terça-feira, 18 de novembro de 2008

Rui Lage - "CORVO"

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CAÇA GROSSA

Entopem o gargalo da toca
espetando o nariz, calcando
esquivo lagarto pateando
ossinhos de rato no Éden
de outra vida
enquanto das élficas orelhas
sacodem dejectos de sol:
duas raposas recém-nascidas.

Indiferentes ao milhafre
e à doninha,
em qualquer colo felizes
de qualquer leite beberiam.

Mas na aldeia,
numa porta de estábulo
imunda e carunchosa
o sangue secou no ruivo pêlo
e na materna cabeça a pólvora
onde a bala deu entrada.


Rui Lage, Corvo, Quasi Edições, VNFamalicão, 2008

5 comentários:

bruno sousa villar disse...

Palavras sinfónicas
desconcertantes.

Anónimo disse...

Arrepiante!

ângela marques

Victor Oliveira Mateus disse...

Dito desta forma fica-se com vontade de adoptar as recém-nascidas.

António Silva disse...

Cara Inês,
Olhe eu aqui a "invadir" o seu poético cantinho. Bom Domingo! Beijos!

pilantra disse...

Escorreito, nu, desamparado como um rangido