terça-feira, 29 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( III )

BONJARDIM 

3.

Vindo do Marquês, o autocarro
chiava na curva estreita, soltando
os seus vapores de gasóleo, e
num portal surgia um gato pardo
para o qual me inclinei, sabendo
que fugiria ao contacto
da minha mão, ou apenas ao
esboço de carícia, como fazem
os gatos, tão fugidios na presença
de estranhos. Mas o animal no
instante do recuo, aceitou o
deslizar dos meus dedos,
em troca de amáveis energias. E
uma longa saudade subiu-me pelo
braço, no arquear festivo
daquele pequeno tigre.


I.L.



in UM QUARTO COM CIDADES AO FUNDO, Ed. Quasi, V.N. Famalicão, 2000, pág.118.



VÍTIMAS

O gato reinava no terraço
entre hidrângeas, sardinheiras e
muros, silencioso e súbito
na ferida que rasgaria
algum gorjeio. Muitas mortes de asa
incauta, na cobiça de larvas ou insectos
em sucessivos Maios, justificaram
o fulgor das garras, o espinho
certeiro entre veludos. Agora
que se foi o vivaz caçador, na garra
letal dos anos, novos bandos
de pardais inundam
o terraço sem gato.


I.L.


idem, pág. 123.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( II )

















AMÁVEIS  (DE AMAR)


D. Fuas o gato de Jorge de Sena e
Coral o gato de Sophia ou
a gata Maravilhas de
João Miguel Fernandes Jorge e os
de tantos outros como Baudelaire ou Eliot,
amáveis (de amar) mas ferozmente
independentes, olham-nos
dos poemas com aquelas luzentes e atentas
contas de vidro (podia aqui comparar com ágatas
ou opalas, mas não quero entrar
no joalheiro).

Eles são talvez os mais puros
aristocratas entre os animais de companhia.
Tratam do próprio pêlo com minuciosos cuidados,
mesmo que não tenham casa certa e
até na extrema míngua conservam
uma distante prudência e unhas afiadas
de quem não se vende facilmente.
E é tanta a sua generosa fidalguia
que nunca desprezam a mão assídua
que lhes afaga o dorso e partilha
o sedentário desprezo do mundo,
mesmo doente velha ou caída em desgraça.


I.L.

in A DISFUNÇÃO LÍRICA, & etc, Lisboa 2007, pág.35.



ÍTACA SEM GATOS


Nenhum gato reconheceu  Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso
me soa estranha a Odisseia e o
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato.


I.L.

idem, pág. 36.




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Poemas com gatos ( I )

















FELINUS

A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

I.L.
in COISAS QUE NUNCA, & etc, Lisboa 2010, Pág.31.




PRÉSTIMO

Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir.

I.L.
in ASSINAR A PELE, Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos,
Org. de João Luís Barreto Guimarães, Ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001, Pág. 96.
 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

José Manuel Teixeira da Silva

 
TRATADO DE ARQUITECTURA
SEGUNDO NICOLAU NASONI

 

Repouso a sete palmos de terra
cumprindo a ciência das fundações
e o mistério dos números
Por minha estrita disposição, escapei-me
em local secreto de um templo
que desenhei até ao pormenor
 
 
Se me quiserem descobrir
não é certo que insista
o sangue quente italiano
Terão de perder-se na planta
que lhes deixei, mas ofereci
a causas mais divinas
Juntou depois a natureza
ornamentos de humidade
e o trabalho paciente das aranhas
 
 
Agora que me chamaste
ficará também aqui
qualquer coisa soterrada
sílabas escuras, mínimas
lascas de osso, e é como
se estivesse à espera
dos que vêm a caminho
 
 
Falaríamos de quanto pude erguer
em fundos tão confusos
para que a paisagem pousasse
como nas gravuras
a minha torre dividindo o espaço
e orientando as aves, por ela
a inclinação dos remos a repetir
o rio, olhassem-na distantes
os operários amestrando o fogo
entre os fumos do poente, soprassem
as nuvens por volutas da minha
inspiração até ao lugar
em que a vida aquietasse
 
De longe os avisos, pressentimento
do tremor da terra, a tempestade
e seus andaimes, mas tudo assim
arrisquemos em esplendor
e abatimento
 
 
 
in O LUGAR QUE MUDA O LUGAR, Língua Morta Lisboa 2013, p.49 e 50.

Nota: Este livro vai ser apresentado no próximo dia 19 de Outubro, pelas 15 horas, no Solar dos Condes de Resende em Canelas - Gaia. Estarão presentes José Manuel Teixeira da Silva, o editor Diogo Vaz Pinto e o respectivo apresentador Pedro Eiras. Uma sessão a não perder, pela qualidade dos intervenientes e excelência da poesia do autor.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Povo: essa entidade múltipla



O populismo sem povo

(...)
Tal entidade - o povo - só existe como uma elaboração ficcional, ou, pelo menos, sob a forma de uma pluralidade de figuras que nada têm a ver umas com as outras: o "povo soberano" da democracia não é a mesma coisa que o "povo jurídico" de kant; e ambos são diferentes do "povo trabalhador" que o movimento comunista elevou a sujeito da História; e nenhum deles se confunde com o povo definido por uma relação orgânica com o solo e o sangue (de onde advém a ideia de um Volk, que foi, em todo o lado, um mito nefasto e quase sempre criminoso). Não existindo o povo, existe no entanto algo que se chama "populismo", contra o qual estamos constantemente a ser alertados. (...) Hoje, o fantasma do populismo alimenta-se de imagens e representações do povo que, à falta de outras, são aquelas criadas pela televisão. Não existe uma figura apreensível do povo como entidade, mas existe um "povo" da televisão, não apenas dos concursos e dos programas de entretenimento, mas também o dos telejornais, fetichizado pelas câmaras e pelos microfones, numa encenação que nos quer fazer crer que é a pura realidade. Trata-se de um povo postiço, que satisfaz uma forma aberrante de telegenia e só existe nos ecrãs. (...)


António Guerreiro, in Público, Ípsilon 4 Outubro 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Dia Mundial da Música

Nota: Escolhi este grande pianista, Arcadi Volodos, nascido em 1972, em São Petersburgo, para assinalar este dia. Tive o enorme prazer de assistir ao seu recente concerto na Casa da Música, no Porto, no passado dia 26 de Setembro. O programa que apresentou incluía Schubert, Brahms e Schumann. Foi muito aplaudido e tocou vários encores. Isto na noite em que noutros espaços da cidade, ainda cheirava a porco no espeto autárquico e se apresentavam best-sellers que não vão durar na memória, uma milionésima parte das composições executadas por Volodos.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Herberto Helder

irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no
                                                                    futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e
                                                                         das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é
                                                                  insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como
                                                                                       era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda - trepai por ela acima até à
                                                                  vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que há-de medrar melhor na memória do mundo


in Servidões,Assírio & Alvim 2013 Porto, p.90 e 91.


Nota: Finalmente, graças à generosidade de um amigo, que me emprestou um exemplar de "Servidões", tenho acesso a esta magnífica obra. Sim, porque não há só especuladores na troika; guardadas as devidas proporções, também há agiotas em Portugal; quanto mais não seja para fazerem uns cobres com o açambarcamento da edição de um livro de poesia.
          Este poema que transcrevo fez em mim o efeito do "Poema em linha recta" de Álvaro de Campos. Grande, enorme, inimitável Herberto Helder, que me fazes esquecer a mesquinhez
de tanta coisa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Para um Amigo Tenho Sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio

esquecido em qualquer fundo de algibeira.

Mas esse relógio não marca o tempo inútil.

São restos de tabaco e de ternura rápida.

É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.

É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa

in "Viagem Através de uma Nebulosa"

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A novilíngua do novo fascismo

(...)
« É, aliás, significativo que alguns críticos mais indulgentes, perante a afirmação de Passos Coelho de que a Constituição não fez nada por novecentos mil desempregados, o tenham aconselhado a nunca fazer discursos longos improvisados, o que corresponde à ideia orwelliana de que o falante da novilíngua "faz fluir o discurso articulado pela laringe, sem nenhuma implicação dos centros cerebrais". Mas a novilíngua deste novo fascismo já não é imposta por um poder como o dos fascismos históricos: é um fascismo que não vem de cima, é produzido no próprio tecido das interacções sociais. Alimenta-se da cultura que habitamos e respiramos. Ninguém obriga ninguém a tornar-se falante desta novilíngua, são os sujeitos - súbditos - dela que se auto - limitam inconscientemente para se situarem no interior do jogo da linguagem em curso. Trata-se de um poder microfísico que Foucault tão bem analisou.»

António Guerreiro

in Estação Meteorológica, O fascismo da língua, ípsilon, 13 Setembro 2013