quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Wislawa Szymborska


Elogio dos sonhos


Nos sonhos
pinto como Vermeer Van Delft.

Falo grego com fluência
e não apenas com os vivos.

Conduzo um automóvel
que me é obediente.

Sou hábil,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
tão bem como os santos mais austeros.

Ficaríeis admirados
da perfeição com que toco piano.

Consigo voar como devia ser,
isto é, eu de mim própria.

Ao cair de um telhado
sei como descer levemente na verdura.

Não tenho problemas
em respirar debaixo de água.

Não me lamento:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico contente porque, antes de morrer,
consigo acordar sempre.

A guerra a rebentar
e eu a virar-me para o melhor lado.

Sou, sem ter porém
que o ser, filho da época.

Aqui há alguns anos
vi dois sóis.

E, antes de ontem, um pinguim,
ali, muito nítido, ao pé de mim.



in PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA, trd. de Júlio Sousa Gomes, RELÓGIO D'ÁGUA, Lisboa 1998, pág. 133 e 135.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Teoria da Des-possessão


 (...)
 "As palavras vivem de serem vivas, da decisão que as possui, do arrebatamento interior, de não serem bens, propriedades, objectos que se usam e nos desgastam, mas intensidades, sopros onde os corpos se deslocam e se encontram. Amantes."
 (...)


 Silvina Rodrigues Lopes, in Teoria da Des-possessão (Sobre textos de Maria Gabriela  Llansol), Averno, Lisboa 2013, pág. 9.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Poemas com gatos ( V )


                       PORTUGUÊS VULGAR


O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.


I.L.

in LOGROS CONSENTIDOS, & etc, Lisboa 2005, pág.38.




                   QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR *


Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.

Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre doméstico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sítio de partidas
que ele conhecia.

Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir da porta. O latir
festivo de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.

Só os nossos animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum hades, nenhum céu.


* verso de um poema de Ruy Belo

I.L.
idem pág.43 e 44.


Nota: Tenho vindo a postar aqui, alguns poemas "felinos" que foram publicados em diversos livros meus. Já lá vão 10. Vou fazer um pequeno interregno, mas prometo que voltarei à temática porque  ainda há mais...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( IV )

LITANIA PARA UM LIMOEIRO URBANO

Para mover o céu e os alicerces, partir
velhos caixilhos e cantarias, chega o último
dos moradores. Cumprido o tempo das
polpas douradas, o estio das crianças ficará
ainda algum tempo nos retratos
sépia, com hidrângeas e bicicletas, expulso
para sempre o cio dos gatos e o impudor
dos ramos nas florações precoces.


I.L.

in OS SOLISTAS, Ed. Limiar, Porto 1994, pág. 27.




ALGUNS EPITÁFIOS

para um gato

Assassinei alguns pardais
mas depois lambia o meu pêlo
exaustivamente para ser
digno das carícias do dono.


I.L.

in COISAS QUE NUNCA, & etc, Lisboa 2010, pág.49

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( III )

BONJARDIM 

3.

Vindo do Marquês, o autocarro
chiava na curva estreita, soltando
os seus vapores de gasóleo, e
num portal surgia um gato pardo
para o qual me inclinei, sabendo
que fugiria ao contacto
da minha mão, ou apenas ao
esboço de carícia, como fazem
os gatos, tão fugidios na presença
de estranhos. Mas o animal no
instante do recuo, aceitou o
deslizar dos meus dedos,
em troca de amáveis energias. E
uma longa saudade subiu-me pelo
braço, no arquear festivo
daquele pequeno tigre.


I.L.



in UM QUARTO COM CIDADES AO FUNDO, Ed. Quasi, V.N. Famalicão, 2000, pág.118.



VÍTIMAS

O gato reinava no terraço
entre hidrângeas, sardinheiras e
muros, silencioso e súbito
na ferida que rasgaria
algum gorjeio. Muitas mortes de asa
incauta, na cobiça de larvas ou insectos
em sucessivos Maios, justificaram
o fulgor das garras, o espinho
certeiro entre veludos. Agora
que se foi o vivaz caçador, na garra
letal dos anos, novos bandos
de pardais inundam
o terraço sem gato.


I.L.


idem, pág. 123.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( II )

















AMÁVEIS  (DE AMAR)


D. Fuas o gato de Jorge de Sena e
Coral o gato de Sophia ou
a gata Maravilhas de
João Miguel Fernandes Jorge e os
de tantos outros como Baudelaire ou Eliot,
amáveis (de amar) mas ferozmente
independentes, olham-nos
dos poemas com aquelas luzentes e atentas
contas de vidro (podia aqui comparar com ágatas
ou opalas, mas não quero entrar
no joalheiro).

Eles são talvez os mais puros
aristocratas entre os animais de companhia.
Tratam do próprio pêlo com minuciosos cuidados,
mesmo que não tenham casa certa e
até na extrema míngua conservam
uma distante prudência e unhas afiadas
de quem não se vende facilmente.
E é tanta a sua generosa fidalguia
que nunca desprezam a mão assídua
que lhes afaga o dorso e partilha
o sedentário desprezo do mundo,
mesmo doente velha ou caída em desgraça.


I.L.

in A DISFUNÇÃO LÍRICA, & etc, Lisboa 2007, pág.35.



ÍTACA SEM GATOS


Nenhum gato reconheceu  Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso
me soa estranha a Odisseia e o
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato.


I.L.

idem, pág. 36.




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( I )

















FELINUS

A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

I.L.
in COISAS QUE NUNCA, & etc, Lisboa 2010, Pág.31.




PRÉSTIMO

Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir.

I.L.
in ASSINAR A PELE, Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos,
Org. de João Luís Barreto Guimarães, Ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001, Pág. 96.
 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

José Manuel Teixeira da Silva

 
TRATADO DE ARQUITECTURA
SEGUNDO NICOLAU NASONI

 

Repouso a sete palmos de terra
cumprindo a ciência das fundações
e o mistério dos números
Por minha estrita disposição, escapei-me
em local secreto de um templo
que desenhei até ao pormenor
 
 
Se me quiserem descobrir
não é certo que insista
o sangue quente italiano
Terão de perder-se na planta
que lhes deixei, mas ofereci
a causas mais divinas
Juntou depois a natureza
ornamentos de humidade
e o trabalho paciente das aranhas
 
 
Agora que me chamaste
ficará também aqui
qualquer coisa soterrada
sílabas escuras, mínimas
lascas de osso, e é como
se estivesse à espera
dos que vêm a caminho
 
 
Falaríamos de quanto pude erguer
em fundos tão confusos
para que a paisagem pousasse
como nas gravuras
a minha torre dividindo o espaço
e orientando as aves, por ela
a inclinação dos remos a repetir
o rio, olhassem-na distantes
os operários amestrando o fogo
entre os fumos do poente, soprassem
as nuvens por volutas da minha
inspiração até ao lugar
em que a vida aquietasse
 
De longe os avisos, pressentimento
do tremor da terra, a tempestade
e seus andaimes, mas tudo assim
arrisquemos em esplendor
e abatimento
 
 
 
in O LUGAR QUE MUDA O LUGAR, Língua Morta Lisboa 2013, p.49 e 50.

Nota: Este livro vai ser apresentado no próximo dia 19 de Outubro, pelas 15 horas, no Solar dos Condes de Resende em Canelas - Gaia. Estarão presentes José Manuel Teixeira da Silva, o editor Diogo Vaz Pinto e o respectivo apresentador Pedro Eiras. Uma sessão a não perder, pela qualidade dos intervenientes e excelência da poesia do autor.