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quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Manoel de Barros (1916-2014)
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Ildásio Tavares
Soneto Dominical
Já não me aflige mais a pasmaceira
do domingo. Meus filhos mundo afora
e eu em casa pensando. A vida inteira
ensina-me a ser só. Não é agora
que eu hei-de reclamar. Segunda-feira
há-de chegar. Há-de chegar a hora
em que se apague a chama derradeira;
em que a vida me diga: vá-se embora.
Tudo tão natural. A árvore morta
já não abriga pássaros nos ramos
que, pouco a pouco, vão caindo ao chão.
Amei mal as mulheres. Mais amamos
nós mesmos, nosso ofício. Pouco importa
a vida; este domingo; a solidão.
Ildásio Tavares, 25-01-1940/31-10-2010
Nota: conheci o Ildásio aqui no Porto das diversas vezes que cá veio em trabalho de divulgação poética, nomeadamente na Faculdade de Letras do Porto. Era uma personagem singular, vibrante, de um grande poder comunicacional e de vastos e diversificados saberes. Foi professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal da Bahia e tem uma considerável obra no domínio da poesia, ficção, ensaio, além de ter colaborado com alguns dos nomes maiores da MPB.
Etiquetas:
Ildásio Tavares,
poesia brasileira
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Poema inicial do livro antecedente
_________________
FELINOS
Porque incriados,
sombra e felino
firmaram esse secreto
acordo de assassinos:
ele a figura, ela o ensina
a pisar as coisas sem feri-las.
Cláudio Neves (Brasil)
Nota: a pedido de Pilantra.
FELINOS
Porque incriados,
sombra e felino
firmaram esse secreto
acordo de assassinos:
ele a figura, ela o ensina
a pisar as coisas sem feri-las.
Cláudio Neves (Brasil)
Nota: a pedido de Pilantra.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Cláudio Neves (Brasil)
____________
MALHADO
No gato malhado,
dito vira-lata,
a sombra invade,
milparte o gato.
Falta-lhe a linha
dorsal compacta
e o passo infalível
dos outros gatos;
falta-lhe a idéia
de contraparte:
nem bem é branca
ou negra metade
e ao todo é menor
que as manchas somadas.
É talvez assimétrico,
um antigato em seu claro-escuro
barroco, abstracto.
Não é a coisa,
mas as muitas falhas,
as muitas faltas
que lhe são inatas;
como uma idéia
despedaçada
numa palavra muitas palavras.
(do ciclo De Sombras e Gatos)
Neves, Cláudio, De sombras e vilas, Rio de Janeiro, 7Letras, 2008
Nota: Excelente poema, que nos revela num grande saber poético do manejo do verso curto, elíptico, (de contenção e contensão) uma visão muito própria do gato "rafeiro", sem raça definida.
O autor consegue evidenciar, a imagem do animal,quase plasticamente:" milparte"," negra metade", "falta-lhe a linha dorsal", etc.
Para além deste nível mais ligado à visualidade, há ainda toda a densidade semântica que o poema consegue, ligada à poderosa e antiquíssima simbologia do gato, simultaneamente fidalgo e plebeu, requintado e vadio, insubmisso e meigo, doméstico e selvagem.
Releiam-se achados como: "antigato" ou "uma idéia despedaçada", ou ainda "seu claro-escuro barroco, abstracto". Note-se neste últimp exemplo, de novo, para leitores mais atentos a sugestão plástica da estética do barroco (claro-escuro) ou das assimetrias pictóricas do abstraccionismo.
O verso final pode remeter para a pluralidade de sentidos duma imagem, dum poema, da própria vida.
O pequeno ciclo, inclui ainda, os poemas:"Negro", "Siamês, "Persa".
O livro é constituído pelos seguintes ciclos:
I - INTRODIÇÃO À SOMBRA
II - DE SOMBRAS E VILAS
III-DE SOMBRAS E CATOS
IV - OS CONSTRUTORES (DOIS EXCERTOS)
V - POEMAS ESPARSOS (1990-2007)
Relembre-se que enormes poetas abordaram o tema do gato, nos seus livros : Baudelaire, Verlaine, Yeats, Rilke, Appolinaire, Ezra Pound, T. S. Eliot, Jorge Luis Borges. Paul Eluard, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, erc, etc.
Em Portugal: Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Luíza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, João Miguel Fernandes Jorge, etc, etc.
MALHADO
No gato malhado,
dito vira-lata,
a sombra invade,
milparte o gato.
Falta-lhe a linha
dorsal compacta
e o passo infalível
dos outros gatos;
falta-lhe a idéia
de contraparte:
nem bem é branca
ou negra metade
e ao todo é menor
que as manchas somadas.
É talvez assimétrico,
um antigato em seu claro-escuro
barroco, abstracto.
Não é a coisa,
mas as muitas falhas,
as muitas faltas
que lhe são inatas;
como uma idéia
despedaçada
numa palavra muitas palavras.
(do ciclo De Sombras e Gatos)
Neves, Cláudio, De sombras e vilas, Rio de Janeiro, 7Letras, 2008
Nota: Excelente poema, que nos revela num grande saber poético do manejo do verso curto, elíptico, (de contenção e contensão) uma visão muito própria do gato "rafeiro", sem raça definida.
O autor consegue evidenciar, a imagem do animal,quase plasticamente:" milparte"," negra metade", "falta-lhe a linha dorsal", etc.
Para além deste nível mais ligado à visualidade, há ainda toda a densidade semântica que o poema consegue, ligada à poderosa e antiquíssima simbologia do gato, simultaneamente fidalgo e plebeu, requintado e vadio, insubmisso e meigo, doméstico e selvagem.
Releiam-se achados como: "antigato" ou "uma idéia despedaçada", ou ainda "seu claro-escuro barroco, abstracto". Note-se neste últimp exemplo, de novo, para leitores mais atentos a sugestão plástica da estética do barroco (claro-escuro) ou das assimetrias pictóricas do abstraccionismo.
O verso final pode remeter para a pluralidade de sentidos duma imagem, dum poema, da própria vida.
O pequeno ciclo, inclui ainda, os poemas:"Negro", "Siamês, "Persa".
O livro é constituído pelos seguintes ciclos:
I - INTRODIÇÃO À SOMBRA
II - DE SOMBRAS E VILAS
III-DE SOMBRAS E CATOS
IV - OS CONSTRUTORES (DOIS EXCERTOS)
V - POEMAS ESPARSOS (1990-2007)
Relembre-se que enormes poetas abordaram o tema do gato, nos seus livros : Baudelaire, Verlaine, Yeats, Rilke, Appolinaire, Ezra Pound, T. S. Eliot, Jorge Luis Borges. Paul Eluard, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, erc, etc.
Em Portugal: Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Luíza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, João Miguel Fernandes Jorge, etc, etc.
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