terça-feira, 31 de março de 2015
quinta-feira, 12 de março de 2015
CATÁLOGO DE PÁSSAROS DE O. MESSIAEN
Exactamente setenta e sete pássaros diferentes
repartidos por sete livros de música
Não chega só uma vida para contar a plumagem
as películas esvoaçantes do breu real
ou os saltos coloridos de espessuras entre galhos
Volteiam de transparência em transparência
trespassam o dia, bicam o nó da sombra
Aguardamos sob o peso do sol, névoas até aos ossos
preenchemos depois as noites com cifras de aérea
gravidade
humilde exercício, transposição luminosa
É o mundo todo visível, questão de paciência
invisível totalmente, olhos recomeçados?
Pequenos factos radiantes
corações de tempos demasiado vivos
registos sobreagudos, coisas de atenta surdez
Sobrevoam os intervalos mais discretos da terra
alheios ao peregrino, humano sobressalto
anjos ou penas pesadas da neve
Já nos visitavam nas coutadas da Silésia
pedradas, tiros, valas comuns em Stalag VIII A
A cotovia dos campos, o papa-figos dourado
maçarico real, chasco preto, melro azul
José Manuel Teixeira Silva
in "Música de Anónimo", Companhia das Ilhas, Lajes do Pico 2015
repartidos por sete livros de música
Não chega só uma vida para contar a plumagem
as películas esvoaçantes do breu real
ou os saltos coloridos de espessuras entre galhos
Volteiam de transparência em transparência
trespassam o dia, bicam o nó da sombra
Aguardamos sob o peso do sol, névoas até aos ossos
preenchemos depois as noites com cifras de aérea
gravidade
humilde exercício, transposição luminosa
É o mundo todo visível, questão de paciência
invisível totalmente, olhos recomeçados?
Pequenos factos radiantes
corações de tempos demasiado vivos
registos sobreagudos, coisas de atenta surdez
Sobrevoam os intervalos mais discretos da terra
alheios ao peregrino, humano sobressalto
anjos ou penas pesadas da neve
Já nos visitavam nas coutadas da Silésia
pedradas, tiros, valas comuns em Stalag VIII A
A cotovia dos campos, o papa-figos dourado
maçarico real, chasco preto, melro azul
José Manuel Teixeira Silva
in "Música de Anónimo", Companhia das Ilhas, Lajes do Pico 2015
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Cão Celeste nº 6
(…)
Depois de ti, Fernando.
Depois de ti vieram outros praticantes menores, sempre
menores do que tu, e sem arca que se visse. E não mais correndo os mesmos
riscos. E não mais adeptos de uma obscuridade assim heróica como a tua.
Desses, o mais relevante parece ser o grande Buda Agá-Agá.
Agora, já idoso e de pantufas calçadas, na sua casa de
Cascais. Aguardando, aborrecendo-se. E quase nada escrevendo. Já um tanto
perdido também ele, mas ainda sensível aos cantos de sereia da meninice e do
esoterismo.
Mas não há comparação possível contigo, Fernando, que foste,
para além de ti e do mistério de ti, do mistério que sempre se é, a tua
especialíssima e enorme circunstância.
Tu foste mais longe, mais além, mais fundo e mais profundo:
na realização e na perdição, na sinceridade e na mistificação. Na imobilidade e
no voo. No sonho, na dispersão, na despersonalização.
Rimbaud, é da legenda, perdeu as botas na Abissínia. Pior do
que isso, perdeu a perna, perdeu a saúde e a vida. Tu, Fernando, foi em ti que
te perdeste.
A cada um o seu deserto.
Tu limitaste-te a sumir por Lisboa, nessas tuas ruas da
Baixa.
E tanto te perdeste que pelos vistos ainda lá estás, ou por
lá andas ainda.
Visível ou invisível, sumiste até não seres ninguém.
Até seres ninguém.
Rui Caeiro In Poema para o Fernando seguido de algumas
falripas de prosa também para o Fernando. Cão Celeste nº 6. Lisboa, Novembro de 2014.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
PUER NATUS EST NOBIS
Dos contos de fadas da
minha infância, este da
DivinaCriança era dos mais maravilhosos. Não
faltaram os exóticos magos guiados
pela mística estrela, a noite gelada, os
mansos animais, o desvalido ermo, a pobreza
transformada em glória. O bem
sucedido parto de uma virgem, tantos séculos
antes das pesquisas genéticas. O pior
foi quando quiseram contar o Tempo
a partir desta história. Podiam ter escolhido
outra, com um fim menos cruel. Antes
a da Cinderela ou a do Príncipe Sapo, onde
todos viveram felizes para sempre. Sempre?
E o que é
I.L.
in A Disfunção Lírica, & etc , 2007
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Manoel de Barros (1916-2014)
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Poesia e Morte
Finitudes
1
Em
cada fruto a morte amadurece, escreve Eugénio de Andrade num poema do livro As Mãos e os Frutos (1948). Aqui, surge-nos iluminado por um grande
poeta, um dos topos mais antigos de toda a Poesia. O amadurecer como um crescendo
para a morte, ou melhor dizendo, qualquer início de uma existência é a garantia
da sua cessação. Múltiplas mitologias e teogonias de Oriente e Ocidente,
crenças e religiões monoteístas e politeístas reflectiram sempre a nossa mortalidade,
temor e formas de a representar e transfigurar, perante o poder intemporal de
entidades divinas, que por oposição aos terráqueos têm o dom da imortalidade. A
vita brevis
horaceana conduz-nos através
das sucessivas idades históricas e estéticas delas decorrentes, ao inapagável
tema da finitude, que tem na palavra poética a configuração de uma atitude
elegíaca. Descendendo da Grécia antiga e saindo do paganismo para o mundo cristão,
para aí assumir crenças salvíficas, tem uma nova e moderna inflexão com Rilke,
onde a solidão ontológica lança o célebre apelo: Se eu gritar, quem poderá
ouvir-me, nas hierarquias dos Anjos? –
nas conhecidas Elegias de Duíno. Digamos, pois, que a expressão textual de uma
perda ou da previsão ou proximidade dela, se consubstancia no tom menor de
qualquer texto poético que traduza uma atitude de tónica disfórica acerca de qualquer
transitoriedade que nos afecta: ausências de todo o género, da terra natal, de
quem se ama, de uma companhia animal, da saúde própria ou alheia.
Muitas outras ausências, exílios e perdas se
inscrevem na poesia, como a do próprio sujeito poético, a de um estado intra-uterino,
que garantiria a protecção matricial, a da infância, a de crenças éticas ou religiosas
ou até o próprio poder visionário e transformador da arte dos versos,
porventura duvidando da afirmação holderlineana: O que permanece, os poetas
o fundam. O mito de Orfeu é, sem dúvida,
outra das milenares e inapagáveis legendas que, em todas as artes, da música à
pintura, ao teatro, ao cinema, mais se tem inscrito na poesia, desde recuados
tempos, com o seu conflito entre eros
e tanathos,
com um canto apolíneo que vence a morte, mas acaba derrotado por ela. No
entanto, a cabeça de Orfeu, arrastada pelas águas do Ebro, depois do crime
nefando das Ménades, continua a clamar o nome de Eurídice… O século XX com as
suas guerras sangrentas e métodos dirigentes que provocaram horrendos
genocídios, como o holocausto, o estalinismo, a bomba de Hiroshima, etc, deixaram
na poesia e em todas as artes, uma profunda marca. Alguns nomes surgem imediatamente
como Paul Celan, Anna Akhmatova ou Marina Tsvetáeva. E ainda a conhecida asserção
(1949) de Theodor Adorno: Depois
de Auschwitz não há poesia possível. Se o silêncio do horror se impunha, perante a
constatação de monstruosas práticas entre humanos, privilegiando a elegia e o
luto, em breve se constatou que está nas palavras e particularmente na palavra
poética, dada a sua liberdade livre o genoma da transfiguração do sentido. Modaliza,
mesmo através do sarcasmo, da descrença ou da ironia a sequente circunstância
de permanecer vivo, para além da queda dos deuses, dos amores difíceis, da
inultrapassável degradação do corpo. Resta-nos concluir, que também a poesia
evidenciou o trabalho igualitário da morte, pois poderosos e mendigos terão
encontro irrecusável com ela. Contudo, no poema, podemos sempre subverter esses encontros, como escreveu Sophia: Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
2
Comecei a publicar em 1980, desde logo com um
título, Cicatriz 100%, uma clara referência a um tecido cicatricial, que pressupunha
o desaparecimento de uma epiderme anterior.
Quase todos os títulos que se seguiram até 2012, com
Ephemeras, encerram uma nítida assunção da transitoriedade da
existência, da enganosa fulgurância dos inícios, do passageiro inebriamento
erótico, de tudo que se perde e se torna para sempre irrecuperável. Os Solistas (1994),
pretendendo evidenciar a circunstância daquele que, mesmo na criação, está radicalmente
só; A Enganosa Respiração da Manhã
(2002), uma espécie de carpe diem do
avesso, ou outros títulos de livros ou partes integrantes, como Câmara Escura,
Alguns Epitáfios, Erosivo
Eros são o anúncio inequívoco dessa
mundividência e representação. Igualmente Logros
Consentidos (2005), A
Disfunção Lírica (2007), Coisas
que Nunca (2010). A utilidade ou poder
salvífico da arte e mais concretamente da poesia, torna-se objecto de alguma
ironia, com o percurso da escrita a ser influenciado pela crescente vacuidade
das buscas humanas, que em grande parte se resumem a um hedonismo patético, a
um economicismo criminoso, a tecnologias intransitivas. Mas a palavra permite sempre
a subversão, a nostálgica raiva da espera. Termino com duas Artes Poéticas,
respectivamente de 1994 e 2000.
ARTE POÉTICA II
Poluída e rútila/ é a beleza de um verso/ cercado o
movente
sangue/ sobre a neve,/ lugar sem bússola onde
escassos
chegam,/ sem país, sem linho, sol ou noite.
in Os
Solistas.
ARTE POÉTICA III
O poeta disse: a inspiração/ não existe. De há
muito, as
musas/ ficaram desempregadas. E desvendou/ algum
método
de trabalho/ à parca assistência, altivo e
contemporâneo,/
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras/
resistindo ao
tráfego do fim de tarde,/ pouco se interessavam/
pela carpintaria
dos versos.
in Um
Quarto Com Cidades ao Fundo.
I.L. in relâmpago, nº 34, 2014. Página 83.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
SCORPIUS
Segundo o Zodíaco, inicia-se hoje o signo astrológico do Escorpião, que vai de 23 de Outubro a 22 de Novembro. Para celebrar este nosso signo, relembro aqui, um ciclo já publicado em 2000 no livro "Um Quarto Com Cidades ao Fundo" da extinta editora "Quasi".
1.
Nessa voz grave ao fundo do espelho
procuras os pianíssimos da
secreta criança. Duas pinças estendem-se
para a boca partindo das narinas. Apesar disso
o pescoço continua ágil cumprindo a sombra.
Reflectem-se ainda os sustos dos dias luminosos
e as tenazes do medo, a urina soltando-se,
o amor invadindo um pequeno vulto
atento à morte. Adolesce esse animal incauto
num crescendo de palavras escarlate, solta
um fluxo hemorrágico de extermínio
e expulsa o sentido
para os países onde se nasce de dia.
2.
Perguntava-lhe sempre, quem
distribuía as migalhas aos pardais do terraço,
certo que seria dela esse gesto dúctil de nutrição
de pequenos seres urbanos
que se demoram nos telhados do inverno.
Mas ela só amava
os animais negros e furtivos
os insectos selvagens e as serpentes marinhas.
3.
Tinha sempre o mesmo sonho,
dois insectos, um mar negro de pinças,
escamas esmagadas, lembrava-se
que um deles recuava antes que o outro,
uma fúria em filamentos,
lhe esmagasse o ventre
de anéis.
4.
Eles respiram num enlevamento transferido
para a zona da tempestade,
na profunda implosão das narinas
circula o ar, que outros
designaram de suspiros. Os membros
excedentes ao núcleo caminham num crescendo
reptilíneo, ao encontro da voz
que descendente
retoma a fila dos minutos mansos.
5.
Nas oscilações entre a vigília e o sono
a respiração de um desperta o outro. Ambos
se chegam para o seu lado da cama
com um grande vazio ao meio,
um simulacro de repouso na esperança
de permitir ao outro que adormeça e o deixe livre
para se voltar muitas vezes, convertido
numa estátua de sal.
6.
Quem não acordou
num quarto com uma velha porta
desconhece nas frinchas os milagres
da luz da manhã. Esse jorrante fogo
de artifício doura e apaga
o uivar vespertino
do último crepúsculo.
7.
Repara como ainda os cabelos
me nascem espessos e deslizam
no dorso. As minhas coxas são longas,
os pulsos não se entumesceram
e a minha sombra não habita os mapas.
8.
Pelo interior dos braços tantos deltas
se despenham como puros óleos, aceso
cálice de macerar violetas
vindo de um oratório antigo.
I.L.
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