terça-feira, 15 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Ao desafio
http://www.correiodoporto.pt/cultura/ao-desafio-com-ines-lourenco
DESAFIO COM INÊS LOURENÇO
Se algum dia pudesse disfarçar-se de relâmpago, onde e quando gostaria de fazer faísca?
Esse "fazer faísca" a que se refere o poema COISAS QUE NUNCA, publicado no livro do mesmo nome, em 2010, na & etc, reporta-se a um tempo da infância, onde "Há coisas que nunca/tivemos em criança e perdem/o valor para sempre". Logo esse faiscante relampejar tem apenas um valor textual, que cada leitor adoptará segundo a sua própria sensibilidade.
Quem é que gostaria de morder com justa causa?
Creio que algumas vítimas das possíveis mordeduras, símbolos das repressões infantis, já nem fazem parte do número dos vivos. No entanto, creio, que se voltasse a esses tempos ou mesmo sendo criança na actualidade, não falta gente para morder com justa causa.
Acha bonito escrever e/ou dizer palavras feias?
Não sei o que são "palavras feias". Se a pergunta se refere a algum vernáculo, que esporadicamente utilizo na escrita, este faz parte do léxico da Língua Portuguesa e é, como se sabe muito usado oralmente. Mas não sou apologista do uso gratuito desses vocábulos, mas apenas se o sentido do texto os chama.
Não se considera uma pessoa mal educada quando à hora marcada não aparece e ainda por cima dá uma qualquer desculpa?
Os poetas são, regra geral, mal educados, pois, se o são realmente (poetas) têm de rejeitar muito do senso comum e do politicamente correcto que lhes é legado e impingido pelo mainstream, em favor de mundividências outras.
O apelido da Maria Tobias era, por acaso, a Malhada ou a Zebra?
Pois a Maria Tobias existiu, realmente, com esse nome. Era uma sem-abrigo preta e branca, a que os vizinhos chamavam "o gato". Adoptámos o animal convencidos de que era macho castrado, e como nada sabíamos da sua biografia começou-se a chamar-lhe "Tobias", por ser um nome curto e fonicamente agudo, o que torna mais fácil e eficaz o chamamento. Só passados uns dias é que se verificou o engano; e como ela já dava pelo nome, assim ficou, embora tivéssemos concordado que o nome "oficial" passaria a ser Maria Tobias.
Será uma contradição ou talvez não, sendo poetisa, dizer que não confia no poder dos versos?
A Poesia é desde tempos longínquos aquela expressão literária que mais questiona os diversos poderes. Já Platão em A República sentenciava que os poetas deviam ser expulsos, pois que eles não procuravam a Verdade. E a grandeza da Poesia será, talvez, o facto de ser a única "liberdade livre", segundo a feliz alusão de Rimbaud que não é subserviente a nenhum poder: político, religioso, moral, inclusivé ao poder gramatical ou do sistema língua, na acepção saussureana, pois a poesia permite-se desfazer a sintaxe, a pontuação, utilizar a fonética e a semântica, segundo a "arte poética" de cada autor. Por isso muitos poetas escrevem contra os regimes despóticos que cerceam a liberdade de expressão.
Como consegue acender a luz em casa se apagou à mão os interruptores?
Suponho que agora há umas coisas chamadas censores, que nos poupam o esforço...
Penteia os poemas com madeixas claras para serem parecidos consigo?
Esse poema é uma evocação de uma autora, por cujos textos não tenho nenhum apreço.
Quando a mãe lhe dizia para não olhar para os rapazes era porque naquela altura eles eram feios?
Claro que não, aliás nessa época costumava dizer-se que os homens não se queriam bonitos...Mas é óbvio que uma menina dessa década devia ser comedida e reservada nos olhares.
Recebe com frequência cartas com folhas em branco?
Como toda a gente é raro receber cartas manuscritas, mas sim mails e sms.
Ainda desconfia dos poetas (e poetisas, certamente), que falam muito de luz, das manhãs e das árvores?
Prefiro, sem dúvida uma poesia que perfilhe o desencanto, as grandes perguntas acerca da vida e da morte, mesmo com palavras quotidianas, do que uma poesia levezinha, do contentamento e de um panteísmo fácil, com palavras ditas "bonitas". Neste desafecto também incluo um certo erotismo de pacotilha, que pretende ser muito libertador, mas que bate sempre na mesma tecla, com mais ou menos zonas erógenas ou objectos de desejo, mas que se transforma numa repititiva chatice.
Ao dizer que só nós nos lemos uns aos outros também se está a referir a mim?
Certamente, se tiver livros publicados ou a publicar.
É habitual ter pruridos nas costas, irritantes e passageiros que logo se esquecem?
Remeto para o poema "Passageira", na pág. 10 em A Disfunção Lírica.
Já alguma vez falou ou escreveu sobre batatas novas, que costumam aparecer antes da Páscoa?
Remeto para o poema "Sessão Literária", na pág. 13, do mesmo livro.
Sofre ou já sofreu de disfunção lírica? Em caso afirmativo, qual a receita para a ultrapassar? Será que vem n’A BULA?
Essa disfunção tem a ver, precisamente, com a modificação de um certo conceito de lirismo, que ainda confunde biografia com sujeito lírico e ainda não percebeu que os bons poetas têm uma outra linguagem e um outro olhar que não o do senso comum. Não conheço receituário para nada que diga respeito à Arte, pois ela está sempre por fazer.
Por que está tão convicta que os seus poemas não farão parte de um livro adoptado nas escolas?
Porque nas escolas se apresentam textos para a função lírica e não para a disfunção...Ressalvo, é claro, os nossos grandes poetas, desde quinhentos, que infelizmente, cada vez se estudam menos.
Têm sido úteis as últimas transfusões?
Sim. A última grande transfusão foi o magnífico livro de Herberto Helder, Servidões. Agora ando a ler um volume de prosa de um autor que muito prezo: Autobiografia de Thomas Bernhard.
As palavras que habitam ao relento não são suas, de quem serão?
Se habitam ao relento não têm morada certa...
Continua a ser bom ter poucos amigos poetas?
Depende das alturas da vida. Mas o meu conceito de poeta tem a ver mais com o paradigma do escriba arredio, que se isola e não com o conceito de grupo jantante ou de tertúlia em que se pratica a "negociatazita", do tu fazes uma crítica em tal pasquim e eu incluo-te na próxima antologia de poesia que organizar ou então no evento tal ou tal...
Considera-se uma mulher adiantada em relação às mulheres da sua geração?
O que fazemos, realizámos ou pensamos depende muito de factores biográficos, incluindo a época em que nos coube viver. Mas, certamente, estive sempre confrontada com uma certa censação de estar fora de contexto...Até porque não temos de aceitar, servilmente, os modelos herdados, mas sim estar sempre disponíveis para as perguntas que não têm resposta.
Por gostar de roupa no corpo significa que é anti naturismo?
Confesso que acho incómodo estar na areia duma praia ou noutro sítio qualquer ao ar livre sem uma protecção têxtil. Além de poder ser até perigoso e anti-higiénico. Os animais têm a sua pelagem, que corresponde à nossa roupa. Creio que em alturas pré-históricas, os nossos antepassados cavernícolas eram providos de densa pilosidade que os protegia de agressões várias. Mas a milenar evolução trouxe-nos até a esta epiderme sem cobertura...
Um dia disse que era filha de mãe incógnita (não sabia quem era a mãe), o que é contrariado com as lembranças da sua infância. É ou não filha de mãe incógnita?
Mais uma vez remeto para o poema CÂMARA ESCURA (2), na pág. 22 do livro Logros Consentidos, 2005, & etc, que mais uma vez joga com os modelos do feminino mais dramáticos e provocadores de alguns mitos, elegendo-os para origem matricial, pois repito a ideia de que muitas vezes, se não a maior parte das vezes, temos que eleger os nossos pais, na História da Cultura e do Pensamento, que pouco terão a ver com os nossos pais biológicos.
Já encontrou nos olhos do seu gato, os dias maiores de Abril?
Não tenho gato, ao presente, embora tenha saudades dos que se foram e nos olhos dos quais encontrei frequentemente a fagueira alegria de estar vivo.
Se nenhuma janela resiste, com tiras de papel impresso, que faz um poeta entre destroços?
Pouco. Relembro o poema do grande Paul Célan, escrito num campo de concentração nazi e que se intitula "Fuga da Morte", em tradução do nosso grande germanista João Barrento.
É assim tão ingénua para consentir nos logros?
Logro ou lograr ou logradouro também pode ter uma conotação positiva. Deixo ao leitor a escolha desse percurso semântico.
A que sabe a música passada por ovo e pão ralado?
Já não se suporta e dá más digestões...
Quem disse que a solidão é um ser de Inverno?
Tanta gente!...
Sempre é verdade que a poesia portuguesa sofre de maldicções?
Isso, cada leitor de poesia é que sabe.
Tem orgulho em ser do norte e, por isso, não ser casta nem cauta na linguagem?
Não sei se tenho orgulho, não tive qualquer interferência nisso, como todos nós. Mas sim, gosto do Norte e sinto que aqui é a minha Terra.
Antes de apagar os interruptores com a mão escolhia com frequência lâmpadas de quinze velas? Em caso afirmativo, não ficava intoxicada com o monóxido de carbono?
Mas essas lâmpadas eram inofensivas, devido à sua pequena voltagem, se bem me lembro do texto.
Seria um anjo a criança que naquela tarde de névoa, quando foi ao quiosque comprar um jornal qualquer, lhe pediu algo que não entendeu?
Não faço ideia. Acho que todos os seres têm a sua parte angélica e a sua parte malsã. E depois há as inúmeras combinatórias: mais percentagem de anjo ou mais percentagem demoníaca...
DESAFIO COM INÊS LOURENÇO
Se algum dia pudesse disfarçar-se de relâmpago, onde e quando gostaria de fazer faísca?
Esse "fazer faísca" a que se refere o poema COISAS QUE NUNCA, publicado no livro do mesmo nome, em 2010, na & etc, reporta-se a um tempo da infância, onde "Há coisas que nunca/tivemos em criança e perdem/o valor para sempre". Logo esse faiscante relampejar tem apenas um valor textual, que cada leitor adoptará segundo a sua própria sensibilidade.
Quem é que gostaria de morder com justa causa?
Creio que algumas vítimas das possíveis mordeduras, símbolos das repressões infantis, já nem fazem parte do número dos vivos. No entanto, creio, que se voltasse a esses tempos ou mesmo sendo criança na actualidade, não falta gente para morder com justa causa.
Acha bonito escrever e/ou dizer palavras feias?
Não sei o que são "palavras feias". Se a pergunta se refere a algum vernáculo, que esporadicamente utilizo na escrita, este faz parte do léxico da Língua Portuguesa e é, como se sabe muito usado oralmente. Mas não sou apologista do uso gratuito desses vocábulos, mas apenas se o sentido do texto os chama.
Não se considera uma pessoa mal educada quando à hora marcada não aparece e ainda por cima dá uma qualquer desculpa?
Os poetas são, regra geral, mal educados, pois, se o são realmente (poetas) têm de rejeitar muito do senso comum e do politicamente correcto que lhes é legado e impingido pelo mainstream, em favor de mundividências outras.
O apelido da Maria Tobias era, por acaso, a Malhada ou a Zebra?
Pois a Maria Tobias existiu, realmente, com esse nome. Era uma sem-abrigo preta e branca, a que os vizinhos chamavam "o gato". Adoptámos o animal convencidos de que era macho castrado, e como nada sabíamos da sua biografia começou-se a chamar-lhe "Tobias", por ser um nome curto e fonicamente agudo, o que torna mais fácil e eficaz o chamamento. Só passados uns dias é que se verificou o engano; e como ela já dava pelo nome, assim ficou, embora tivéssemos concordado que o nome "oficial" passaria a ser Maria Tobias.
Será uma contradição ou talvez não, sendo poetisa, dizer que não confia no poder dos versos?
A Poesia é desde tempos longínquos aquela expressão literária que mais questiona os diversos poderes. Já Platão em A República sentenciava que os poetas deviam ser expulsos, pois que eles não procuravam a Verdade. E a grandeza da Poesia será, talvez, o facto de ser a única "liberdade livre", segundo a feliz alusão de Rimbaud que não é subserviente a nenhum poder: político, religioso, moral, inclusivé ao poder gramatical ou do sistema língua, na acepção saussureana, pois a poesia permite-se desfazer a sintaxe, a pontuação, utilizar a fonética e a semântica, segundo a "arte poética" de cada autor. Por isso muitos poetas escrevem contra os regimes despóticos que cerceam a liberdade de expressão.
Como consegue acender a luz em casa se apagou à mão os interruptores?
Suponho que agora há umas coisas chamadas censores, que nos poupam o esforço...
Penteia os poemas com madeixas claras para serem parecidos consigo?
Esse poema é uma evocação de uma autora, por cujos textos não tenho nenhum apreço.
Quando a mãe lhe dizia para não olhar para os rapazes era porque naquela altura eles eram feios?
Claro que não, aliás nessa época costumava dizer-se que os homens não se queriam bonitos...Mas é óbvio que uma menina dessa década devia ser comedida e reservada nos olhares.
Recebe com frequência cartas com folhas em branco?
Como toda a gente é raro receber cartas manuscritas, mas sim mails e sms.
Ainda desconfia dos poetas (e poetisas, certamente), que falam muito de luz, das manhãs e das árvores?
Prefiro, sem dúvida uma poesia que perfilhe o desencanto, as grandes perguntas acerca da vida e da morte, mesmo com palavras quotidianas, do que uma poesia levezinha, do contentamento e de um panteísmo fácil, com palavras ditas "bonitas". Neste desafecto também incluo um certo erotismo de pacotilha, que pretende ser muito libertador, mas que bate sempre na mesma tecla, com mais ou menos zonas erógenas ou objectos de desejo, mas que se transforma numa repititiva chatice.
Ao dizer que só nós nos lemos uns aos outros também se está a referir a mim?
Certamente, se tiver livros publicados ou a publicar.
É habitual ter pruridos nas costas, irritantes e passageiros que logo se esquecem?
Remeto para o poema "Passageira", na pág. 10 em A Disfunção Lírica.
Já alguma vez falou ou escreveu sobre batatas novas, que costumam aparecer antes da Páscoa?
Remeto para o poema "Sessão Literária", na pág. 13, do mesmo livro.
Sofre ou já sofreu de disfunção lírica? Em caso afirmativo, qual a receita para a ultrapassar? Será que vem n’A BULA?
Essa disfunção tem a ver, precisamente, com a modificação de um certo conceito de lirismo, que ainda confunde biografia com sujeito lírico e ainda não percebeu que os bons poetas têm uma outra linguagem e um outro olhar que não o do senso comum. Não conheço receituário para nada que diga respeito à Arte, pois ela está sempre por fazer.
Por que está tão convicta que os seus poemas não farão parte de um livro adoptado nas escolas?
Porque nas escolas se apresentam textos para a função lírica e não para a disfunção...Ressalvo, é claro, os nossos grandes poetas, desde quinhentos, que infelizmente, cada vez se estudam menos.
Têm sido úteis as últimas transfusões?
Sim. A última grande transfusão foi o magnífico livro de Herberto Helder, Servidões. Agora ando a ler um volume de prosa de um autor que muito prezo: Autobiografia de Thomas Bernhard.
As palavras que habitam ao relento não são suas, de quem serão?
Se habitam ao relento não têm morada certa...
Continua a ser bom ter poucos amigos poetas?
Depende das alturas da vida. Mas o meu conceito de poeta tem a ver mais com o paradigma do escriba arredio, que se isola e não com o conceito de grupo jantante ou de tertúlia em que se pratica a "negociatazita", do tu fazes uma crítica em tal pasquim e eu incluo-te na próxima antologia de poesia que organizar ou então no evento tal ou tal...
Considera-se uma mulher adiantada em relação às mulheres da sua geração?
O que fazemos, realizámos ou pensamos depende muito de factores biográficos, incluindo a época em que nos coube viver. Mas, certamente, estive sempre confrontada com uma certa censação de estar fora de contexto...Até porque não temos de aceitar, servilmente, os modelos herdados, mas sim estar sempre disponíveis para as perguntas que não têm resposta.
Por gostar de roupa no corpo significa que é anti naturismo?
Confesso que acho incómodo estar na areia duma praia ou noutro sítio qualquer ao ar livre sem uma protecção têxtil. Além de poder ser até perigoso e anti-higiénico. Os animais têm a sua pelagem, que corresponde à nossa roupa. Creio que em alturas pré-históricas, os nossos antepassados cavernícolas eram providos de densa pilosidade que os protegia de agressões várias. Mas a milenar evolução trouxe-nos até a esta epiderme sem cobertura...
Um dia disse que era filha de mãe incógnita (não sabia quem era a mãe), o que é contrariado com as lembranças da sua infância. É ou não filha de mãe incógnita?
Mais uma vez remeto para o poema CÂMARA ESCURA (2), na pág. 22 do livro Logros Consentidos, 2005, & etc, que mais uma vez joga com os modelos do feminino mais dramáticos e provocadores de alguns mitos, elegendo-os para origem matricial, pois repito a ideia de que muitas vezes, se não a maior parte das vezes, temos que eleger os nossos pais, na História da Cultura e do Pensamento, que pouco terão a ver com os nossos pais biológicos.
Já encontrou nos olhos do seu gato, os dias maiores de Abril?
Não tenho gato, ao presente, embora tenha saudades dos que se foram e nos olhos dos quais encontrei frequentemente a fagueira alegria de estar vivo.
Se nenhuma janela resiste, com tiras de papel impresso, que faz um poeta entre destroços?
Pouco. Relembro o poema do grande Paul Célan, escrito num campo de concentração nazi e que se intitula "Fuga da Morte", em tradução do nosso grande germanista João Barrento.
É assim tão ingénua para consentir nos logros?
Logro ou lograr ou logradouro também pode ter uma conotação positiva. Deixo ao leitor a escolha desse percurso semântico.
A que sabe a música passada por ovo e pão ralado?
Já não se suporta e dá más digestões...
Quem disse que a solidão é um ser de Inverno?
Tanta gente!...
Sempre é verdade que a poesia portuguesa sofre de maldicções?
Isso, cada leitor de poesia é que sabe.
Tem orgulho em ser do norte e, por isso, não ser casta nem cauta na linguagem?
Não sei se tenho orgulho, não tive qualquer interferência nisso, como todos nós. Mas sim, gosto do Norte e sinto que aqui é a minha Terra.
Antes de apagar os interruptores com a mão escolhia com frequência lâmpadas de quinze velas? Em caso afirmativo, não ficava intoxicada com o monóxido de carbono?
Mas essas lâmpadas eram inofensivas, devido à sua pequena voltagem, se bem me lembro do texto.
Seria um anjo a criança que naquela tarde de névoa, quando foi ao quiosque comprar um jornal qualquer, lhe pediu algo que não entendeu?
Não faço ideia. Acho que todos os seres têm a sua parte angélica e a sua parte malsã. E depois há as inúmeras combinatórias: mais percentagem de anjo ou mais percentagem demoníaca...
segunda-feira, 31 de março de 2014
Cintilações da Sombra 2
antologia poética - Coordenação: Victor Oliveira Mateus
O poema abaixo integrou esta antologia:
ANTES
No
princípio não era o verbo
mas o antes. Não-lugar ondenenhum mantimento
era necessário. Mesmo isso
a que chamam palavras, cadeias
servis de contágio e contagem,
não tinha qualquer serventia.
Era
muito antes da cisão
da luz e da treva eda fábula fatal de qualquer
existência. Muito antes da
invenção maligna de Cronos e
de outros princípios divinos. Muito
antes do negro e do branco,
do bem e do mal, do macho
e da fêmea.
Desnecessários eram,
por inúteis: searas e
ceifeiros,rebanhos e pastores, senhores e servos,
possuidores e coisas possuídas. Antes,
muito antes
do amor, do sangue e da sede, antes
da viagem, antes da subida, antes
do declive. Desde sempre
muito antes da morte.
In A Disfunção Líríca, & etc, 2007, Lisboa
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terça-feira, 25 de março de 2014
O Sonho de Wadjda
(...)
"Conheci Wadjda, uma rapariguinha de 10 anos que não se conforma a ser diferente. Ela tem um amigo da mesma criação, naquela idade em que rapazes e raparigas ainda podem ter algum convívio. E estão sempre a competir. Ele tem uma bicicleta e ela aposta que seria capaz de andar mais depressa do que ele se tivesse uma também. Mas uma bicicleta não é coisa para meninas, sobretudo das bem-comportadas, socialmente aceites. A ambição dela é, assim, coisa pouca - uma bicicleta -, mas vai desunhar-se para conseguir uma. É claro que o que ela quer mesmo é coisa muito maior: ser igual a ele.
"O Sonho de Wadjda" é um filme de uma espantosa acuidade no desenho da situação feminina na Arábia Saudita, onde uma mulher não pode conduzir um automóvel, fora de casa deve vestir uma burka negra até aos pés, é normal estar casada aos 15 anos com um marido arranjado pela família, a quem deve obediência. Ele, todavia, pode ter mais do que uma mulher, pois a letra do Corão permite a poligamia. Extraordinário é que as autoridades tenham permitido a uma mulher, Haifaa Al-Mansour, realizar um filme num país onde as salas de cinema são proibidas e onde não há nenhuma tradição de produção (bem diferente do que se passa no Egipto, mesmo ali ao lado). "O Sonho de Wadjda" é, por isso, muito mais do que um filme. É um gesto - e que ninguém se engane com o seu ar afável e cálido. É de combate e de duro combate que se trata. Como em "Esposas e Concubinas" de Yimou, em "Offside - Fora-de-Jogo" de Panahi, em "O Destino", de Chahine, o cinema leva-nos lá longe para nos mostrar gente que sentimos aqui perto, combate também nosso."
Jorge Leitão Ramos, in ATUAL 22 de Março 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
Dia Mundial da Poesia
Passageira
O poema que não
surpreende nem afirmaa inutilidade de si, nem ensina
a olhar a certa dissolução
das coisas, nem interroga
o desencanto
É uma espécie de prurido
nas nossas costas, coisairritante e passageira
que logo se esquece.
I.L.
in A Disfunção Lírica (2007)
REESCRITA
Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema
cravar
o sabre rente às vísceras dos
verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue.
Romper
a velha epiderme.
I.L.
in Coisas que Nunca (2010)
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Dia Mundial da Poesia
segunda-feira, 17 de março de 2014
Luís Filipe Castro Mendes
É verdade, somos do Sul.
Teve razão em reparar em nós.
Somos aqueles que passámos
de pedreiros e mulheres-a-dias,
que cumpriam as suas tarefas
com modéstia e simplicidade,
a devedores alegres e inconscientes,
que vivem à custa dos sacrifícios
dos operários da Renânia-Palatinado.
Somos nós mesmos, gnaedige Frau.
Sim, eu li como viveram os seus pais
nesse ano em que perderam a guerra:
nas caves encharcadas
de prédios em ruínas,
com esmolas avulsas
dos soldados da Ocupação.
Mas reparou
como depois foram tratados
pelos vencedores?
Sim, você disse-me também
que desde a adolescência
não compreende
que tenha de pagar
pelas culpas dos seus pais
e dos criminosos
que governaram o seu povo,
antes mesmo de você ter nascido.
Mas se para a vossa língua
dívida e culpa
são a mesma palavra,
então seremos nós agora a pagar
até aos netos dos nossos netos,
já que as vossas dívidas estão saldadas?
É isso, gnaedige Frau?
'Conversa no Tiergarten' in "A misericórdia dos mercados", Assírio & Alvim 2014
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segunda-feira, 3 de março de 2014
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
António Guerreiro
" Um homem entrou num café onde se encontrava a sua ex-companheira e matou-a com um tiro: esta é a primeira parte de uma notícia que pudemos ler na semana passada em vários jornais e que, de tão repetida, já não tem o valor de uma notícia, mas de uma enumeração. A segunda parte também segue um modelo: o homem foi depois entregar-se à polícia. Os uxoricidas ou se entregam à polícia ou se suicidam. Aquilo de que não há notícia é que se tenham suicidado ou entregado à polícia preventivamente, para não cometerem o homicídio. Em comparação com a violência política, racial e entre povos e nações, a violência dos homens sobre as mulheres fornece matéria para o livro negro mais volumoso da história universal. A lógica social da "dominação masculina" (para utilizarmos o título de um livro de Bourdieu cuja tradução portuguesa foi publicada pela Relógio d'Água) deixou os seus traços - e de que maneira! - na linguagem: a ética da virilidade refere-se ao vir, ao virtus. O princípio da honra surge assim indissociável da virilidade física. A relação entre os géneros - que os gender studies analisam como social e culturalmente construída - surge assim marcada por este princípio de violência do homem sobre a mulher. (...) As estatísticas mostram que as mulheres entraram em força, no último século, nos lugares que antes eram dominados pelos homens; e que a divisão sexual do trabalho se alterou radicalmente. Mas o que as estatísticas não mostram é que a hierarquia se vai reconstruindo, como as relações de dominação se restabelecem, de outra maneira, no interior dos territórios que pareciam ter-se libertado delas. É o que acontece quase sempre nos meios exclusivos dos gays: reproduzem no seu território princípios de discriminação que têm como matriz a violência heterossexual. A misoginia e a violência física e psicológica dos homens sobre as mulheres encontraram ao longo da história cauções essencialistas e filosóficas como nenhum outro crime. Talvez apenas o anti-semitismo (mas só nalguns momentos) possa ser comparável. (...) Para Weininger, há uma equivalência entre a Mulher e o Judeu: ambos são privados de personalidade, privados de um Eu, falhos de grandeza e de valor próprio. Daí o axioma weinigeriano: "A mulher mais elevada está infinitamente abaixo do homem mais ínfimo". Mulheres e judeus são, do ponto de vista de Weininger, responsáveis pelo declínio do Ocidente. Weininger era judeu (convertido ao protestantismo) e homossexual."
in O continente negro são os homens, Estação Meteorológica, ÍPSILON - PÚBLICO Janeiro 2014
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Thomas Bernhard
Este é um dos meus autores favoritos, desde há muito.
A propósito da próxima edição, da editora Sistema Solar, de Autobiografia de Thomas Bernhard, relembro aqui um poema que publiquei em 2005.
Thomas Bernhard
Dediquei-lhe um poema, há mais
de dez anos, para o qual certamente
se estaria nas tintas, se o lesse. É
um dos raros escritores que conseguiu
a difícil lucidez de detestar a pátria, essa
obrigatória e durável fonte de equívocos
e mal-entendidos. Por isso
ele gostava de passar temporadas
em Portugal, não pelo mar, nem
pela comida, nem pelos modos
amigáveis para turistas, mas sim
porque podia escutar uma língua
sem ter de entendê-la.
in Logros Consentidos, Ed. & etc , Lisboa 2005, pág.42.
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