quarta-feira, 19 de junho de 2013

Maria Bethânia/Álvaro de Campos


   Mandato de despejo aos mandarins do mundo

 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Servidões das "Servidões"


    "Mal tinha saído, já Servidões (numa edição de cinco mil exemplares e com reedição interdita pelo autor, informou a editora) estava esgotado na maior parte das livrarias. Estranho fenómeno este, de precipitação e multiplicação de leitores e compradores de um livro de poesia - o único medium de massa em que o número de produtores ultrapassa o dos consumidores, como escreveu uma vez o poeta e ensaísta Hans Magnus Enzensberger. Um dos factores que explicam o que aconteceu é ao mesmo tempo perverso e irónico: Herberto Helder zela tanto pela autonomia da sua obra (e isto significa, sobretudo, fazer com que ela apareça, livre de tudo o que a parasite ou a desvie para um espaço que não é o seu), que acabou por criar as condições aptas a um investimento mercantil: o seu livro é capturado por especuladores, como se se tratasse de um produto financeiro ou de uma mercadoria rara. E para que seja considerada rara é preciso que se torne objecto de um desejo de posse e não de leitura, pois o acesso a esta está sempre garantido e não se pode manter como desejo, não pode ser objecto de especulação. A este triunfo do valor de troca (ou melhor, da perspectiva de que ele vai triunfar, como acontece nos valores cotados na bolsa) soma-se um outro factor que o potencializa: o papel que na sociedade de massa têm os "filisteus cultivados" (tal designação, em que a palavra "cultivados" não deve ser substituída por "cultos", é de Hannah Arendt)."

António Guerreiro in Estação Meteorológica, ípsilon 14-06-13

Herberto Helder

"(...)A beleza herbertiana é trágica, é sempre uma composição a partir do caos e não traz consigo nenhuma salvação. Apresenta-se sob a forma demoníaca da imaginação alegórica: anti-representativa, anti-humanista, anti-mimética. Esta poesia interrompe o curso do mundo. É uma catástrofe."

António Guerreiro in ípsilon, 14-06-2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fernando Pessoa

"Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue."

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.

domingo, 9 de junho de 2013

Camões

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m' espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado.
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que: só para mim
Anda o mundo concertado.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Victor Oliveira Mateus


A ferida era aquela tarde antecipando o fim.
As minhas mãos trôpegas a procurar-te
abrigo num guarda-chuva grosseiro
e rombo, e numa vida que me abandonava
sem que tu o entendesses. A ferida
surgia, certeira e fera, no mais ínfimo
pormenor, pormenor esse que tu não vias,
pois de tudo se estava longe (ainda),
excetuando, contudo, um dorido
abandono a infiltrar-se insidiosamente
nos meus olhos. A ferida éramos nós pela rua:
tu a puxares o guarda-chuva para ti
e eu, sem que te apercebesses, gotejando
um fogo que o vendaval alimentava.

A ferida era eu, desajeitado, frente
ao parquímetro com as moedas sempre
a caírem-me e tu perguntaras-me
o que era uma retrosaria. A ferida
éramos nós a rir, a rir por haver palavras
iguais que, nos intentos iguais, não falavam
de coisas iguais... e isso era bom,
pensaria o meu Proust, que no complexo
buscava a harmonia para só depois tentar
o simples. A ferida era esse futuro caminho
com o oceano já a avançar, essa razia
do tempo numa cidade a findar-se
comigo a ler-nos por dentro - última
tentativa de suster o irremediável.


in Gente dois Reinos, Labirinto 2013, Fafe, pág.26.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Federico García Lorca

Federico García Lorca
Fuente Vaqueros, 5 de Junho de 1898 — Granada, 19 de Agosto de 1936
 
 
El remanso del aire
bajo la rama del eco.

El remanso del agua
bajo fronda de luceros.

El remanso de tu boca
bajo espesura de besos.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Sagração da Primavera - 29 de Maio de 1913

"A Sagração da Primavera, do compositor russo Igor Stravinsky, subverte a estética musical do século XX, dando origem ao Modernismo. A célebre composição musical deste irreverente artista do século passado é hoje considerada um símbolo da musicalidade erudita, mas na época causou polémica ao embalar o ballet em dois actos criado pelo não menos rebelde Vaslav Nijinsky, coreógrafo também originário da Rússia.
(...) e a estreia se deu em pleno Théâtre des Champs-Élysées, na capital francesa, no dia 29 de maio de 1913.
Esta obra revolucionou praticamente todas as principais características da música de então, ou seja, o arcabouço do ritmo, a estrutura orquestral, o timbre, a forma, os aspectos harmónicos, a maneira como se utilizavam as dissonâncias, e o valor conferido à percussão, a qual sobrelevava a própria melodia, algo impraticável até este momento.
Não foi casualmente que esta peça escandalizou a sociedade da França em sua estreia. O público não sabia como assimilar tantas mudanças e subversões, não estava preparado para recepcionar positivamente esta nova estética. A proposta coreográfica também foi rejeitada, por seu carácter primitivista, pelo resgate da ancestral arte rupestre.
Sobraram vaias para todos os lados, e o caos se instaurou na plateia. Diversos músicos e maestros se retiraram do teatro logo no começo da representação, revoltados com a nova abordagem dos instrumentos. Actualmente a história de sua polémica apresentação talvez seja mais conhecida que a obra em si.
O espectáculo é estruturalmente dividido em duas partes essenciais: a adoração da terra e o sacrifício. A orquestra é composta por 8 trompas entre 38 instrumentos de sopro. Tudo tem início com a execução de compassos de fagote, seguidos pelo princípio de uma musicalidade lituana, por um andamento sem nenhuma simetria e repleto de padrões complexos, e por um timbre raro nos instrumentos.
Ainda hoje sua natureza subversiva desnorteia o público, por seu teor provocativo e incivilizado. No palco desfilam cenas ancestrais e excêntricas, despertando em quem as assiste emoções aflitivas. Músicas de natureza folclórica distorcidas, uma feroz estruturação de ritmos totalmente independentes, harmonias politonais desagradáveis aos ouvidos, a rejeição drástica das frases longas, a transferência constante dos acentos rítmicos, a inebriante criação de novos timbres, são características que contribuem para o desconcerto do público. Mas também são aspectos que transformam A Sagração da Primavera em uma completa detonação de energia e vida. (...) "

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A semana que passou


  Um pouco distraída da actualidade tuga, para não entrar em constatações deprimentes, apetece-me, hoje alumiar (ou escurecer) alguns episódios semi-burlescos da semana passada. Começarei pelo caricato português do Prof. Cavaco, com os seus "cidadões", que até nem resistiu a bisar na mesma frase. Ainda a mesma personagem resolveu convocar a mãe de Cristo para assuntos de traficância e agiotagem financeira, com a evocação de uma deliciosa cena doméstica digna dos velhos livros da Instrução Primária do Estado Novo.
  Outro assunto da semana ou mais concretamente de domingo, foram as excitações futebolísticas. Claro que eu até acho graça às vitórias do F.C.P. perante a estultícia e o convencimento do clube da capital do império. Acho menos graça aos 4 milhões que esse mesmo clube paga, ao que dizem, ao seu treinador, que pelos vistos até nem ganha taças nem campeonatos. Quanto ao jogo ou à indústria que tanto ocupa e faz vibrar tanta gente, temos que nos render ao facto de que faz parte do nosso mundo. Mas, acaba por ser uma cena primitiva e atávica, que muitas vezes despoleta os piores instintos nos seres humanos e fazer meia dúzia de tipos, no mundo, ganhar quantias obscenas. No joguinho, lá está a arena verde, as massas ululantes a reclamar identidades, cores e pertenças, lá está uma catrefada de violadores das redes, enquanto outros potenciais violadores da baliza do "inimigo"  defendem a própria, apesar de lesões, punições e insultos. Lá está um juíz, que apesar dos avanços tecnológicos continua a "julgar" a olho nu, para que assim o erro e caganeira humana, que quase sempre tráz cifrões na ponta, possam continuar a entreter a turba. Por tudo isto este é um grande "desporto" de massas...
   Parece mesmo que a única coisa ética e humanamente válida desta semana, foi a aprovação no nosso desclassificado Parlamento de uma lei que procura fazer justiça a gente de bem.