irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no
futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e
das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é
insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como
era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda - trepai por ela acima até à
vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que há-de medrar melhor na memória do mundo
in Servidões,Assírio & Alvim 2013 Porto, p.90 e 91.
Nota: Finalmente, graças à generosidade de um amigo, que me emprestou um exemplar de "Servidões", tenho acesso a esta magnífica obra. Sim, porque não há só especuladores na troika; guardadas as devidas proporções, também há agiotas em Portugal; quanto mais não seja para fazerem uns cobres com o açambarcamento da edição de um livro de poesia.
Este poema que transcrevo fez em mim o efeito do "Poema em linha recta" de Álvaro de Campos. Grande, enorme, inimitável Herberto Helder, que me fazes esquecer a mesquinhez
de tanta coisa.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Para um Amigo Tenho Sempre
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa
in "Viagem Através de uma Nebulosa"
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
A novilíngua do novo fascismo
(...)
« É, aliás, significativo que alguns críticos mais indulgentes, perante a afirmação de Passos Coelho de que a Constituição não fez nada por novecentos mil desempregados, o tenham aconselhado a nunca fazer discursos longos improvisados, o que corresponde à ideia orwelliana de que o falante da novilíngua "faz fluir o discurso articulado pela laringe, sem nenhuma implicação dos centros cerebrais". Mas a novilíngua deste novo fascismo já não é imposta por um poder como o dos fascismos históricos: é um fascismo que não vem de cima, é produzido no próprio tecido das interacções sociais. Alimenta-se da cultura que habitamos e respiramos. Ninguém obriga ninguém a tornar-se falante desta novilíngua, são os sujeitos - súbditos - dela que se auto - limitam inconscientemente para se situarem no interior do jogo da linguagem em curso. Trata-se de um poder microfísico que Foucault tão bem analisou.»
António Guerreiro
in Estação Meteorológica, O fascismo da língua, ípsilon, 13 Setembro 2013
« É, aliás, significativo que alguns críticos mais indulgentes, perante a afirmação de Passos Coelho de que a Constituição não fez nada por novecentos mil desempregados, o tenham aconselhado a nunca fazer discursos longos improvisados, o que corresponde à ideia orwelliana de que o falante da novilíngua "faz fluir o discurso articulado pela laringe, sem nenhuma implicação dos centros cerebrais". Mas a novilíngua deste novo fascismo já não é imposta por um poder como o dos fascismos históricos: é um fascismo que não vem de cima, é produzido no próprio tecido das interacções sociais. Alimenta-se da cultura que habitamos e respiramos. Ninguém obriga ninguém a tornar-se falante desta novilíngua, são os sujeitos - súbditos - dela que se auto - limitam inconscientemente para se situarem no interior do jogo da linguagem em curso. Trata-se de um poder microfísico que Foucault tão bem analisou.»
António Guerreiro
in Estação Meteorológica, O fascismo da língua, ípsilon, 13 Setembro 2013
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
End Child Marriage
Rawan, 8 anos, foi morta pelo «marido», de 40 anos, na noite do casamento. A curta notícia do El Pays - http://sociedad.elpais.com/sociedad/2013/09/09/actualidad/1378749337_077900.html - destapa uma pontinha do véu que encobre a realidade b...rutal dos casamentos forçados, que todos os anos vítima mais de 14 milhões de meninas. O mundo é só um sítio cruel para tantas e tantas crianças e mulheres...
Foto: http://unfpa.org/endchildmarriage
Foto: http://unfpa.org/endchildmarriage
Chamava-se Rawan, contava 8 anos, vivia no Iémen e morreu na noite de núpcias, vítima lesões graves nos órgãos genitais e no útero. A menina casara com um homem de 40 anos, que diversos ativistas querem ver sentado no banco dos réus. Segundo o The Huffington Post, também a família é visada, por ter permitido o casamento.
Uma menina de 8 anos casou com um homem de 40, o que é permitido no Iémen. Mas este casamento durou apenas algumas horas, já que Rawan, a menor, morreu durante a noite de núpcias, vítima de lesões graves decorrentes de atos sexuais que foi obrigada a praticar.
De acordo com o jornal britânico The Huffington Post – que cita o Al Watan, diário do Kuwait –, a menor sofreu uma rutura nos órgãos genitais e lesões graves no útero, que lhe provocaram a morte.
Esta morte provocou manifestações de repúdio por parte de ativistas locais, que querem agora que o homem e a família de Rawan sejam responsabilizados pela morte desta criança.
Aquele jornal do Kuwait escreve que muitas menores ienemitas são obrigadas a casar, bastando, para o efeito, que a família dê consentimento. Estima-se que uma em cada quatro meninas case com menos de 16 anos de idade.
Estes casamentos resultam também de extremas dificuldades económicas das famílias, que vendem as filhas para conseguirem combater a fome que assola o Iémen.
A morte de Rawan veio levantar esta polémica, sendo que os ativistas reforçaram a sua luta contra este tipo de violência contra as crianças.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
SETEMBRO
SETEMBRO
Aonde estará aquela doce nostalgia de Setembro? Aquelas
despedidas de Verão, divididas entre o desgosto e lassidão da partida e a
ansiedade do porvir? Onde estão as melodiosas canções dos prelúdios outonais?
Com metade do país a arder por incúria do poder ou grunhice
e miséria cívica do povo, com as músicas apimbalhadas da época ou o fartote de
percussão, berros e passas dos festivais para os juves…, com os anciãos
arrastando-se sozinhos, com as famílias, coitadinhas, ausentes. Com cães e
gatos deixados à caridade dos vizinhos ou de algum veículo de passagem que lhes
dê melhor sorte, cresça depressa Setembro, mesmo com a ameaça de mais uma farsa
autárquica, para votarmos em quem não conhecemos e que vai seguir interesses de
poderes mesquinhos.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Salazar sem Pide
Num destes fóruns radiofónicos aberto ao público em geral, um encantador participante declarou, que perante a sua desilusão acerca do nosso leque partidário, sugeria que Portugal devia ser governado por um novo Salazar... mas sem Pide.
Felizmente um outro ouvinte que se lhe seguiu, acrescentou, muito acertadamente que "não há Salazar sem Pide".
É com estas intelijumências iguais à do 1º ouvinte que elegemos a qualidade de gente que está nos postos cimeiros da nação.
Felizmente um outro ouvinte que se lhe seguiu, acrescentou, muito acertadamente que "não há Salazar sem Pide".
É com estas intelijumências iguais à do 1º ouvinte que elegemos a qualidade de gente que está nos postos cimeiros da nação.
terça-feira, 30 de julho de 2013
7 anos de prisão e 600 chicotadas...
Arábia Saudita condena activista dos direitos humanos a sete anos de prisão e 600 chicotadas
Raef Badawi, de 35 anos, estava detido desde Junho do ano passado.
Um tribunal saudita condenou nesta segunda-feira um activista dos direitos humanos a sete anos de prisão e 600 chicotadas por ter criado uma fórum online "liberal" e por insultos ao Islão.
"Raef Badawi foi condenado a sete anos na prisão e 600 chicotadas” escreveu no Twitter o advogado de defesa, Waleed Abualkhair, acrescentando que o juiz ordenou o encerramento do site Rede Liberal Saudita. O advogado afirmou que Badawi, co-fundador do site, foi acusado de criticar a política religiosa e de apelar à “liberalização religiosa”.
Em Dezembro, um juiz tinha também remetido Badawi para um tribunal superior por renúncia à crença religiosa, um crime que pode levar à pena de morte na Arábia Saudita, mas as autoridades desistiram da acusação.
Badawi, de 35 anos, foi detido em Junho do ano passado por razões então desconhecidas. A rede que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari anunciou a 7 de Maio de 2012 um “dia de liberalismo” naquele reino muçulmano, pedindo o fim da influência da religião na vida pública da Arábia Saudita.
Este não é o primeiro caso em que as autoridades actuam por causa de actividades na Internet. Em Fevereiro do ano passado, um blogger saudita que estava na Malásia acabou deportado e está detido sob acusações de blasfémia, por ter publicado no Twitter comentários considerados insultuosos para o profeta Maomé.
in PUBLICO, por AFP
segunda-feira, 29 de julho de 2013
O bom Francisco
Nos seus 76 anos, o novo Papa Francisco concita simpatias e adesões babadas. O discurso do chefe do Vaticano não deixa de ser encantatório e cheio de misericórdia para com os excluídos e vítimas de todas as prepotências deste mundo. Mas, já estamos escaldados do bonzão e actualmente santo João Paulo II, que foi um dos papas mais conservadores e retrógrados desde o Concílio Vaticano II.
Para eu me babar com Sua Santidade Francisco, seria preciso:
a) acabar com a hipocrisia do celibato dos padres.
b) abrir o sacerdócio às mulheres.
c) não continuar a proibir o preservativo, mesmo em doentes com HIV...
Já ninguém espera anuências a favor da IVG ou outras possibilidades laicas, porque se sabe que nenhuma religião as aprova. Mas, tenham dó! Os seminários estão vazios. Por que será?
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