segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cão Celeste nº 6


(…)
 
Depois de ti, Fernando.
Depois de ti vieram outros praticantes menores, sempre menores do que tu, e sem arca que se visse. E não mais correndo os mesmos riscos. E não mais adeptos de uma obscuridade assim heróica como a tua.
Desses, o mais relevante parece ser o grande Buda Agá-Agá.
Agora, já idoso e de pantufas calçadas, na sua casa de Cascais. Aguardando, aborrecendo-se. E quase nada escrevendo. Já um tanto perdido também ele, mas ainda sensível aos cantos de sereia da meninice e do esoterismo.
Mas não há comparação possível contigo, Fernando, que foste, para além de ti e do mistério de ti, do mistério que sempre se é, a tua especialíssima e enorme circunstância.
 
Tu foste mais longe, mais além, mais fundo e mais profundo: na realização e na perdição, na sinceridade e na mistificação. Na imobilidade e no voo. No sonho, na dispersão, na despersonalização.
Rimbaud, é da legenda, perdeu as botas na Abissínia. Pior do que isso, perdeu a perna, perdeu a saúde e a vida. Tu, Fernando, foi em ti que te perdeste.
A cada um o seu deserto.
Tu limitaste-te a sumir por Lisboa, nessas tuas ruas da Baixa.
E tanto te perdeste que pelos vistos ainda lá estás, ou por lá andas ainda.
Visível ou invisível, sumiste até não seres ninguém.
Até seres ninguém.
 
Rui Caeiro In Poema para o Fernando seguido de algumas falripas de prosa também para o Fernando.  Cão Celeste nº 6. Lisboa, Novembro de 2014.




 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PUER NATUS EST NOBIS


 

Dos contos de fadas da
minha infância, este da Divina
Criança era dos mais maravilhosos. Não
faltaram os exóticos magos guiados
pela mística estrela, a noite gelada, os
mansos animais, o desvalido ermo, a pobreza
transformada em glória. O bem
sucedido parto de uma virgem, tantos séculos
antes das pesquisas genéticas. O pior
foi quando quiseram contar o Tempo
a partir desta história. Podiam ter escolhido
outra, com um fim menos cruel. Antes
a da Cinderela ou a do Príncipe Sapo, onde
todos viveram felizes para sempre. Sempre?
E o que é

 
Sempre?




I.L.
in A Disfunção Lírica, & etc , 2007

 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Manoel de Barros (1916-2014)


O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Poesia e Morte


Finitudes
 
1
Em cada fruto a morte amadurece, escreve Eugénio de Andrade num poema do livro As Mãos e os Frutos (1948). Aqui, surge-nos iluminado por um grande poeta, um dos topos mais antigos de toda a Poesia. O amadurecer como um crescendo para a morte, ou melhor dizendo, qualquer início de uma existência é a garantia da sua cessação. Múltiplas mitologias e teogonias de Oriente e Ocidente, crenças e religiões monoteístas e politeístas reflectiram sempre a nossa mortalidade, temor e formas de a representar e transfigurar, perante o poder intemporal de entidades divinas, que por oposição aos terráqueos têm o dom da imortalidade. A vita brevis horaceana conduz-nos através das sucessivas idades históricas e estéticas delas decorrentes, ao inapagável tema da finitude, que tem na palavra poética a configuração de uma atitude elegíaca. Descendendo da Grécia antiga e saindo do paganismo para o mundo cristão, para aí assumir crenças salvíficas, tem uma nova e moderna inflexão com Rilke, onde a solidão ontológica lança o célebre apelo: Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias dos Anjos? – nas conhecidas Elegias de Duíno. Digamos, pois, que a expressão textual de uma perda ou da previsão ou proximidade dela, se consubstancia no tom menor de qualquer texto poético que traduza uma atitude de tónica disfórica acerca de qualquer transitoriedade que nos afecta: ausências de todo o género, da terra natal, de quem se ama, de uma companhia animal, da saúde própria ou alheia.
 
Muitas outras ausências, exílios e perdas se inscrevem na poesia, como a do próprio sujeito poético, a de um estado intra-uterino, que garantiria a protecção matricial, a da infância, a de crenças éticas ou religiosas ou até o próprio poder visionário e transformador da arte dos versos, porventura duvidando da afirmação holderlineana: O que permanece, os poetas o fundam. O mito de Orfeu é, sem dúvida, outra das milenares e inapagáveis legendas que, em todas as artes, da música à pintura, ao teatro, ao cinema, mais se tem inscrito na poesia, desde recuados tempos, com o seu conflito entre eros e tanathos, com um canto apolíneo que vence a morte, mas acaba derrotado por ela. No entanto, a cabeça de Orfeu, arrastada pelas águas do Ebro, depois do crime nefando das Ménades, continua a clamar o nome de Eurídice… O século XX com as suas guerras sangrentas e métodos dirigentes que provocaram horrendos genocídios, como o holocausto, o estalinismo, a bomba de Hiroshima, etc, deixaram na poesia e em todas as artes, uma profunda marca. Alguns nomes surgem imediatamente como Paul Celan, Anna Akhmatova ou Marina Tsvetáeva. E ainda a conhecida asserção (1949) de Theodor Adorno: Depois de Auschwitz não há poesia possível. Se o silêncio do horror se impunha, perante a constatação de monstruosas práticas entre humanos, privilegiando a elegia e o luto, em breve se constatou que está nas palavras e particularmente na palavra poética, dada a sua liberdade livre o genoma da transfiguração do sentido. Modaliza, mesmo através do sarcasmo, da descrença ou da ironia a sequente circunstância de permanecer vivo, para além da queda dos deuses, dos amores difíceis, da inultrapassável degradação do corpo. Resta-nos concluir, que também a poesia evidenciou o trabalho igualitário da morte, pois poderosos e mendigos terão encontro irrecusável com ela. Contudo, no poema, podemos sempre subverter esses encontros, como escreveu Sophia: Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
 
2
Comecei a publicar em 1980, desde logo com um título, Cicatriz 100%, uma clara referência a um tecido cicatricial, que pressupunha o desaparecimento de uma epiderme anterior.
 
Quase todos os títulos que se seguiram até 2012, com Ephemeras, encerram uma nítida assunção da transitoriedade da existência, da enganosa fulgurância dos inícios, do passageiro inebriamento erótico, de tudo que se perde e se torna para sempre irrecuperável. Os Solistas (1994), pretendendo evidenciar a circunstância daquele que, mesmo na criação, está radicalmente só; A Enganosa Respiração da Manhã (2002), uma espécie de carpe diem do avesso, ou outros títulos de livros ou partes integrantes, como Câmara Escura, Alguns Epitáfios, Erosivo Eros são o anúncio inequívoco dessa mundividência e representação. Igualmente Logros Consentidos (2005), A Disfunção Lírica (2007), Coisas que Nunca (2010). A utilidade ou poder salvífico da arte e mais concretamente da poesia, torna-se objecto de alguma ironia, com o percurso da escrita a ser influenciado pela crescente vacuidade das buscas humanas, que em grande parte se resumem a um hedonismo patético, a um economicismo criminoso, a tecnologias intransitivas. Mas a palavra permite sempre a subversão, a nostálgica raiva da espera. Termino com duas Artes Poéticas, respectivamente de 1994 e 2000.
 
ARTE POÉTICA II
Poluída e rútila/ é a beleza de um verso/ cercado o movente
sangue/ sobre a neve,/ lugar sem bússola onde escassos
chegam,/ sem país, sem linho, sol ou noite.
in Os Solistas.
 
ARTE POÉTICA III
O poeta disse: a inspiração/ não existe. De há muito, as
musas/ ficaram desempregadas. E desvendou/ algum método
de trabalho/ à parca assistência, altivo e contemporâneo,/
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras/ resistindo ao
tráfego do fim de tarde,/ pouco se interessavam/ pela carpintaria
dos versos.
in Um Quarto Com Cidades ao Fundo.
 
I.L. in relâmpago, nº 34, 2014. Página 83.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

SCORPIUS


Segundo o Zodíaco, inicia-se hoje o signo astrológico do Escorpião, que vai de 23 de Outubro a 22 de Novembro. Para celebrar este nosso signo, relembro aqui, um ciclo já publicado em 2000 no livro "Um Quarto Com Cidades ao Fundo" da extinta editora "Quasi".


1.
Nessa voz grave ao fundo do espelho
procuras os pianíssimos da
secreta criança. Duas pinças estendem-se
para a boca partindo das narinas. Apesar disso
o pescoço continua ágil cumprindo a sombra.
Reflectem-se ainda os sustos dos dias luminosos
e as tenazes do medo, a urina soltando-se,
o amor invadindo um pequeno vulto
atento à morte. Adolesce esse animal incauto
num crescendo de palavras escarlate, solta
um fluxo hemorrágico de extermínio
e expulsa o sentido
para os países onde se nasce de dia.


2.
Perguntava-lhe sempre, quem
distribuía as migalhas aos pardais do terraço,
certo que seria dela esse gesto dúctil de nutrição
de pequenos seres urbanos
que se demoram nos telhados do inverno.


Mas ela só amava
os animais negros e furtivos
os insectos selvagens e as serpentes marinhas.


3.
Tinha sempre o mesmo sonho,
dois insectos, um mar negro de pinças,
escamas esmagadas, lembrava-se
que um deles recuava antes que o outro,
uma fúria em filamentos,
lhe esmagasse o ventre
de anéis.


4.
Eles respiram num enlevamento transferido
para a zona da tempestade,
na profunda implosão das narinas
circula o ar, que outros
designaram de suspiros. Os membros
excedentes ao núcleo caminham num crescendo
reptilíneo, ao encontro da voz
que descendente
retoma a fila dos minutos mansos.


5.
Nas oscilações entre a vigília e o sono
a respiração de um desperta o outro. Ambos
se chegam para o seu lado da cama
com um grande vazio ao meio,
um simulacro de repouso na esperança
de permitir ao outro que adormeça e o deixe livre
para se voltar muitas vezes, convertido
numa estátua de sal.


6.
Quem não acordou
num quarto com uma velha porta
desconhece nas frinchas os milagres
da luz da manhã. Esse jorrante fogo
de artifício doura e apaga
o uivar vespertino
do último crepúsculo.


7.
Repara como ainda os cabelos
me nascem espessos e deslizam
no dorso. As minhas coxas são longas,
os pulsos não se entumesceram
e a minha sombra não habita os mapas.


8.
Pelo interior dos braços tantos deltas
se despenham como puros óleos, aceso
cálice de macerar violetas
vindo de um oratório antigo.



I.L.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

BACH




"(...)
Talvez não seja possível escrever sobre a música, talvez as palavras encontrem aí o seu limite: tenta dizer com palavras um intervalo de música, a entrada de um tema, o timbre de um oboé.
Tentei, uma vez: alguns fragmentos, breves textos para explicar como ouvia a música de Bach. Desisti; lembro-me de escrever uma carta a um amigo, a contar o impasse, a impossibilidade. Alguns anos passaram. Tentei novamente: um caderno crescia, entre leituras, experiências. ...Mas para onde, para que Bach - histórico, pessoal, real ou imaginário -, como dizer a música? Novo impasse. Descobria dolorosamente as fronteiras da linguagem; que nem sempre ela serve; que é preciso não pedir o impossível. E ninguém pode escrever um texto cujo tempo ainda não chegou. Mas nunca se sabe quando esse tempo chega. Escreve-se na ignorância, na escuridão.
Esse texto que se deseja, essa pura paixão não se pode escrever. Espreitar pelas portas pode-se, é fascinante; imitar um cânone, uma fuga, na estrutura de um texto, pode-se, é quase fetichista; tentar descrever paixões que a música provoca, seguindo tratados de Platão e Aristóteles, de Mattheson, Schubart e Wolff, é uma tarefa académica, interessante e arriscada, por vezes menos próxima da música do que da psicologia. Mas a música permanece inacessível, não posso dizê-la.
(...)"



Pedro Eiras
in Bach, Ed. Assírio & Alvim, Setembro 2014, pgs.31 e 32

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Eduardo Lourenço


 Do Colonialismo como Nosso Impensado


« (...)
E o regime de Salazar, em particular, "deu origem a uma das mais grotescas mitologias colonialistas de que há memória": a metrópole tinha colónias mas não as podia assumir enquanto tal e os " malabarismos luso-tropicalistas" de Freyre "forneciam a necessária caução científica a esta operação mágica".
   Depois, a falta de pensamento dos tempos coloniais ou imperiais foi herdada pelos tempos pós-coloniais, da descolonização: "Num caso e noutro: sem problemas. A não problematização da história portuguesa (com a excepção de Oliveira Martins) é uma das características capitais da consciência nacional, e essa ausência de olhar crítico sobre nós está relacionada justamente com o facto de sermos os prodigiosos autores de uma gesta de colonização que nunca nos pôs problemas. Quando os houve, e graves, foram os outros que no-los puseram." (...)»




DRC
in ípsilon , PÚBLICO, 26 de Setembro de 2014.