quarta-feira, 10 de junho de 2009

Luís Vaz de Camões - SEMPRE

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Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio,
umas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não nela mais que o que parece.


Nota: Desaparecido vai para cinco séculos, este Génio, anedoticamente mal conhecido pelos portugueses, continua (como todos os génios) de uma actualidade impressionante.

6 comentários:

samartaime disse...

E hoje seu dia - mais que de Portugal - abundam dislates teoréticos sobre o verdadeiro significado até de «Os Lusíadas».
E no entanto, o poema, sem dúvida épico, intitula-se, tão-só, os lusíadas. Rústicos, rudes, surdos, - «feios, porcos e maus» -poucos crentes em si, em deus e no diabo, bons oportunistas e predispostos ao riso - mesmo nas agruras do cieiro...
Sim, genial: mudem-se os nomes que surgem as vontades.

Bjs, m

jose albergaria disse...

Este é de mor actualidade.
Tenho um na minha rua, mas vou-lhe, sem sua licença,roubar este e exibi-lo por lá.
Abraço,
J.A.

logos disse...

Queridos Amigos,
´
Obrigada pelos vossos comentários.
Ainda há pouco fui buscar ^`a estante uma outra edição da "Lírica" e verifiquei que este soneto foi esitado pela primeira vez em 1636. E que nem todos os editores asseguram a autoria camoneaba. Acham, por falta de fontes credíveis, que pode ser de Diogo Bernardes.
Mas, não se vê logo, pela sábia desesperança, que é do Luís Vaz?
Até porque o DB era o poeta oficial da corte.Não tinha motivos, para queixas, além das do amor-cortês, tópico desta época.

Abraços

I.

samartaime disse...

Eu deixei o soneto e a estátua à pilantra e atraquei-me aos lusíadas propriamente ditos, a duas estrofes do canto 3 que me resumem o Camões meio culto meio irónico que muito me delicia, para além de invocar a nossa descendência de Baco! O meio cá, meio lá, de espada e flor murcha, adornado e incrédulo, despropositado mas... sempre sobrevivente - como todos os heróis que se hão de hagiografar.

(não me atazane com o verbo manuelino que me ponho já aqui a cantar:)

Olhai, senhores,
estes vinhedos frondosos
sejam tintóis ou branquelas
maduros ou bem berdosos
a chilrear nas gamelas!

Vaza a gamela vai-se à caneca
Vaza a caneca, vai-se ao pipo
e vá de chupar a contento.
Vaza a pipa, muda-se o pipo
e recomeça o intento do evento estrafegóide.

samartaime disse...

eh eh eh

lá estraguei a rima à cantoria!


(a gente tem de se distrair com alguma coisa!)

Dan disse...

Oi Inês, te conheci por acaso. Possuo um blog e queria homenagear uns amigos portugueses que passeiam por lá. Procurando por poetas portugueses contemporâneos me deparei com você e com sua poesia. Me deliciei tanto que acabei fazendo uma postagem só com você, possuidora de grande talento. Muito obrigado pelos momentos magicos que nos proporciona e a convido para um passeio a meu blog cujo endereço é http://dan-poucodetudo.blogspot.com/