
Tu percorres a lentidão espessa das palavras
e do mundo. Conheces o segundo lado
do tempo. A tua concentração é vegetal.
Simplicidade do ser. Glória incandescente.
Iniciadora sem hierarquias, desces por uma espiral
até ao tacto absoluto do corpo.
Pedra ou perspectiva entre morte e abismo.
Recortas as minúcias como um amante sem luvas
e entre dentes e espadas cantas a cor da pedra.
Ou é o olho da terra que tu lambes ou o sangue que gira.
Não, a tua sombra não é dura como um bloco
ou como uma cadeira tremendo: a sua massa grande
é poderosa, mas eu vejo-a como uma tela húmida
e percorro os seus fios verdes, os seus peixes luminosos.
Entre a espuma e a lama, na densidade azul
queimas a tua boca num diamante incandescente
e aproximas o rosto da noite cega e redonda
até que no teu peito as estrelas transpareçam.
António
1988
