(...)
A Rua das Flores é, pode dizer-se, uma continuação
da Travessa dos Remolares.
Pode, mas não deve, porque nada têm de facto a ver
uma com a outra.
A Rua das Flores é de graves inclinação e apresenta
pergaminhos burgueses, conotações literárias. Para
não falar do vizinho grupo escultórico, ao Largo do
Barão de Quintela, ou do fantasma do camiliano
Vieira de Castro a abafar o rosto da mulher com a
almofada, há a queiroziana Genoveva a atirar-se de
uma janela e a dar tragédia à rua.
A Travessa dos Remolares não tem direito a tragé-
dias. Só a quotidiano reles.
Quotidiano reles mas ainda assim parte integrante
de um mundo e sui generis. Aguardando o seu Ber-
nardo Soares como quem espera o D. Sebastião.
E para que o mito se cumpra - ou nem mito
haveria - ainda não foi ou será desta.
(...)
in TRAVESSA DOS REMOLARES, paralelo w, Lisboa 2013, p.7
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Maria Callas (Nova Iorque, 2 de dezembro de 1923 — Paris, 16 de setembro de 1977)
Maria Callas - La Traviata - Verdi (video) (Lisbonne 1958)
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Rui Nunes
(...)
É interessante ver como a nossa história é uma sequência de abandonos da pátria. Abandonámos a pátria pela África, abandonámos a pátria pela Índia, abandonámos a pátria pelo Brasil, pela Europa. O que significa que esse abandono da pátria está presente na nossa matriz. Daí que pense que a grande pátria dos portugueses é a errância.
(...)
in ACTUAL - EXPRESSO, Ideias & Debates, 30 de Novembro 2013, pág.36.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
António Guerreiro
(...)
A cultura como redenção, decoração e fuga aos aborrecimentos quotidianos é um bem partilhado pelo humanismo dos filisteus, aqueles que se "atiram ao ornamento como o cão à salsicha", como dizia Karl Kraus.
(...)
in Estação Meteorológica, Ípsilon - Público, 29 Nov. 2013
Nota: A.G. é talvez a voz mais lúcida, informada e actualizada, que escreve ainda na nossa imprensa. Detecta as encenações, hipocrisias e logros que dão corpo a muitas atitudes bem pensantes, perfilhadas por muito boa gente. Por isso, ele é tão combatido e posto em questão pelos simplistas de pacotilha.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Manuel de Freitas
BWV 232
«Uma asa partida, outra desfeita» - assim chegou
a pomba à livraria, trazida junto ao peito do poeta.
Chegámos a tempo de ver a santíssima trindade:
um deus ágil e vetusto, cristo cigano, com o cigarro
aceso, e a pomba enferma, pelos dois banhada.
E era como se nada mais importasse, ou se
suspendesse, abruptamente, o ruído plebeu da cidade,
o som martirizante das pessoas que passavam,
leves de alma, de honra, e sem palavras que luzissem.
Entardecia em Lisboa, a asa batia no cartão ocasional.
A mesma que talvez não volte a voar sobre os telhados
nus desta cidade. Porque o sangue, mais do que
o espírito, tende às vezes a parar, deixa-nos quietos
e tolhidos numa caixa de papelão e sofrimento
onde nem Deus, se existisse, nos poderia ajudar.
in CÓLOFON, Fahrenheit 451, Lisboa 2012, pág. 35.
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quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Wislawa Szymborska
Elogio dos sonhos
Nos sonhos
pinto como Vermeer Van Delft.
Falo grego com fluência
e não apenas com os vivos.
Conduzo um automóvel
que me é obediente.
Sou hábil,
escrevo grandes poemas.
Escuto vozes
tão bem como os santos mais austeros.
Ficaríeis admirados
da perfeição com que toco piano.
Consigo voar como devia ser,
isto é, eu de mim própria.
Ao cair de um telhado
sei como descer levemente na verdura.
Não tenho problemas
em respirar debaixo de água.
Não me lamento:
consegui descobrir a Atlântida.
Fico contente porque, antes de morrer,
consigo acordar sempre.
A guerra a rebentar
e eu a virar-me para o melhor lado.
Sou, sem ter porém
que o ser, filho da época.
Aqui há alguns anos
vi dois sóis.
E, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim.
in PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA, trd. de Júlio Sousa Gomes, RELÓGIO D'ÁGUA, Lisboa 1998, pág. 133 e 135.
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terça-feira, 19 de novembro de 2013
Teoria da Des-possessão
(...)
"As palavras vivem de serem vivas, da decisão que as possui, do arrebatamento interior, de não serem bens, propriedades, objectos que se usam e nos desgastam, mas intensidades, sopros onde os corpos se deslocam e se encontram. Amantes."
(...)
Silvina Rodrigues Lopes, in Teoria da Des-possessão (Sobre textos de Maria Gabriela Llansol), Averno, Lisboa 2013, pág. 9.
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