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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Rua do Bonjardim

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1.


Uma janela de guilhotina
golfava na rua, vozes
de barítono rouco e contralto
agreste, num vibrato de raivas
do libreto diário, onde muito
ou pouco, se teriam amado.


2.


Ao entrar no quiosque
nesta tarde de névoa, para
comprar um jornal qualquer, uma criança
pediu algo que não entendi. Seria
uma moeda para um chiclet? Perguntei
ao homem sentado atrás das
revistas do coração e dos diários
da bola, de quem seria a criança, como
se pudesse ser de alguém, um ser
tão súbito, nascido da genealogia
indecifrável da tarde.


3.


Vindo do Marquês, o autocarro
chiava na curva estreita, soltando
os seus vapores de gasóleo, e
num portal surgia um gato pardo
para o qual me inclinei, sabendo
que fugiria ao contacto
da minha mão, ou apenas ao
esboço de carícia, como fazem
os gatos, tão fugidios na presença
de estranhos. Mas o animal no
instante do recuo, aceitou o
deslizar dos meus dedos,
em troca de amáveis energias. E
uma longa saudade subiu-me pelo
braço, no arquear festivo
daquele pequeno tigre.



PENHORES


Aros esmaecidos, os anéis repousam
em brilhos desertos. Tantas
histórias banais com letreiro de
ouro usado. Nessa dúbia cor, uma
nobre tristeza resgata
os formatos vulgares e desenha
velhas parábolas
de purgatório e redenção.

I. L.

(dos livros Teoria da Imunidade (1996) e Um Quarto com Cidades ao Fundo (2000)

Nota: post dedicado a uma leitora do blogue, que reside em Inglaterra, mas que descobriu que um seu trisavô nasceu perto desta rua, em 1824.