quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O romance é o cancro da literatura

(...) A hegemonia do romance no nosso tempo, melhor dizendo, a pandemia romanesca que levou, há alguns anos, o francês Henri Meschonnic - autor de uma vasta obra de teoria literária, tradutor da Bíblia e poeta - a dizer, num livro de 2001, que "o romance é o cancro da literatura" (o título deste artigo é, pois, uma citação) não pode ser compreendida se não a ligarmos ao triunfo do jornalismo e das técnicas de storytelling. A "reportagem universal" de que falava Mallarmé no final do século passado encontrou agora a sua mais plena realização.
O que se tornou hegemónico e pandémico (as livrarias aí estão para o confirmar) não é o romance como forma aberta a todos os discursos e de certo modo indefinível como género, mas as variações infinitas e a mediocridade mimética a que Paul Valéry, no princípio do século XX, passou uma certidão de óbito ao dizer que já não era possível seguir o modelo narrativo do tipo daquele que está implícito numa frase como "La marquise sortît à cinq heures".
O tema da morte e da crise do romance, esse género tão recente na história da literatura (em rigor, surge nos alvores da época moderna, com Cervantes), atravessou grande parte do século XX e chegou até perto de nós como hipótese plausível no plano teórico e empiricamente verificável no próprio cânone do romance do século XX. Em 1957, a propósito de "Ulisses", de Joyce, Borges declarou que a história do romance tinha chegado ao fim.
Quando, num célebre texto de 1966, Roland Barthes dizia que "são inumeráveis as narrativas do mundo", a noção de récit, de narrativa, tinha uma preponderância absoluta sobre a categoria pouco auspiciosa do romance. Nada fazia então prever que este viesse a ganhar uma segunda vida, tão poderosa que o seu regime de proliferação pôde ser considerado canceroso. 
O que significa que a sua multiplicação causa a morte de tudo o que não se conforma ao seu modelo.
Em França, pela rentrée (setembro/outubro), publicam-se sete a oito centenas de novos romances. A maior parte deles, poucos meses depois, tem um destino muito francês: a guilhotina. Mas os editores apostam na lei da estatística: entre tantos, o ínfimo número que triunfa conquista um mercado de milhões. 
- António Guerreiro, in Actual, Expresso, 10 Janeiro 2011

1 comentário:

ângela f. marques disse...

E pronto, lá tenho eu que agradecer outra vez (o que nunca é demais), porque eu não conhecia este excelente texto.

Beijo