo, e numa vida que me abandonava
sem que tu o entendesses. A ferida
surgia, certeira e fera, no mais ínfimo
pormenor, pormenor esse que tu não vias,
pois de tudo se estava longe (ainda),
excetuando, contudo, um dorido
abandono a infiltrar-se insidiosamente
nos meus olhos. A ferida éramos nós pela rua:
tu a puxares o guarda-chuva para ti
e eu, sem que te apercebesses, gotejando
um fogo que o vendaval alimentava.

A ferida era eu, desajeitado, frente
ao parquímetro com as moedas sempre
a caírem-me e tu perguntaras-me
o que era uma retrosaria. A ferida
éramos nós a rir, a rir por haver palavras
iguais que, nos intentos iguais, não falavam
de coisas iguais... e isso era bom,
pensaria o meu Proust, que no complexo
buscava a harmonia para só depois tentar
o simples. A ferida era esse futuro caminho
com o oceano já a avançar, essa razia
do tempo numa cidade a findar-se
comigo a ler-nos por dentro - última
tentativa de suster o irremediável.


in Gente dois Reinos, Labirinto 2013, Fafe, pág.26.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Inês Dias

    LEI SÁLICA


As  mulheres da família sempre
tiveram  um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.


Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.


Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.


Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.

pág. 10



   RESTAURAÇÃO


Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.


Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.

pág, 14

in UM RAIO ARDENTE E PAREDES FRIAS,
Ed. Averno, Lisboa 2013.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Manuel Gusmão


uma árvore é um anjo

um anjo lenhoso, altamente inflamável,
de alto a baixo prometido
a um incêndio que a si mesmo se combatesse

uma árvore é um anjo da terra
um anjo que está sempre a enraizar-se
e a erguer-se a poder de braços

Uma árvore conhece pouco
das nossas maneiras de lutar
e morrer; por isso:

uma árvore é e não é um anjo



in Da Linguagem das Árvores e do Vento,
pág.27 , em PEQUENO TRATADO DAS
FIGURAS, 2013.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Jorge Sousa Braga


 O novíssimo testamento

     para acabar de vez com os direitos humanos
     e restaurar os direitos divinos

Escrevi este testamento com sangue
de galinha
eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas
condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de
      galinhas-da-índia patos perus gansos garnizés
e a cacarejar pela noite fora
sem que um só galo da vizinhança me responda
nem os galos dos cataventos
- quando o galo cantar renegar-me-ás três vezes quando o galo
      cantar -
Quando era criança antes de matar uma galinha
a minha mãe pedia-me para lhe prender as pernas e as asas
eu metia as mãos por debaixo da saia e prendia-lhe as asas e as
      pernas com todas as minhas forças
O sangue jorrava da sua cabeça para uma malga com vinagre
e ficava depois muito tempo ainda a espernear no alguidar
o pequeno olho muito aberto...
Os meus sonhos estão cheios de cabeças de galinha
ainda escorrendo sangue
de milhões de asas de milhões de patas de galinha de milhões
       de ovos
Quem vai bater esta gigantesca omeleta de ovos
na frigideira celeste?
A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas
Que tamanho tem a alma dum mosquito?
Proclamo a minha solidariedade com todos os biliões de frangos
       do planeta
que tentam em vão escapar à máquina de depenar eléctrica
com todos os carneiros cabras ovelhas avestruzes
- Eu sou um cordeiro inocente que se perdeu do pastor
e não sabe senão balir -
com todas as vacas
condenadas a comer rações impróprias e a um orgasmo gelado
No silêncio dos estábulos elas preparam a sua vingança
enquanto sonham com um prado verde de gramíneas
- e essa vingança será terrível -
Este é um testamento escrito com o sangue
do último dos genocídios
- e esse sangue é da cor do alcatrão -
tendo como testemunhas apenas as duas metades
do meu coração

in RESUMO a poesia em 2012, pág.102 e 103, Ed. Documenta.