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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Manuel de Freitas - JUKEBOX 3
PHILIPPE HERREWEGHE, 2010
Chovia muito, mas não serei eu a afirmar
que as últimas notas (Lux aeterna)
faziam da própria morte uma certeza branda.
Até porque a dor impediu um amigo meu
de sair esta noite, até porque sabemos todos que
o amor não é, infelizmente, a única doença incurável.
Nisso, pelo menos, concordamos os três com Mozart (e com Leonard Cohen). Quase nem parecemos tristes,
saltando de poça em poça, esperando como única estrela
a luz verde de um táxi qualquer em que possamos,
de mãos dadas, esquecer os pecados deste mundo.
Teatro de Vila Real Edição, 2012.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Regresso
Num café da Via Monginevro
O rapaz do café olha-me com alguma desconfiança,
mas mesmo assim fala-me, é afável. Talvez seja
do país esta necessidade de estar próximo, de irradiar
um sólido encurtar das distâncias neste tempo de implosões
organizadas. O rapaz do café traz os pedidos como
equilibrista de lugarejo: a bandeja, de uma bacidez
acinzentada, bascoleja copos, latas... e a mim também,
que de equilíbrio me sofro tão incapaz de um eu a recusar-me
unidade e acerto. Certo dia alegrou-se mais: que era
lá debaixo, da Ligúria. Nascera em Sestri Levanti. Se eu conhecia,
e olhou-me a ameaçar escárnio: que sim (acalmei-o),
mas só de passagem, aliás, é de passagem que tudo conheço.
Conclusão que ele entendeu, pois logo me olhou livros e papéis.
O rapaz do café tem algo de metafísico (acabei por decidir),
pois quando fala depressa não o entendo, e quando se explica
pausadamente não o entendo também. Certo dia apanhou-me
alguns versos que me haviam caído da mesa e então perguntou-me
se eu fazia poesia. Que não!, respondi-lhe peremptório,
é ela que me faz a mim; é ela que me não larga, sempre
a recusar-me razão, conformidade. O rapaz do café deixou,
por fim, seu antigo olhar. Agora tem um outro, bem mais
enigmático - coisa de fascínio com hostilidade à mistura.
in Regresso, de Victor de Oliveira Mateus, Ed. Labirinto, 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
COISAS QUE NUNCA

Acabo de receber dois exemplares deste meu novo livro, COISAS QUE NUNCA. Junto vinha um bilhete do meu editor, Vítor Silva Tavares, que aqui transcrevo:
Dois acabadinhos de sair do forno. Degustar com precauções. Perigo de queimar língua e neutralizar papilas gustativas. [Atenção: BABAR, segundo Cândido de Figueiredo, também quer dizer "Estar apaixonado", "Gostar muito".] Evitar excessos!
Um editor destes é um luxo pouco comum, nos dias que correm.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Edições de 2009 - (Poesia)
_____________
A Prespectiva da Morte:
(20-2) Poetas Portugueses do Século XX
selecção e prefácio de Manuel de Freitas
Assírio & Alvim, Lisboa
________________
O Anel do Poço
Paulo Teixeira
Edit. Caminho, Lisboa
______________________
Os Cantos de Maldoror (Poesias I & II)
Isadore Ducasse (Conde de Lautréamont)
tradução de Manuel de Freitas
Prefácio de Silvina Rodrigues Lopes
Antígona, Lisboa
_______________
Um Circo no Nevoeiro
Renata Correia Botelho
Averno, Lisboa
__________________________
O Viajante sem Sono
José Tolentino Mendonça
Assírio & Alvim, Lisboa
_____________________
Jukebox 1 & 2
Manuel de Freitas
Teatro de Vila Real, Vila Real
__________________
Axis -Mundi
O Jogo de Forças na Lírica Portuguesa Contemporânea
(ensaio)
Nelson de Oliveira
Ateliê Editorial., S. Paulo, Brasil
A Prespectiva da Morte:
(20-2) Poetas Portugueses do Século XX
selecção e prefácio de Manuel de Freitas
Assírio & Alvim, Lisboa
________________
O Anel do Poço
Paulo Teixeira
Edit. Caminho, Lisboa
______________________
Os Cantos de Maldoror (Poesias I & II)
Isadore Ducasse (Conde de Lautréamont)
tradução de Manuel de Freitas
Prefácio de Silvina Rodrigues Lopes
Antígona, Lisboa
_______________
Um Circo no Nevoeiro
Renata Correia Botelho
Averno, Lisboa
__________________________
O Viajante sem Sono
José Tolentino Mendonça
Assírio & Alvim, Lisboa
_____________________
Jukebox 1 & 2
Manuel de Freitas
Teatro de Vila Real, Vila Real
__________________
Axis -Mundi
O Jogo de Forças na Lírica Portuguesa Contemporânea
(ensaio)
Nelson de Oliveira
Ateliê Editorial., S. Paulo, Brasil
sábado, 19 de dezembro de 2009
Novas edições
____________________
Poemas Portugueses
Antologia da Poesia Portuguesa do séc XIII ao séc XXI
Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage
Prefácio de Vasco Graça Moura
Porto Editora, 2009
Retratos de Álvaro Cunhal
(por vários artistas plásticos e escritores)
Modo de Ler ed. & livreiros e Edições Afrontamento, Porto, 2009
Poemas Portugueses
Antologia da Poesia Portuguesa do séc XIII ao séc XXI
Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage
Prefácio de Vasco Graça Moura
Porto Editora, 2009
Retratos de Álvaro Cunhal
(por vários artistas plásticos e escritores)
Modo de Ler ed. & livreiros e Edições Afrontamento, Porto, 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Manuel de Freitas
____________________
SHE LIVES BY THE CASTLE
Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.
Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abnatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.
Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.
E assim, meu amor, acaba este poema.
Intermezzi, op. 25, Opera Omnia ed., Guimarãers, 2009
Nota: Manuel de Freitas (n. 1972) um poeta marcante da década de 90, ensaista, crítico, editor da Averno, co-director da revista Telhados de Vidro.
Autor cuja obra acompanho desde o início da sua produção poética (2000). Nela encontram-se refractados os grandes caminhos da poesia actual, contendo embora as "analepses" que a explicam, cultural e imageticamente. Numa sábia linguagem propositadamente não ambígua, nem "preciosa", nem "sublime", acompanha-nos nas perplexidades diárias com a densidade de todas as grandes interrogações.
SHE LIVES BY THE CASTLE
Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.
Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abnatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.
Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.
E assim, meu amor, acaba este poema.
Intermezzi, op. 25, Opera Omnia ed., Guimarãers, 2009
Nota: Manuel de Freitas (n. 1972) um poeta marcante da década de 90, ensaista, crítico, editor da Averno, co-director da revista Telhados de Vidro.
Autor cuja obra acompanho desde o início da sua produção poética (2000). Nela encontram-se refractados os grandes caminhos da poesia actual, contendo embora as "analepses" que a explicam, cultural e imageticamente. Numa sábia linguagem propositadamente não ambígua, nem "preciosa", nem "sublime", acompanha-nos nas perplexidades diárias com a densidade de todas as grandes interrogações.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Mais um número da revista "Telhados de Vidro", o 10.º, da editora "Averno"

(poema de José Miguel Silva, incluído em Volta ao Mundo, conjunto de 3 poemas, publicado nesta edição)
Mas que resta para ver ou comentar
nesta feira pecuária, perguntas
recordando como tudo já foi dito
vinte vezes por cabeça, e repetir
repetições é engodar ritualmente
a esperança. Mas o próprio silêncio
é uma pose, e bem pouco original.
De resto, quem da poesia colhe
o benefício dum lamento ou esconjuro,
tem direito à inestética dum "foda-se!"
sonoro quando a sanha do martelo
lhe desaba em pleno dedo. Que querias?
Que calasse o prejuízo na cordura
dum estar arranjadinho, decoroso?
(Ou pior: que adubasse num sim-sim
de pechisbeque o subarbusto da penúria?)
Que diabo, mas será que só os ricos
é que podem vestir mal?
J. M. S.
______________
Telhados de Vidro n.º 10 - Maio, 2008
Direcção: Inês Dias e Manuel de Freitas
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