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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Telhados de Vidro nº.19


















A GALINHA

Não era bem galinha, mas
um bicho desses ainda menor. Compravam-se
nos mercados populares ou às
galinheiras que com grandes cestos à cabeça
apregoavam na rua. O pai pediu
para agarrar com força as patas
enquanto com um cheiro de vinagre no ar
e uma faca afiada na pedra da banca
se vergava sobre a vítima
que cessava gradualmente. Foi o
primeiro episódio sangrento
que me mostrou para sempre
a insegurança do mundo.



A TEIA

Sente ao descer as escadas
que um ténue filamento se rompe. Uma
aranha fabricara de noite alguns fios
finíssimos que não resistiram à
primeira passagem matutina. Assim
o início do movimento diurno
destrói toda uma noite de labuta
de qualquer pequeno insecto.



Inês Lourenço

in Telhados de Vidro nº. 19, Maio de 2014, págs. 43 e 44.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

ANA HATHERLY


A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se


... O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita


O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende


E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta


- ANA HATHERLY -