Mostrar mensagens com a etiqueta Novas edições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Novas edições. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OS PECADOS PREDILECTOS

 

Os pecados predilectos, tendo como subtítulo poemas escolhidos, é uma antologia da poeta portuguesa Inês Lourenço, organizada e posfaciada por Ronaldo Cagiano, consagrado escritor e poeta brasileiro, e recebeu prefácio do escritor António Carlos Cortez. Abrange poesia publicada entre 1980 e 2017, correspondente a 12 livros e duas revistas literárias de referência, publicados em Portugal. O antologiador intitulou o seu posfácio de “Breve inventário de um percurso poético e existencial”, a que acrescentou biografia e bibliografia e “Excertos da fortuna crítica”. Os poemas antologiados revelam o labor poético de mais de 35 anos, incluindo todas as temáticas versadas nesta poética como: a infância, a identidade feminina, a magnífica destreza dos animais, a temporalidade e o telúrico, a cidade natal, as diversas artes, as faces do amor, a consciência da mortalidade, e também sobre os limites e deslimites da escrita poética.

--> Inês Lourenço é uma das melhores poetas portuguesas. Com a discrição de quem prefere guardar distância dos arruídos, paróquias e quermesses literárias, é uma escritora que desfruta de grande respeito e acolhida da crítica em sua trajetória de quase 40 anos de publicações, pelo inegável valor estético de sua bibliografia. Vive no Porto, onde, após estudos superiores de Linguística e Literatura, se dedica a diversas iniciativas no campo da poesia, tanto no plano da escrita como no da edição de publicações periódicas. Em plena efervescência criativa, é uma escritora respeitada e bem resenhada. Sua antologia, organizada pelo poeta Ronaldo Cagiano, foi indicada para integrar a Série Lusofonia pelo poeta, professor e crítico António Carlos Cortez, um entusiasta de sua obra e autor de 'O tempo exacto', 'Corvos Cobras Chacais' e 'Poética com dicção', também publicados pela editora Jaguatirica.
 

terça-feira, 16 de julho de 2019

ÚLTIMAS REGRAS

Em Últimas Regras abre-se novamente aos leitores o universo poético de Inês Lourenço retomando a fórmula iniciada em Ephemeras (Companhia das Ilhas, 2012), onde se conjugam a prosa poética, a micro-narrativa e a tonalidade mordaz e ácida característica da autora. in Companhia das Ilhas

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos

Antologia Org. por José Mário Silva para a Ed. Companhia das Letras (Peguin Random House), 2017

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Poesia e Morte


Finitudes
 
1
Em cada fruto a morte amadurece, escreve Eugénio de Andrade num poema do livro As Mãos e os Frutos (1948). Aqui, surge-nos iluminado por um grande poeta, um dos topos mais antigos de toda a Poesia. O amadurecer como um crescendo para a morte, ou melhor dizendo, qualquer início de uma existência é a garantia da sua cessação. Múltiplas mitologias e teogonias de Oriente e Ocidente, crenças e religiões monoteístas e politeístas reflectiram sempre a nossa mortalidade, temor e formas de a representar e transfigurar, perante o poder intemporal de entidades divinas, que por oposição aos terráqueos têm o dom da imortalidade. A vita brevis horaceana conduz-nos através das sucessivas idades históricas e estéticas delas decorrentes, ao inapagável tema da finitude, que tem na palavra poética a configuração de uma atitude elegíaca. Descendendo da Grécia antiga e saindo do paganismo para o mundo cristão, para aí assumir crenças salvíficas, tem uma nova e moderna inflexão com Rilke, onde a solidão ontológica lança o célebre apelo: Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias dos Anjos? – nas conhecidas Elegias de Duíno. Digamos, pois, que a expressão textual de uma perda ou da previsão ou proximidade dela, se consubstancia no tom menor de qualquer texto poético que traduza uma atitude de tónica disfórica acerca de qualquer transitoriedade que nos afecta: ausências de todo o género, da terra natal, de quem se ama, de uma companhia animal, da saúde própria ou alheia.
 
Muitas outras ausências, exílios e perdas se inscrevem na poesia, como a do próprio sujeito poético, a de um estado intra-uterino, que garantiria a protecção matricial, a da infância, a de crenças éticas ou religiosas ou até o próprio poder visionário e transformador da arte dos versos, porventura duvidando da afirmação holderlineana: O que permanece, os poetas o fundam. O mito de Orfeu é, sem dúvida, outra das milenares e inapagáveis legendas que, em todas as artes, da música à pintura, ao teatro, ao cinema, mais se tem inscrito na poesia, desde recuados tempos, com o seu conflito entre eros e tanathos, com um canto apolíneo que vence a morte, mas acaba derrotado por ela. No entanto, a cabeça de Orfeu, arrastada pelas águas do Ebro, depois do crime nefando das Ménades, continua a clamar o nome de Eurídice… O século XX com as suas guerras sangrentas e métodos dirigentes que provocaram horrendos genocídios, como o holocausto, o estalinismo, a bomba de Hiroshima, etc, deixaram na poesia e em todas as artes, uma profunda marca. Alguns nomes surgem imediatamente como Paul Celan, Anna Akhmatova ou Marina Tsvetáeva. E ainda a conhecida asserção (1949) de Theodor Adorno: Depois de Auschwitz não há poesia possível. Se o silêncio do horror se impunha, perante a constatação de monstruosas práticas entre humanos, privilegiando a elegia e o luto, em breve se constatou que está nas palavras e particularmente na palavra poética, dada a sua liberdade livre o genoma da transfiguração do sentido. Modaliza, mesmo através do sarcasmo, da descrença ou da ironia a sequente circunstância de permanecer vivo, para além da queda dos deuses, dos amores difíceis, da inultrapassável degradação do corpo. Resta-nos concluir, que também a poesia evidenciou o trabalho igualitário da morte, pois poderosos e mendigos terão encontro irrecusável com ela. Contudo, no poema, podemos sempre subverter esses encontros, como escreveu Sophia: Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
 
2
Comecei a publicar em 1980, desde logo com um título, Cicatriz 100%, uma clara referência a um tecido cicatricial, que pressupunha o desaparecimento de uma epiderme anterior.
 
Quase todos os títulos que se seguiram até 2012, com Ephemeras, encerram uma nítida assunção da transitoriedade da existência, da enganosa fulgurância dos inícios, do passageiro inebriamento erótico, de tudo que se perde e se torna para sempre irrecuperável. Os Solistas (1994), pretendendo evidenciar a circunstância daquele que, mesmo na criação, está radicalmente só; A Enganosa Respiração da Manhã (2002), uma espécie de carpe diem do avesso, ou outros títulos de livros ou partes integrantes, como Câmara Escura, Alguns Epitáfios, Erosivo Eros são o anúncio inequívoco dessa mundividência e representação. Igualmente Logros Consentidos (2005), A Disfunção Lírica (2007), Coisas que Nunca (2010). A utilidade ou poder salvífico da arte e mais concretamente da poesia, torna-se objecto de alguma ironia, com o percurso da escrita a ser influenciado pela crescente vacuidade das buscas humanas, que em grande parte se resumem a um hedonismo patético, a um economicismo criminoso, a tecnologias intransitivas. Mas a palavra permite sempre a subversão, a nostálgica raiva da espera. Termino com duas Artes Poéticas, respectivamente de 1994 e 2000.
 
ARTE POÉTICA II
Poluída e rútila/ é a beleza de um verso/ cercado o movente
sangue/ sobre a neve,/ lugar sem bússola onde escassos
chegam,/ sem país, sem linho, sol ou noite.
in Os Solistas.
 
ARTE POÉTICA III
O poeta disse: a inspiração/ não existe. De há muito, as
musas/ ficaram desempregadas. E desvendou/ algum método
de trabalho/ à parca assistência, altivo e contemporâneo,/
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras/ resistindo ao
tráfego do fim de tarde,/ pouco se interessavam/ pela carpintaria
dos versos.
in Um Quarto Com Cidades ao Fundo.
 
I.L. in relâmpago, nº 34, 2014. Página 83.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

BACH




"(...)
Talvez não seja possível escrever sobre a música, talvez as palavras encontrem aí o seu limite: tenta dizer com palavras um intervalo de música, a entrada de um tema, o timbre de um oboé.
Tentei, uma vez: alguns fragmentos, breves textos para explicar como ouvia a música de Bach. Desisti; lembro-me de escrever uma carta a um amigo, a contar o impasse, a impossibilidade. Alguns anos passaram. Tentei novamente: um caderno crescia, entre leituras, experiências. ...Mas para onde, para que Bach - histórico, pessoal, real ou imaginário -, como dizer a música? Novo impasse. Descobria dolorosamente as fronteiras da linguagem; que nem sempre ela serve; que é preciso não pedir o impossível. E ninguém pode escrever um texto cujo tempo ainda não chegou. Mas nunca se sabe quando esse tempo chega. Escreve-se na ignorância, na escuridão.
Esse texto que se deseja, essa pura paixão não se pode escrever. Espreitar pelas portas pode-se, é fascinante; imitar um cânone, uma fuga, na estrutura de um texto, pode-se, é quase fetichista; tentar descrever paixões que a música provoca, seguindo tratados de Platão e Aristóteles, de Mattheson, Schubart e Wolff, é uma tarefa académica, interessante e arriscada, por vezes menos próxima da música do que da psicologia. Mas a música permanece inacessível, não posso dizê-la.
(...)"



Pedro Eiras
in Bach, Ed. Assírio & Alvim, Setembro 2014, pgs.31 e 32

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Thomas Bernhard


(...)
Cada escola enquanto comunidade e enquanto sociedade, cada escola, portanto, tem as suas vítimas e no meu tempo as vítimas eram, no liceu que frequentei, esses dois, o aleijado do arquitecto e o professor de Geografia, toda a baixeza (da sociedade) e toda a crueldade e terribilidade naturais enquanto doença dessa comunidade eram todos os dias descarregadas sobre esses dois, eram sobre esses dois levadas a explodir. Os seus padecimentos devidos à fealdade ou à incapacidade física eram todos os dias ridicularizados pela sociedade enquanto comunidade, que não pode suportar tais padecimentos, e com essa ridicularização tornavam-se um motivo de escárnio com que todos, alunos e professores, se divertiam constantemente, sempre que para isso surgia oportunidade, e também aí, nesse liceu, como em toda a parte quando se reúnem pessoas e sobretudo quando estão juntas em massas tão horríveis como nas escolas, o padecimento de um só ou o padecimento de alguns, como o padecimento do aleijado do arquitecto ou o padecimento do professor de Geografia, tornam-se objecto do seu infame divertimento, que não é senão uma repugnante perversidade.
(...)


in AUTOBIOGRAFIA, Ed. Sistema Solar, Lisboa 2014, pág.115.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Correspondência

(...)
"Aquilo, meu filho, é um país de filhos da puta, que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas"
(...)


in Correspondência 1969-1978, Jorge de Sena e Carlo V. Cattaneo , trad. de Jorge Vaz de Carvalho, Ed. Guimarães, 2013.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Alberto Pimenta

(...)
Sei é que eu, cavalheiro do século XX, não me pareço muito com este cabeludo que usava um
pithos não só para repousar e meditar, porque ele tinha as paredes e o fundo cobertos de uma
camada de esperma seco que dava para calafetar um navio. Isto é o que consta: Diógenes era um masturbador compulsivo; uma espécie de socialista radical, porque só na masturbação é que se reúnem na mesma mão capital e trabalho.
(...)


in Cão Celeste nº4, Diógenes, pág.88.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Teoria da Des-possessão


 (...)
 "As palavras vivem de serem vivas, da decisão que as possui, do arrebatamento interior, de não serem bens, propriedades, objectos que se usam e nos desgastam, mas intensidades, sopros onde os corpos se deslocam e se encontram. Amantes."
 (...)


 Silvina Rodrigues Lopes, in Teoria da Des-possessão (Sobre textos de Maria Gabriela  Llansol), Averno, Lisboa 2013, pág. 9.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Herberto Helder

"(...)A beleza herbertiana é trágica, é sempre uma composição a partir do caos e não traz consigo nenhuma salvação. Apresenta-se sob a forma demoníaca da imaginação alegórica: anti-representativa, anti-humanista, anti-mimética. Esta poesia interrompe o curso do mundo. É uma catástrofe."

António Guerreiro in ípsilon, 14-06-2013

terça-feira, 13 de novembro de 2012

EPHEMERAS

COISAS QUE SE FAZEM DE PÉ

Gervásio resolveu pensar nas coisas que se podiam fazer de pé, sentado ou deitado. De pé, podia-se fazer quase tudo; até dormir, pois tinha visto umas litografias antigas, onde, num albergue de mendicidade, havia uma grossa corda suspensa de um lado a outro, para os mendigos passarem a noite, apoiando os sovacos. Afinal, quase tudo se podia fazer de pé, desde uma honesta mijadela até uma rapidinha ocasional. Também já vira carteiros, polícias e cobradores a escreverem de pé, na rua. E até já frequentara umas aulas super-lotadas, em que os alunos tomavam apontamentos de pé. Também assim se exercia a maioria dos ofícios e trabalhos agrícolas, se tocavam vários instrumentos, se dançava. Mas, pensando melhor, quando um gajo tem azares, até se faz tudo de outras maneiras. Deitado. Sentado. Recostado. E fazem-se coisas sonhadas, imaginadas. Sonhar e imaginar, dizem alguns, são acções. Mexem. Coisa batida, bahhh! Mas, dá jeito acreditar nisso, ao menos, de vez em quando… Assim pensava, ao colo da companheira. A cadeira ortopédica.

(pág.28)

PRECIPÍCIO

Quando o solista se precipita nas teclas como um ser arremessado aos abismos, está envolto na circunstância incerta a que se chama virtuosismo. Esta permite-lhe pôr a técnica laboriosamente entretecida no corpo desde a infância, como suporte da densidade das emoções com que nos vai contagiando. Quando num prestíssimo ou numa coda rutilante de velocidade e percussão melódica ou pós-melódica os meus olhos se fixam na figura frágil do intérprete na sua miraculosa performance, experimento sempre, por osmose, aquele frisson do trapezista antes do triplo salto ou do esquiador em descendente trilho. As palmas e os bravos são a catarse necessária e desejável. Numa sala de concertos pode assistir-se ao que não se assiste na vida. Finais felizes.

(pág.32)

Ed. Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Outubro 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Território do claro-escuro

(Colhido aqui: http://www.nocentrodoarco.blogspot.pt/) Acaba de ser publicada no México em Junho de 2012, pelas Ediciones Libera, a antologia de poesia portuguesa contemporânea, "Cortei a laranja em duas", organizada e traduzida por Fernando Reyes, professor na UNAM - Universidade Nacional Autónoma do México e que, com bastante satisfação, tenho o prazer de integrar . A antologia inclui poemas de onze autores portugueses (Maria do Rosário Pedreira, Ruy Ventura, João Rasteiro, Fernando Aguiar, Inês Lourenço, Aurelino Costa, Pedro Ribeiro, Alexandre Nave, Filipa Leal, Américo Teixeira e José Rui Teixeira). O prefácio é de Jesús Gómez Morán. Neste, afirma o autor: (…) “a cultura portuguesa caracteriza-se por ser o oposto da brasileira. Se, grosso modo, o temperamento polícromo e alegre é claramente brasileiro, o lusitano tem como qualidades intrínsecas o claro-escuro e a melancolia. Penso, por exemplo, na poesia de Pessoa, cuja figura enorme seria capaz de eclipsar qualquer nome: poeta com a altura de Eliot e de Pound na língua inglesa e de Octavio Paz e Neruda em espanhol, o seu impacto (juntamente com o de Mário de Sá-Carneiro) é tão evidente que a sua sombra caiu praticamente sobre todos os autores portugueses dos períodos posteriores, a tal ponto que explorar o seu contributo lírico se transformou num repto difícil mas iniludível. (…) Quando se pensa nas conexões culturais existentes entre Portugal e México, é possível aceitar que a poesia lusa foi reinventada em 1888, ano do nascimento de Fernando Pessoa. Além disso, esse temperamento taciturno e saudoso parece gémeo do meio-tom, dessa nota crepuscular que caracteriza, por sua vez, a poesia Mexicana, pela voz do seu autor mais representativo nesse período, Ramón López Velarde. Logo, o que se aplica a um poeta pode ser válido para o outro, e o nosso conhecimento das letras e da cultura portuguesa, além desse temperamento, não manifestou em todo este tempo um eixo ou um acontecimento particular que as tenha vinculado. (…) Estas ligações não passariam muito tempo despercebidas e Pessoa haveria de ser analisado, principalmente por Octavio Paz, e traduzido profusamente por Francisco Cervantes, a quem devemos, além disso, a publicação póstuma da antologia Cara Lusitana, editada pelo Instituto de Cultura Queretano (2010), cuja lista se compõe de nomes posteriores a Pessoa e a Sá-Carneiro: Adolfo Casais Monteiro, Raul de Carvalho, Luiza Neto Jorge, Manuel Gusmão, Miguel Torga, Fiama Hasse Paes Brandão, Vitorino Nemésio, Eugénio de Andrade, Alberto de Lacerda, António Osório, Fernando Guimarães e outros. Essa abordagem a esta etapa da lírica portuguesa teve, contudo, pelo menos mais duas antologias prévias. Uma foi preparada por Fernando Pinto do Amaral, Antología de la poesía portuguesa contemporânea, publicada pela UNAM (1997), e a outra foi dada a estampa pela editora madrilena “Hiperión”, Portugal: la mirada cercana (2001). Em qualquer delas, o rol de poetas incluídos anda muito próximo da supracitada Cara Lusitana. Apesar disto, já se notava a necessidade de uma incursão pelas vozes lusitanas mais recentes, lacuna que a actual antologia preparada e traduzida por Fernando Reyes vem colmatar. O leitor terá oportunidade de tirar as suas próprias conclusões, mas quanto a mim a característica mais relevante que posso destacar desta nova empresa compiladora é a tensão estabelecida entre tradição e inovação nos autores selecionados. Nota-se, desde logo, a aparição do temperamento taciturno antes mencionado, a saudade nascida ante a contemplação do mar (com clara índole sebastianista), o espirito órfico herdado de Fernando Pessoa e da sua geração, ao lado de continuas referências intertextuais e das definições da função que o poeta deve assumir, como nestes versos de Inês Lourenço: “habitar um planeta / de versos suicidas / é o primeiro ofício do poeta”. Em união com estes traços, verifica-se uma inquietude experimental que dinamiza a expressão lírica, tanto em poemas dialogados de forma tal que se aproximam bastante da heteronímia (como é o caso de Ruy Ventura), quanto noutros com versos tao breves que parecem enformar linhas verticais (como sucede com Fernando Aguiar). Apesar disso, há poetas como João Rasteiro em cuja obra se unificam a tendência experimental, quando publica poemas em prosa (com versos praticamente justapostos), e a tendência tradicional, quando escreve em tercetos medidos. Ao analisar o temperamento do romantismo, Octavio Paz traçou dois enfoques primordiais: a analogia e a ironia. E é este segundo elemento o que emprega Fernando Aguiar para rasgar o véu melancólico da tradição poética lusitana. Isto acontece quando descreve algo aplicável tanto na operação de uma torre aéreo-portuária quanto na composição de um texto literário: “para quem julga que estou a / exagerar, não diga apenas que / não há dúvida que está realme / nte mesmo cada vez mais um / ito difícil. nem que está d / ificílimo. está dificilíssimo” E certamente, “ não há dúvida”. Por mais difícil que pareça, neste caso, estender uma ponte sobre este território poético marcado pelos contrastes de um claro-escuro, existem dois pontos salientes: estamos diminuindo a distância que nos afastava da poesia portuguesa contemporânea e, paulatinamente, essa tradição vai mostrando evidentes signos de regeneração (que, ao fim de contas, é um postulado de ascendência órfica) e frescura lírica. Jesús Gómez Morán (Tradução: Ruy Ventura)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Miguel - Manso

     

     1

  Abres o alçapão, pões o braço lá dentro. O que retiras de lá não é o que retiras de lá, mas ocupa um lugar. É um lugar o que retiras do alçapão. Um lugar a menos


      3

   O livro é uma cegueira veloz no sentido da lentidão. Nada, tudo, outra vez nada. Depende da mão que abandona mas primeiro bane o que bane a estranheza. O livro não se define com desembaraço, é de tear complicado. O dedo que aponta o livro não é o livro. O que o autor e o leitor sim aprendem com o livro: a evidência da escuridão, o indistinto da nitidez



      28

   No jornal: mulher esteve nove anos morta em casa. Passou quase uma década entre o momento íntimo dessa morte e o maior ou menor espavento civil (e/ou religioso) que a autorizou. A morte, que acontece sempre aos outros, precisa, idealmente, da exibição do seu resíduo: o corpo consumado. Ou então de um vestígio, notícia, um boato que seja. Se ninguém acolheu a morte dessa mulher, então ela só morreu (tornou a existir) de facto, no dia em que a encontraram no chão do seu apartamento. Mais do que uma utopia, ou um hiato (uma hiatopia) o lugar e o tempo onde e em que ela desexistiu (apurados e admitidos postumamente) têm a dimensão do mito. E eis que o vocábulo apartamento atingiu ali a sua literalidade. Mas de nada, para nada, por nada e em tempo nenhum


       32

   Alinhas letra a letra o letreiro da burla. O textículo em que trabalhas não obedece mais à profusa lei do pôr. E apenas sobrepões por camadas um espanto já aborrecido e sem lugar, de onde retiraste o gesto de ter posto mas nunca o gesto de ter gesto. Nunca o vento de resumir ou o rasto de ampliar


       52

   Poesia em estado bravio há. É porém o poema, esse organismo mindinho que pertence por degeneração ao corrupto agregado literário, que terá de encontrar a voltagem exacta que permita  canalizar a pequena parte - a possível - de todo o potentado. O problema dos poetas começa por ser uma dificuldade de artesanato, de técnica, de oficina. E os cantos mais belos estão ainda à espera de ser cantados (WW)



       in Um Lugar a Menos, Os Carimbos de Gent, Lisboa 2012, págs. 11; 13; 44; 50 e 76.




     

  


 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Carlos Alberto Machado


  O FANTASMA DO CAIS

  Conheci-o pelos meus seis anos, quando a minha mãe pela primeira vez me levou à Horta, ao Hospital, para uma operação às amígdalas. Lá está ele ainda no cais, costas voltadas para a lancha e para as pessoas que nela entram ou saem. Olha para todo o lado e para nenhum - menos para a lancha. Dir-se-ia que alguém o depositou ali, no lado errado, e depois se esqueceu de o retirar ou de o voltar para o sítio certo.
  Faça sol ou chuva, ele lá está, há mais de vinte anos, naquele alheamento de tudo, as pernas levemente afastadas, os braços caídos ao longo do corpo com as palmas das mãos bem voltadas para trás, no rosto uma boca de lábios quase invisíveis onde mora um sorriso entre o idiota e o sarcástico.
  Nessa minha primeira viagem o mar estava agitado e a minha mãe, já na Horta, perguntou-me se tinha gostado. Respondi-lhe que sim mas na verdade nem dei pela viagem, a cabeça todo o tempo ocupada a cismar naquela espécie de fantasma do cais da Madalena. Cismei, digo-o hoje, como se soubesse que em cada viagem de lancha o veria sempre ali, sempre na mesma posição e com o seu enigmático sorriso inalterado.
  Poucos são, contudo, os que reparam nele e na sua estranheza. Talvez a sua quietude e o seu alheamento imperial criem em torno de si uma espécie de escudo que impede que o vejam. Já adulto, atrevi-me uma ou outra vez a interpelá-lo, pelas horas, pelo lume para o cigarro: nada, apenas um inclinar ligeiro da cabeça e o sorriso que se abre quase imperceptivelmente. Mudo e quedo. Esfíngico. É ele o próprio enigma. Para mim é fascinante existir alguém assim, que apenas existe e não quer significar nada - ou que na sua existência neutra nos faz ver com olhos lavados tudo o que nos rodeia, o velho e o novo. Talvez seja isso. O facto de ele existir ali, daquela maneira, é mais forte que a gritaria e os gestos em excesso da turba. Uma ardósia onde cada um de nós pode escrever o que quiser.
  Por isso, é preciso que voltes, velho amigo: sem ti, o cais, as lanchas, as gaivotas, as pessoas, as cargas, tudo, tudo, fica sem sentido, como se não pudessem existir sem ti. Volta, velho amigo, se deste os olhos à morte foi por distracção, e isso remedeia-se.


 in estórias açorianas, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2012, p 25

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Telhados de Vidro nº 16 - ABRIL - 2012

POETA COSENDO UM BOTÃO NAS CALÇAS

está encostado a um navio porque tem o navio
na cabeça
cose o botão    poeta   cose
e a linha vai e vem   entre os dentes
linha branca
horizonte em contraste com o bege do algodão
das calças   este poeta está mais de acordo com o mar
que pesa debaixo do navio
do que muitos poetas que andaram
correndo os oceanos   escrevendo imagens salpicadas
de algas   tesouros e peixes   é um poeta
um poste de luz   é um poste de luz
e cose sem dificuldade o botão nas calças


( p. 12)


FERNANDO PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA

ele há coisa mais natural do que um poeta amar o ovo estrelado?
é o que ouço dizer
que Pessoa para além de tudo
passando sem pressa de passar na praça maior do Tejo
sentado no café com versos e odores de mar
gostava de ovo estrelado
dizia que era um sol frito
as coisas que um poeta diz

( p. 14)


LIMPA-VIDROS

entre nós e o que queremos dizer há um vidro
ou uma lente com as suas nódoas de humanidade   as dedadas
as marcas do frio   as saraivas   o pó
um verso mais ou menos limpo de imperfeições é
aquele que podemos ler depois de um trabalho com limpa-vidros

( p. 17)


Abel Neves, Averno, Lisboa, 2012.
Direcção:
Inês Dias e Manuel de Freitas.


terça-feira, 15 de maio de 2012

O Cão Celeste



EDITORIAL


Algures entre o jornal e a revista, o Cão Celeste pretende apenas ganir, ladrar com raiva ou paixão, amar ou odiar sem peias aquilo que o mundo quotidianamente lhe dá a ver. De seis em seis meses, os leitores interessados terão notícias nossas. Mas não somos um grupo, não obedecemos a qualquer cartilha literária ou política que possa servir para classificação geral. Este é, antes de mais, um espaço de encontro entre pesoas que ainda consideram urgente o livre exercício da crítica, do pensamento ou da revolta. E é justamente em nome dessa dessa precária liberdade que prescindimos de qualquer apoio exterior, passível de condicionar os nossos gestos. Repudiamos, de modo inequívoco, o acordo ortográfico pretensamente em vigor - e fazemos questão de sublinhar, sempre que possível, essa repulsa. Mas temos outros ódios, claro - e, felizmente, afectos e devoções não menos intensos. Apesar de tudo, e ainda que de longe em longe, a lanterna de Diógenes mantém o seu esquivo e necessário fulgor.

A Direcção

terça-feira, 6 de setembro de 2011




AGUENTA-TE COM ESTA


Talvez se mostrem no café da aldeia
a meio da tarde
as raparigas da cidade,
o longo cabelo a vedar-lhes
o rosto ensonado,
a pele branca correndo
sob as alças da blusa
ou feita navalha debaixo da mesa.
Mas tu não terás palavras, rapaz,
mesmo de calças novas
e camisa lavada,
pois tuas costas semelham
sacos de batatas
e no extremo de teus braços
encaixam lâminas de enxada.
Ficarás encostado ao balcão
armado em muro prestes a ruir.

Sairás por onde entraste,
fumador de SG filtro
cujo maço,
qual amachucada flor de lapela,
guardas no bolso da camisa.

Por cigarros vieste, os olhos
deitas em roda desarmados,
e dali disparas, metendo
pelo trilho que à treva desce.

RUI  LAGE
Um arraial português, p.30, Ed. Babel/Ulisseia
2011, abril.

Esclarece-nos o autor que «Os titulos dos poemas deste livro [..] são homónimos de titulos de canções da música ligeira portuguesa - ou de fragmentos das letras dessas canções - quase todas obrigatórias nos arraiais de verão um pouco por todo o país. [...]»

Escolhi este poema porque me parece que põe fortemente em evidência o desencontro de uma certa cultura jovem urbana e rural.

Esta poesia consegue com rara perícia vocabular e expressiva fazer uma interface inabitual entre esses dois mundos