segunda-feira, 26 de maio de 2014
Carlos Drummond de Andrade
JOSÉ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Thomas Bernhard
(...)
Cada escola enquanto comunidade e enquanto sociedade, cada escola, portanto, tem as suas vítimas e no meu tempo as vítimas eram, no liceu que frequentei, esses dois, o aleijado do arquitecto e o professor de Geografia, toda a baixeza (da sociedade) e toda a crueldade e terribilidade naturais enquanto doença dessa comunidade eram todos os dias descarregadas sobre esses dois, eram sobre esses dois levadas a explodir. Os seus padecimentos devidos à fealdade ou à incapacidade física eram todos os dias ridicularizados pela sociedade enquanto comunidade, que não pode suportar tais padecimentos, e com essa ridicularização tornavam-se um motivo de escárnio com que todos, alunos e professores, se divertiam constantemente, sempre que para isso surgia oportunidade, e também aí, nesse liceu, como em toda a parte quando se reúnem pessoas e sobretudo quando estão juntas em massas tão horríveis como nas escolas, o padecimento de um só ou o padecimento de alguns, como o padecimento do aleijado do arquitecto ou o padecimento do professor de Geografia, tornam-se objecto do seu infame divertimento, que não é senão uma repugnante perversidade.
(...)
in AUTOBIOGRAFIA, Ed. Sistema Solar, Lisboa 2014, pág.115.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Vítor Nogueira
ANZOL
Ao fim da tarde, o cardume desagrega-se. Inteiro,
procuro reunir os meus pedaços. É a sensatez
de não abandonar o esconderijo, a prudência
com que a ave canora evita o pássaro-da-morte.
Porém, noites há que me rebentam nos ouvidos.
Todas as experiências, todos os bocados de papel.
Um anzol à minha espera, a cidade é paciente,
não perdoa. Tem a astúcia da ave de rapina.
Bem sei: na vida, o primeiro golpe de génio
acontece no momento em que avaliamos
as nossas limitações. Mas, por muito calculistas
que sejamos, podemos realmente conhecer-nos
quando o abrigo se torna insuportável.
in BAGAGEM DE MÃO, Ed. & etc , Julho 2007, pág. 46.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
A Língua Portuguesa
"A língua portuguesa, para aqueles que a amam e nela vivem e se exprimem, tem um imenso património acumulado em séculos de literatura, tem uma gramática que hoje em dia é cada vez mais descurada, transporta uma visão do mundo que nos identifica e em que nos reconhecemos, tem valores próprios e possibilidades expressivas extraordinárias
O meu objectivo naquilo que escrevo, objectivo sempre frustrado mas sempre reiterado, como o esforço de Sísifo, é o de que cada texto seja uma plena declaração de amor à minha língua. Amor intelectual, amor sensual e também amor profundamente oficinal, na luta pela expressão em que sinto necessidade de me realizar como utente qualificado dela. Amar, defender e valorizar a língua portuguesa deve ter para nós uma dimensão ética, uma dimensão estética, uma dimensão cívica e uma dimensão prática. Sem esse amor, visceralmente radicado em nós e inextrincavelmente entrosado nestas quatro perspectivas, não se nos torna possível o conhecimento do mundo"
Vasco Graça Moura in JL 910, de Agosto de 2005
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Dia Mundial do Livro
Livros usados
Tudo que se disse depois e
ainda se diz, pode estar num usado
exemplar de Crime e Castigo ou da Utopia.
Os livros usados – mesmo
que se chamem Utopia –
têm aquela terna docilidade
das páginas em que outras
mãos passaram, ao contrário
dos novos, que em rígidas e
intactas páginas são só apenas
papel impresso.
E para escassos amigos, quando
se fugiu duma livraria de
consumíveis tops,
talvez seja essa
a melhor oferta.
I.L. 2007
Etiquetas:
Dia Mundial do Livro
terça-feira, 15 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Ao desafio
http://www.correiodoporto.pt/cultura/ao-desafio-com-ines-lourenco
DESAFIO COM INÊS LOURENÇO
Se algum dia pudesse disfarçar-se de relâmpago, onde e quando gostaria de fazer faísca?
Esse "fazer faísca" a que se refere o poema COISAS QUE NUNCA, publicado no livro do mesmo nome, em 2010, na & etc, reporta-se a um tempo da infância, onde "Há coisas que nunca/tivemos em criança e perdem/o valor para sempre". Logo esse faiscante relampejar tem apenas um valor textual, que cada leitor adoptará segundo a sua própria sensibilidade.
Quem é que gostaria de morder com justa causa?
Creio que algumas vítimas das possíveis mordeduras, símbolos das repressões infantis, já nem fazem parte do número dos vivos. No entanto, creio, que se voltasse a esses tempos ou mesmo sendo criança na actualidade, não falta gente para morder com justa causa.
Acha bonito escrever e/ou dizer palavras feias?
Não sei o que são "palavras feias". Se a pergunta se refere a algum vernáculo, que esporadicamente utilizo na escrita, este faz parte do léxico da Língua Portuguesa e é, como se sabe muito usado oralmente. Mas não sou apologista do uso gratuito desses vocábulos, mas apenas se o sentido do texto os chama.
Não se considera uma pessoa mal educada quando à hora marcada não aparece e ainda por cima dá uma qualquer desculpa?
Os poetas são, regra geral, mal educados, pois, se o são realmente (poetas) têm de rejeitar muito do senso comum e do politicamente correcto que lhes é legado e impingido pelo mainstream, em favor de mundividências outras.
O apelido da Maria Tobias era, por acaso, a Malhada ou a Zebra?
Pois a Maria Tobias existiu, realmente, com esse nome. Era uma sem-abrigo preta e branca, a que os vizinhos chamavam "o gato". Adoptámos o animal convencidos de que era macho castrado, e como nada sabíamos da sua biografia começou-se a chamar-lhe "Tobias", por ser um nome curto e fonicamente agudo, o que torna mais fácil e eficaz o chamamento. Só passados uns dias é que se verificou o engano; e como ela já dava pelo nome, assim ficou, embora tivéssemos concordado que o nome "oficial" passaria a ser Maria Tobias.
Será uma contradição ou talvez não, sendo poetisa, dizer que não confia no poder dos versos?
A Poesia é desde tempos longínquos aquela expressão literária que mais questiona os diversos poderes. Já Platão em A República sentenciava que os poetas deviam ser expulsos, pois que eles não procuravam a Verdade. E a grandeza da Poesia será, talvez, o facto de ser a única "liberdade livre", segundo a feliz alusão de Rimbaud que não é subserviente a nenhum poder: político, religioso, moral, inclusivé ao poder gramatical ou do sistema língua, na acepção saussureana, pois a poesia permite-se desfazer a sintaxe, a pontuação, utilizar a fonética e a semântica, segundo a "arte poética" de cada autor. Por isso muitos poetas escrevem contra os regimes despóticos que cerceam a liberdade de expressão.
Como consegue acender a luz em casa se apagou à mão os interruptores?
Suponho que agora há umas coisas chamadas censores, que nos poupam o esforço...
Penteia os poemas com madeixas claras para serem parecidos consigo?
Esse poema é uma evocação de uma autora, por cujos textos não tenho nenhum apreço.
Quando a mãe lhe dizia para não olhar para os rapazes era porque naquela altura eles eram feios?
Claro que não, aliás nessa época costumava dizer-se que os homens não se queriam bonitos...Mas é óbvio que uma menina dessa década devia ser comedida e reservada nos olhares.
Recebe com frequência cartas com folhas em branco?
Como toda a gente é raro receber cartas manuscritas, mas sim mails e sms.
Ainda desconfia dos poetas (e poetisas, certamente), que falam muito de luz, das manhãs e das árvores?
Prefiro, sem dúvida uma poesia que perfilhe o desencanto, as grandes perguntas acerca da vida e da morte, mesmo com palavras quotidianas, do que uma poesia levezinha, do contentamento e de um panteísmo fácil, com palavras ditas "bonitas". Neste desafecto também incluo um certo erotismo de pacotilha, que pretende ser muito libertador, mas que bate sempre na mesma tecla, com mais ou menos zonas erógenas ou objectos de desejo, mas que se transforma numa repititiva chatice.
Ao dizer que só nós nos lemos uns aos outros também se está a referir a mim?
Certamente, se tiver livros publicados ou a publicar.
É habitual ter pruridos nas costas, irritantes e passageiros que logo se esquecem?
Remeto para o poema "Passageira", na pág. 10 em A Disfunção Lírica.
Já alguma vez falou ou escreveu sobre batatas novas, que costumam aparecer antes da Páscoa?
Remeto para o poema "Sessão Literária", na pág. 13, do mesmo livro.
Sofre ou já sofreu de disfunção lírica? Em caso afirmativo, qual a receita para a ultrapassar? Será que vem n’A BULA?
Essa disfunção tem a ver, precisamente, com a modificação de um certo conceito de lirismo, que ainda confunde biografia com sujeito lírico e ainda não percebeu que os bons poetas têm uma outra linguagem e um outro olhar que não o do senso comum. Não conheço receituário para nada que diga respeito à Arte, pois ela está sempre por fazer.
Por que está tão convicta que os seus poemas não farão parte de um livro adoptado nas escolas?
Porque nas escolas se apresentam textos para a função lírica e não para a disfunção...Ressalvo, é claro, os nossos grandes poetas, desde quinhentos, que infelizmente, cada vez se estudam menos.
Têm sido úteis as últimas transfusões?
Sim. A última grande transfusão foi o magnífico livro de Herberto Helder, Servidões. Agora ando a ler um volume de prosa de um autor que muito prezo: Autobiografia de Thomas Bernhard.
As palavras que habitam ao relento não são suas, de quem serão?
Se habitam ao relento não têm morada certa...
Continua a ser bom ter poucos amigos poetas?
Depende das alturas da vida. Mas o meu conceito de poeta tem a ver mais com o paradigma do escriba arredio, que se isola e não com o conceito de grupo jantante ou de tertúlia em que se pratica a "negociatazita", do tu fazes uma crítica em tal pasquim e eu incluo-te na próxima antologia de poesia que organizar ou então no evento tal ou tal...
Considera-se uma mulher adiantada em relação às mulheres da sua geração?
O que fazemos, realizámos ou pensamos depende muito de factores biográficos, incluindo a época em que nos coube viver. Mas, certamente, estive sempre confrontada com uma certa censação de estar fora de contexto...Até porque não temos de aceitar, servilmente, os modelos herdados, mas sim estar sempre disponíveis para as perguntas que não têm resposta.
Por gostar de roupa no corpo significa que é anti naturismo?
Confesso que acho incómodo estar na areia duma praia ou noutro sítio qualquer ao ar livre sem uma protecção têxtil. Além de poder ser até perigoso e anti-higiénico. Os animais têm a sua pelagem, que corresponde à nossa roupa. Creio que em alturas pré-históricas, os nossos antepassados cavernícolas eram providos de densa pilosidade que os protegia de agressões várias. Mas a milenar evolução trouxe-nos até a esta epiderme sem cobertura...
Um dia disse que era filha de mãe incógnita (não sabia quem era a mãe), o que é contrariado com as lembranças da sua infância. É ou não filha de mãe incógnita?
Mais uma vez remeto para o poema CÂMARA ESCURA (2), na pág. 22 do livro Logros Consentidos, 2005, & etc, que mais uma vez joga com os modelos do feminino mais dramáticos e provocadores de alguns mitos, elegendo-os para origem matricial, pois repito a ideia de que muitas vezes, se não a maior parte das vezes, temos que eleger os nossos pais, na História da Cultura e do Pensamento, que pouco terão a ver com os nossos pais biológicos.
Já encontrou nos olhos do seu gato, os dias maiores de Abril?
Não tenho gato, ao presente, embora tenha saudades dos que se foram e nos olhos dos quais encontrei frequentemente a fagueira alegria de estar vivo.
Se nenhuma janela resiste, com tiras de papel impresso, que faz um poeta entre destroços?
Pouco. Relembro o poema do grande Paul Célan, escrito num campo de concentração nazi e que se intitula "Fuga da Morte", em tradução do nosso grande germanista João Barrento.
É assim tão ingénua para consentir nos logros?
Logro ou lograr ou logradouro também pode ter uma conotação positiva. Deixo ao leitor a escolha desse percurso semântico.
A que sabe a música passada por ovo e pão ralado?
Já não se suporta e dá más digestões...
Quem disse que a solidão é um ser de Inverno?
Tanta gente!...
Sempre é verdade que a poesia portuguesa sofre de maldicções?
Isso, cada leitor de poesia é que sabe.
Tem orgulho em ser do norte e, por isso, não ser casta nem cauta na linguagem?
Não sei se tenho orgulho, não tive qualquer interferência nisso, como todos nós. Mas sim, gosto do Norte e sinto que aqui é a minha Terra.
Antes de apagar os interruptores com a mão escolhia com frequência lâmpadas de quinze velas? Em caso afirmativo, não ficava intoxicada com o monóxido de carbono?
Mas essas lâmpadas eram inofensivas, devido à sua pequena voltagem, se bem me lembro do texto.
Seria um anjo a criança que naquela tarde de névoa, quando foi ao quiosque comprar um jornal qualquer, lhe pediu algo que não entendeu?
Não faço ideia. Acho que todos os seres têm a sua parte angélica e a sua parte malsã. E depois há as inúmeras combinatórias: mais percentagem de anjo ou mais percentagem demoníaca...
DESAFIO COM INÊS LOURENÇO
Se algum dia pudesse disfarçar-se de relâmpago, onde e quando gostaria de fazer faísca?
Esse "fazer faísca" a que se refere o poema COISAS QUE NUNCA, publicado no livro do mesmo nome, em 2010, na & etc, reporta-se a um tempo da infância, onde "Há coisas que nunca/tivemos em criança e perdem/o valor para sempre". Logo esse faiscante relampejar tem apenas um valor textual, que cada leitor adoptará segundo a sua própria sensibilidade.
Quem é que gostaria de morder com justa causa?
Creio que algumas vítimas das possíveis mordeduras, símbolos das repressões infantis, já nem fazem parte do número dos vivos. No entanto, creio, que se voltasse a esses tempos ou mesmo sendo criança na actualidade, não falta gente para morder com justa causa.
Acha bonito escrever e/ou dizer palavras feias?
Não sei o que são "palavras feias". Se a pergunta se refere a algum vernáculo, que esporadicamente utilizo na escrita, este faz parte do léxico da Língua Portuguesa e é, como se sabe muito usado oralmente. Mas não sou apologista do uso gratuito desses vocábulos, mas apenas se o sentido do texto os chama.
Não se considera uma pessoa mal educada quando à hora marcada não aparece e ainda por cima dá uma qualquer desculpa?
Os poetas são, regra geral, mal educados, pois, se o são realmente (poetas) têm de rejeitar muito do senso comum e do politicamente correcto que lhes é legado e impingido pelo mainstream, em favor de mundividências outras.
O apelido da Maria Tobias era, por acaso, a Malhada ou a Zebra?
Pois a Maria Tobias existiu, realmente, com esse nome. Era uma sem-abrigo preta e branca, a que os vizinhos chamavam "o gato". Adoptámos o animal convencidos de que era macho castrado, e como nada sabíamos da sua biografia começou-se a chamar-lhe "Tobias", por ser um nome curto e fonicamente agudo, o que torna mais fácil e eficaz o chamamento. Só passados uns dias é que se verificou o engano; e como ela já dava pelo nome, assim ficou, embora tivéssemos concordado que o nome "oficial" passaria a ser Maria Tobias.
Será uma contradição ou talvez não, sendo poetisa, dizer que não confia no poder dos versos?
A Poesia é desde tempos longínquos aquela expressão literária que mais questiona os diversos poderes. Já Platão em A República sentenciava que os poetas deviam ser expulsos, pois que eles não procuravam a Verdade. E a grandeza da Poesia será, talvez, o facto de ser a única "liberdade livre", segundo a feliz alusão de Rimbaud que não é subserviente a nenhum poder: político, religioso, moral, inclusivé ao poder gramatical ou do sistema língua, na acepção saussureana, pois a poesia permite-se desfazer a sintaxe, a pontuação, utilizar a fonética e a semântica, segundo a "arte poética" de cada autor. Por isso muitos poetas escrevem contra os regimes despóticos que cerceam a liberdade de expressão.
Como consegue acender a luz em casa se apagou à mão os interruptores?
Suponho que agora há umas coisas chamadas censores, que nos poupam o esforço...
Penteia os poemas com madeixas claras para serem parecidos consigo?
Esse poema é uma evocação de uma autora, por cujos textos não tenho nenhum apreço.
Quando a mãe lhe dizia para não olhar para os rapazes era porque naquela altura eles eram feios?
Claro que não, aliás nessa época costumava dizer-se que os homens não se queriam bonitos...Mas é óbvio que uma menina dessa década devia ser comedida e reservada nos olhares.
Recebe com frequência cartas com folhas em branco?
Como toda a gente é raro receber cartas manuscritas, mas sim mails e sms.
Ainda desconfia dos poetas (e poetisas, certamente), que falam muito de luz, das manhãs e das árvores?
Prefiro, sem dúvida uma poesia que perfilhe o desencanto, as grandes perguntas acerca da vida e da morte, mesmo com palavras quotidianas, do que uma poesia levezinha, do contentamento e de um panteísmo fácil, com palavras ditas "bonitas". Neste desafecto também incluo um certo erotismo de pacotilha, que pretende ser muito libertador, mas que bate sempre na mesma tecla, com mais ou menos zonas erógenas ou objectos de desejo, mas que se transforma numa repititiva chatice.
Ao dizer que só nós nos lemos uns aos outros também se está a referir a mim?
Certamente, se tiver livros publicados ou a publicar.
É habitual ter pruridos nas costas, irritantes e passageiros que logo se esquecem?
Remeto para o poema "Passageira", na pág. 10 em A Disfunção Lírica.
Já alguma vez falou ou escreveu sobre batatas novas, que costumam aparecer antes da Páscoa?
Remeto para o poema "Sessão Literária", na pág. 13, do mesmo livro.
Sofre ou já sofreu de disfunção lírica? Em caso afirmativo, qual a receita para a ultrapassar? Será que vem n’A BULA?
Essa disfunção tem a ver, precisamente, com a modificação de um certo conceito de lirismo, que ainda confunde biografia com sujeito lírico e ainda não percebeu que os bons poetas têm uma outra linguagem e um outro olhar que não o do senso comum. Não conheço receituário para nada que diga respeito à Arte, pois ela está sempre por fazer.
Por que está tão convicta que os seus poemas não farão parte de um livro adoptado nas escolas?
Porque nas escolas se apresentam textos para a função lírica e não para a disfunção...Ressalvo, é claro, os nossos grandes poetas, desde quinhentos, que infelizmente, cada vez se estudam menos.
Têm sido úteis as últimas transfusões?
Sim. A última grande transfusão foi o magnífico livro de Herberto Helder, Servidões. Agora ando a ler um volume de prosa de um autor que muito prezo: Autobiografia de Thomas Bernhard.
As palavras que habitam ao relento não são suas, de quem serão?
Se habitam ao relento não têm morada certa...
Continua a ser bom ter poucos amigos poetas?
Depende das alturas da vida. Mas o meu conceito de poeta tem a ver mais com o paradigma do escriba arredio, que se isola e não com o conceito de grupo jantante ou de tertúlia em que se pratica a "negociatazita", do tu fazes uma crítica em tal pasquim e eu incluo-te na próxima antologia de poesia que organizar ou então no evento tal ou tal...
Considera-se uma mulher adiantada em relação às mulheres da sua geração?
O que fazemos, realizámos ou pensamos depende muito de factores biográficos, incluindo a época em que nos coube viver. Mas, certamente, estive sempre confrontada com uma certa censação de estar fora de contexto...Até porque não temos de aceitar, servilmente, os modelos herdados, mas sim estar sempre disponíveis para as perguntas que não têm resposta.
Por gostar de roupa no corpo significa que é anti naturismo?
Confesso que acho incómodo estar na areia duma praia ou noutro sítio qualquer ao ar livre sem uma protecção têxtil. Além de poder ser até perigoso e anti-higiénico. Os animais têm a sua pelagem, que corresponde à nossa roupa. Creio que em alturas pré-históricas, os nossos antepassados cavernícolas eram providos de densa pilosidade que os protegia de agressões várias. Mas a milenar evolução trouxe-nos até a esta epiderme sem cobertura...
Um dia disse que era filha de mãe incógnita (não sabia quem era a mãe), o que é contrariado com as lembranças da sua infância. É ou não filha de mãe incógnita?
Mais uma vez remeto para o poema CÂMARA ESCURA (2), na pág. 22 do livro Logros Consentidos, 2005, & etc, que mais uma vez joga com os modelos do feminino mais dramáticos e provocadores de alguns mitos, elegendo-os para origem matricial, pois repito a ideia de que muitas vezes, se não a maior parte das vezes, temos que eleger os nossos pais, na História da Cultura e do Pensamento, que pouco terão a ver com os nossos pais biológicos.
Já encontrou nos olhos do seu gato, os dias maiores de Abril?
Não tenho gato, ao presente, embora tenha saudades dos que se foram e nos olhos dos quais encontrei frequentemente a fagueira alegria de estar vivo.
Se nenhuma janela resiste, com tiras de papel impresso, que faz um poeta entre destroços?
Pouco. Relembro o poema do grande Paul Célan, escrito num campo de concentração nazi e que se intitula "Fuga da Morte", em tradução do nosso grande germanista João Barrento.
É assim tão ingénua para consentir nos logros?
Logro ou lograr ou logradouro também pode ter uma conotação positiva. Deixo ao leitor a escolha desse percurso semântico.
A que sabe a música passada por ovo e pão ralado?
Já não se suporta e dá más digestões...
Quem disse que a solidão é um ser de Inverno?
Tanta gente!...
Sempre é verdade que a poesia portuguesa sofre de maldicções?
Isso, cada leitor de poesia é que sabe.
Tem orgulho em ser do norte e, por isso, não ser casta nem cauta na linguagem?
Não sei se tenho orgulho, não tive qualquer interferência nisso, como todos nós. Mas sim, gosto do Norte e sinto que aqui é a minha Terra.
Antes de apagar os interruptores com a mão escolhia com frequência lâmpadas de quinze velas? Em caso afirmativo, não ficava intoxicada com o monóxido de carbono?
Mas essas lâmpadas eram inofensivas, devido à sua pequena voltagem, se bem me lembro do texto.
Seria um anjo a criança que naquela tarde de névoa, quando foi ao quiosque comprar um jornal qualquer, lhe pediu algo que não entendeu?
Não faço ideia. Acho que todos os seres têm a sua parte angélica e a sua parte malsã. E depois há as inúmeras combinatórias: mais percentagem de anjo ou mais percentagem demoníaca...
segunda-feira, 31 de março de 2014
Cintilações da Sombra 2
antologia poética - Coordenação: Victor Oliveira Mateus
O poema abaixo integrou esta antologia:
ANTES
No
princípio não era o verbo
mas o antes. Não-lugar ondenenhum mantimento
era necessário. Mesmo isso
a que chamam palavras, cadeias
servis de contágio e contagem,
não tinha qualquer serventia.
Era
muito antes da cisão
da luz e da treva eda fábula fatal de qualquer
existência. Muito antes da
invenção maligna de Cronos e
de outros princípios divinos. Muito
antes do negro e do branco,
do bem e do mal, do macho
e da fêmea.
Desnecessários eram,
por inúteis: searas e
ceifeiros,rebanhos e pastores, senhores e servos,
possuidores e coisas possuídas. Antes,
muito antes
do amor, do sangue e da sede, antes
da viagem, antes da subida, antes
do declive. Desde sempre
muito antes da morte.
In A Disfunção Líríca, & etc, 2007, Lisboa
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novas edições (poemas)
terça-feira, 25 de março de 2014
O Sonho de Wadjda
(...)
"Conheci Wadjda, uma rapariguinha de 10 anos que não se conforma a ser diferente. Ela tem um amigo da mesma criação, naquela idade em que rapazes e raparigas ainda podem ter algum convívio. E estão sempre a competir. Ele tem uma bicicleta e ela aposta que seria capaz de andar mais depressa do que ele se tivesse uma também. Mas uma bicicleta não é coisa para meninas, sobretudo das bem-comportadas, socialmente aceites. A ambição dela é, assim, coisa pouca - uma bicicleta -, mas vai desunhar-se para conseguir uma. É claro que o que ela quer mesmo é coisa muito maior: ser igual a ele.
"O Sonho de Wadjda" é um filme de uma espantosa acuidade no desenho da situação feminina na Arábia Saudita, onde uma mulher não pode conduzir um automóvel, fora de casa deve vestir uma burka negra até aos pés, é normal estar casada aos 15 anos com um marido arranjado pela família, a quem deve obediência. Ele, todavia, pode ter mais do que uma mulher, pois a letra do Corão permite a poligamia. Extraordinário é que as autoridades tenham permitido a uma mulher, Haifaa Al-Mansour, realizar um filme num país onde as salas de cinema são proibidas e onde não há nenhuma tradição de produção (bem diferente do que se passa no Egipto, mesmo ali ao lado). "O Sonho de Wadjda" é, por isso, muito mais do que um filme. É um gesto - e que ninguém se engane com o seu ar afável e cálido. É de combate e de duro combate que se trata. Como em "Esposas e Concubinas" de Yimou, em "Offside - Fora-de-Jogo" de Panahi, em "O Destino", de Chahine, o cinema leva-nos lá longe para nos mostrar gente que sentimos aqui perto, combate também nosso."
Jorge Leitão Ramos, in ATUAL 22 de Março 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
Dia Mundial da Poesia
Passageira
O poema que não
surpreende nem afirmaa inutilidade de si, nem ensina
a olhar a certa dissolução
das coisas, nem interroga
o desencanto
É uma espécie de prurido
nas nossas costas, coisairritante e passageira
que logo se esquece.
I.L.
in A Disfunção Lírica (2007)
REESCRITA
Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema
cravar
o sabre rente às vísceras dos
verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue.
Romper
a velha epiderme.
I.L.
in Coisas que Nunca (2010)
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