quarta-feira, 5 de junho de 2013

Federico García Lorca

Federico García Lorca
Fuente Vaqueros, 5 de Junho de 1898 — Granada, 19 de Agosto de 1936
 
 
El remanso del aire
bajo la rama del eco.

El remanso del agua
bajo fronda de luceros.

El remanso de tu boca
bajo espesura de besos.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Sagração da Primavera - 29 de Maio de 1913

"A Sagração da Primavera, do compositor russo Igor Stravinsky, subverte a estética musical do século XX, dando origem ao Modernismo. A célebre composição musical deste irreverente artista do século passado é hoje considerada um símbolo da musicalidade erudita, mas na época causou polémica ao embalar o ballet em dois actos criado pelo não menos rebelde Vaslav Nijinsky, coreógrafo também originário da Rússia.
(...) e a estreia se deu em pleno Théâtre des Champs-Élysées, na capital francesa, no dia 29 de maio de 1913.
Esta obra revolucionou praticamente todas as principais características da música de então, ou seja, o arcabouço do ritmo, a estrutura orquestral, o timbre, a forma, os aspectos harmónicos, a maneira como se utilizavam as dissonâncias, e o valor conferido à percussão, a qual sobrelevava a própria melodia, algo impraticável até este momento.
Não foi casualmente que esta peça escandalizou a sociedade da França em sua estreia. O público não sabia como assimilar tantas mudanças e subversões, não estava preparado para recepcionar positivamente esta nova estética. A proposta coreográfica também foi rejeitada, por seu carácter primitivista, pelo resgate da ancestral arte rupestre.
Sobraram vaias para todos os lados, e o caos se instaurou na plateia. Diversos músicos e maestros se retiraram do teatro logo no começo da representação, revoltados com a nova abordagem dos instrumentos. Actualmente a história de sua polémica apresentação talvez seja mais conhecida que a obra em si.
O espectáculo é estruturalmente dividido em duas partes essenciais: a adoração da terra e o sacrifício. A orquestra é composta por 8 trompas entre 38 instrumentos de sopro. Tudo tem início com a execução de compassos de fagote, seguidos pelo princípio de uma musicalidade lituana, por um andamento sem nenhuma simetria e repleto de padrões complexos, e por um timbre raro nos instrumentos.
Ainda hoje sua natureza subversiva desnorteia o público, por seu teor provocativo e incivilizado. No palco desfilam cenas ancestrais e excêntricas, despertando em quem as assiste emoções aflitivas. Músicas de natureza folclórica distorcidas, uma feroz estruturação de ritmos totalmente independentes, harmonias politonais desagradáveis aos ouvidos, a rejeição drástica das frases longas, a transferência constante dos acentos rítmicos, a inebriante criação de novos timbres, são características que contribuem para o desconcerto do público. Mas também são aspectos que transformam A Sagração da Primavera em uma completa detonação de energia e vida. (...) "

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A semana que passou


  Um pouco distraída da actualidade tuga, para não entrar em constatações deprimentes, apetece-me, hoje alumiar (ou escurecer) alguns episódios semi-burlescos da semana passada. Começarei pelo caricato português do Prof. Cavaco, com os seus "cidadões", que até nem resistiu a bisar na mesma frase. Ainda a mesma personagem resolveu convocar a mãe de Cristo para assuntos de traficância e agiotagem financeira, com a evocação de uma deliciosa cena doméstica digna dos velhos livros da Instrução Primária do Estado Novo.
  Outro assunto da semana ou mais concretamente de domingo, foram as excitações futebolísticas. Claro que eu até acho graça às vitórias do F.C.P. perante a estultícia e o convencimento do clube da capital do império. Acho menos graça aos 4 milhões que esse mesmo clube paga, ao que dizem, ao seu treinador, que pelos vistos até nem ganha taças nem campeonatos. Quanto ao jogo ou à indústria que tanto ocupa e faz vibrar tanta gente, temos que nos render ao facto de que faz parte do nosso mundo. Mas, acaba por ser uma cena primitiva e atávica, que muitas vezes despoleta os piores instintos nos seres humanos e fazer meia dúzia de tipos, no mundo, ganhar quantias obscenas. No joguinho, lá está a arena verde, as massas ululantes a reclamar identidades, cores e pertenças, lá está uma catrefada de violadores das redes, enquanto outros potenciais violadores da baliza do "inimigo"  defendem a própria, apesar de lesões, punições e insultos. Lá está um juíz, que apesar dos avanços tecnológicos continua a "julgar" a olho nu, para que assim o erro e caganeira humana, que quase sempre tráz cifrões na ponta, possam continuar a entreter a turba. Por tudo isto este é um grande "desporto" de massas...
   Parece mesmo que a única coisa ética e humanamente válida desta semana, foi a aprovação no nosso desclassificado Parlamento de uma lei que procura fazer justiça a gente de bem.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Três epigramas de Goethe


Não queres deitar-te nua a meu lado, doce amor;
Envergonhada, continuas a esconder-te de mim sob as roupas.
Ouve, achas que desejo os teus vestidos? Ou desejo-te o adorável corpo?
Repara, a vergonha é um vestido. Entre amantes, despe-se!

                                      *

Todos, filha, me dizem que me enganas.
Ah, continua sempre a enganar-me assim!

                                      *

Procurei muito tempo uma mulher; procurava, só encontrava pegas.
Finalmente apanhei-te, minha pegazinha, e que mulher eu encontrei!



in Erotica & Curiosa, J. W. Goethe, Apáginastantas, Lisboa 1986,
trad. de João Barrento

terça-feira, 30 de abril de 2013

Inês Dias

    LEI SÁLICA


As  mulheres da família sempre
tiveram  um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.


Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.


Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.


Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.

pág. 10



   RESTAURAÇÃO


Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.


Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.

pág, 14

in UM RAIO ARDENTE E PAREDES FRIAS,
Ed. Averno, Lisboa 2013.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

quarta-feira, 24 de abril de 2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

Dia Mundial do Livro


 LIVROS USADOS

Tudo que se disse depois e
ainda se diz, pode estar num usado
exemplar de Crime e Castigo ou da Utopia.
Os livros usados - mesmo
mesmo que se chamen Utopia -
têm aquela terna docilidade
das páginas em que outras
mãos passaram, ao contrário
dos novos, que em rígidas e
intactas páginas são só apenas
papel impresso.

E para escassos amigos, quando
se fugiu duma livraria de
consumíveis tops,
talvez seja essa
a melhor oferta.

Inês Lourenço
in A Disfunção Lírica, & etc, 2007 Lisboa.