terça-feira, 1 de setembro de 2015

RODA DA FORTUNA

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RODA DA FORTUNA

O número dez governa
os meus movimentos. Decénios
e decénios me transformaram...
em leme, nora, moinho,
hélice, chaminé, guindaste
ou num objecto-fantasma
em cenário de abandono. A
geometria divina do círculo
converteu-me no destino dos
homens. Subo e desço
em sucessivos ciclos. A
mutabilidade é o meu eixo
e habito a substância do tempo
que tudo destrói e regenera.

Inês Lourenço (in A ENGANOSA RESPIRAÇÃO DA MANHÃ, 2002

quarta-feira, 1 de julho de 2015

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Quadras Sanjoaninas 2015


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Inda há para a sardinha
Meia dúzia de tostões,
Só querem deixar a espinha
Esse bando de ladrões.

 
Gaspar, Lulus e Pentelhos,
Cavacos, Relvas, Loureiros,
Salgados, Portas, Coelhos,
Lixaram novos e velhos.

 
Num foguete e num balão,
Um milagre se vai dar,
Pois o nosso S. João
Manda os safados ao ar.

 
Assim para o ano que vem,
Ele vai-nos proteger:
E não se verá ninguém
Na lixeira a remexer.

 
Obrigado S. João
Por seres nosso protector.
Lá vamos nós dar a mão
Na fogueira, com amor.

 

(Anónimo)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Leave the kids alone





Ficaram sozinhos com as redes sociais, a partilharem as maiores humilhações e sevícias entre eles. É tempo de analisar os resultados desta fraude.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

sexta-feira, 8 de maio de 2015

sexta-feira, 24 de abril de 2015

OS LIVROS, ONTEM E TODOS OS DIAS


OS LIVROS

Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também


morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruíram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes amigos tão antigos e
tão novos.



I.L.
in COISAS QUE NUNCA, &etc Lisboa 2010

sexta-feira, 17 de abril de 2015

GÜNTER GRASS


GLÓBULOS VERMELHOS


Mas nua...
e reduzida somente a proporções
fazes-me pena.
Por isso tento mudar-te o joelho de lugar.
Dá-me que pensar a tua espinha côncava.
Não compreendo porque és tão feia
nem porque sou incapaz de deixar de te olhar
para contemplar, por exemplo, o prado verde ou o rio
que são tão naturais
e não possuem clavículas.



Amo-te
como é possível.
Vou compor um ballet
para os teus glóbulos, os brancos
e os vermelhos.
Quando cair o pano
tomar-te-ei o pulso e verei
se o esforço valeu a pena.






PONTUAL


No andar inferior
uma jovem mãe bate
no seu filho
em cada meia-hora.
Por esse facto
vendi o meu relógio
e guio-me somente
pela mão dura
do andar inferior,
os cigarros contados
ao alcance da mão;
o meu tempo está bem medido.




Trad. de Egito Gonçalves
in Cadernos de Poesia HÍFEN nº5, Porto, Março 1990.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

RUI CAEIRO

Na minha terra as largadas são, antes de mais, pretexto para um são convívio entre a população e os touros.



Uma vez assisti à seguinte cena: um jovem está a ser perseguido por um dos touros e refugia-se atrás de um banco de pedra a meio da praça. Fica ele de um lado do banco, o touro do outro, os dois assim se fitando e desafiando. Imóveis, arquejantes ambos. Não chegava a um metro a distância que separava a cabeça do rapaz e a do corpulento animal. O rapaz enfrent...ava com uma inesperada serenidade as chispas ou o ódio que os olhos do touro despediam. Estiveram assim durante uma eternidade, isto é, um ou dois minutos, cada um como que encantado pelo outro. Em volta, a multidão seguia a cena conservando um silêncio religioso. Foi o touro a dar o pontapé de saída, ou antes, a cornada no banco que lhe esfanicou a parte de cima. O jovem mal teve tempo para dar um salto atrás, assim evitando ser atingido: pelos cornos do touro, ou por um calhau de mármore proveniente da desintegração do banco. Foi, sem dúvida, um magnífico "tête à tête".
E tudo acabou bem.




Em Vila Viçosa um banco de mármore substitui-se com facilidade.



in DEUS E OUTROS ANIMAIS, Averno 2015.