quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Thomas Bernhard
Este é um dos meus autores favoritos, desde há muito.
A propósito da próxima edição, da editora Sistema Solar, de Autobiografia de Thomas Bernhard, relembro aqui um poema que publiquei em 2005.
Thomas Bernhard
Dediquei-lhe um poema, há mais
de dez anos, para o qual certamente
se estaria nas tintas, se o lesse. É
um dos raros escritores que conseguiu
a difícil lucidez de detestar a pátria, essa
obrigatória e durável fonte de equívocos
e mal-entendidos. Por isso
ele gostava de passar temporadas
em Portugal, não pelo mar, nem
pela comida, nem pelos modos
amigáveis para turistas, mas sim
porque podia escutar uma língua
sem ter de entendê-la.
in Logros Consentidos, Ed. & etc , Lisboa 2005, pág.42.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Pisar o risco
Nunca pensei chegar a esta altura, após o restabelecimento em Portugal de uma democracia participativa, em que um governo dito legítimo, tome decisões políticas e administrativas, que mercê da sua inadequação à Constituição vigente e a outras leis do país, tenham de ser anuladas pelos tribunais. Aconteceu isso já, por diversas vezes, no caso de cortes em ordenados e subsídios. Agora foi a máxima humilhação, com os advogados da leiloeira Christie's a meterem o governo português na ordem e a mandá-lo ser mais escrupuloso e decente.
Como é que havemos de educar as crianças, ou recomendar modelos de actuação aos jovens, quando os poderes mais altos da nação vivem da trapaça, da negação do óbvio e de pisar o risco?
E depois ainda há quem se admire de que a juventude se desinteresse da política e se entretenha em grupelhos secretos e praxes baseadas na humilhação e no mais violento disparate. Como dizia o outro, isto anda tudo ligado.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Inês Dias
"Grief returns like the rain,
like the night."
Iris Murdoch
Assim que a estação morria,
o mar vinha buscá-la
entre salvas de limos
e restos de outros naufrágios.
Os banheiros desmontavam a praia,
arriando bandeiras friorentas
enquanto eu, rei sem reino
para trocar pelo meu cavalo,
regressava então ao exílio.
À espreita, rancorosos, os dias
úteis, caçadores com a alma
pela trela e o prazer
de atirar para ferir;
atrás de mim o verão,
como água salgada
a lamber uma ferida aberta.
A tua chuva, poeta,
já nada me consegue ensinar:
tornei-me um cego
a quem cortaram as mãos
para não ler mais
o mundo, invariavelmente,
repetidamente, ainda ali.
in TEMPOS VÁRIOS, paralelo w, Lisboa 2014
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novas edições (poemas)
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Correspondência
(...)
"Aquilo, meu filho, é um país de filhos da puta, que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas"
(...)
in Correspondência 1969-1978, Jorge de Sena e Carlo V. Cattaneo , trad. de Jorge Vaz de Carvalho, Ed. Guimarães, 2013.
"Aquilo, meu filho, é um país de filhos da puta, que sempre andaram pelo mundo a fazer filhos em putas"
(...)
in Correspondência 1969-1978, Jorge de Sena e Carlo V. Cattaneo , trad. de Jorge Vaz de Carvalho, Ed. Guimarães, 2013.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Alberto Pimenta
(...)
Sei é que eu, cavalheiro do século XX, não me pareço muito com este cabeludo que usava um
pithos não só para repousar e meditar, porque ele tinha as paredes e o fundo cobertos de uma
camada de esperma seco que dava para calafetar um navio. Isto é o que consta: Diógenes era um masturbador compulsivo; uma espécie de socialista radical, porque só na masturbação é que se reúnem na mesma mão capital e trabalho.
(...)
in Cão Celeste nº4, Diógenes, pág.88.
Sei é que eu, cavalheiro do século XX, não me pareço muito com este cabeludo que usava um
pithos não só para repousar e meditar, porque ele tinha as paredes e o fundo cobertos de uma
camada de esperma seco que dava para calafetar um navio. Isto é o que consta: Diógenes era um masturbador compulsivo; uma espécie de socialista radical, porque só na masturbação é que se reúnem na mesma mão capital e trabalho.
(...)
in Cão Celeste nº4, Diógenes, pág.88.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Rui Caeiro
(...)
A Rua das Flores é, pode dizer-se, uma continuação
da Travessa dos Remolares.
Pode, mas não deve, porque nada têm de facto a ver
uma com a outra.
A Rua das Flores é de graves inclinação e apresenta
pergaminhos burgueses, conotações literárias. Para
não falar do vizinho grupo escultórico, ao Largo do
Barão de Quintela, ou do fantasma do camiliano
Vieira de Castro a abafar o rosto da mulher com a
almofada, há a queiroziana Genoveva a atirar-se de
uma janela e a dar tragédia à rua.
A Travessa dos Remolares não tem direito a tragé-
dias. Só a quotidiano reles.
Quotidiano reles mas ainda assim parte integrante
de um mundo e sui generis. Aguardando o seu Ber-
nardo Soares como quem espera o D. Sebastião.
E para que o mito se cumpra - ou nem mito
haveria - ainda não foi ou será desta.
(...)
in TRAVESSA DOS REMOLARES, paralelo w, Lisboa 2013, p.7
A Rua das Flores é, pode dizer-se, uma continuação
da Travessa dos Remolares.
Pode, mas não deve, porque nada têm de facto a ver
uma com a outra.
A Rua das Flores é de graves inclinação e apresenta
pergaminhos burgueses, conotações literárias. Para
não falar do vizinho grupo escultórico, ao Largo do
Barão de Quintela, ou do fantasma do camiliano
Vieira de Castro a abafar o rosto da mulher com a
almofada, há a queiroziana Genoveva a atirar-se de
uma janela e a dar tragédia à rua.
A Travessa dos Remolares não tem direito a tragé-
dias. Só a quotidiano reles.
Quotidiano reles mas ainda assim parte integrante
de um mundo e sui generis. Aguardando o seu Ber-
nardo Soares como quem espera o D. Sebastião.
E para que o mito se cumpra - ou nem mito
haveria - ainda não foi ou será desta.
(...)
in TRAVESSA DOS REMOLARES, paralelo w, Lisboa 2013, p.7
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Maria Callas (Nova Iorque, 2 de dezembro de 1923 — Paris, 16 de setembro de 1977)
Maria Callas - La Traviata - Verdi (video) (Lisbonne 1958)
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