segunda-feira, 13 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Três epigramas de Goethe
Não queres deitar-te nua a meu lado, doce amor;
Envergonhada, continuas a esconder-te de mim sob as roupas.
Ouve, achas que desejo os teus vestidos? Ou desejo-te o adorável corpo?
Repara, a vergonha é um vestido. Entre amantes, despe-se!
*
Todos, filha, me dizem que me enganas.
Ah, continua sempre a enganar-me assim!
*
Procurei muito tempo uma mulher; procurava, só encontrava pegas.
Finalmente apanhei-te, minha pegazinha, e que mulher eu encontrei!
in Erotica & Curiosa, J. W. Goethe, Apáginastantas, Lisboa 1986,
trad. de João Barrento
terça-feira, 30 de abril de 2013
Inês Dias
LEI SÁLICA
As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.
Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.
Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.
Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.
pág. 10
RESTAURAÇÃO
Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.
Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.
pág, 14
in UM RAIO ARDENTE E PAREDES FRIAS,
Ed. Averno, Lisboa 2013.
As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.
Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.
Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.
Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.
pág. 10
RESTAURAÇÃO
Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.
Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.
pág, 14
in UM RAIO ARDENTE E PAREDES FRIAS,
Ed. Averno, Lisboa 2013.
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segunda-feira, 29 de abril de 2013
quarta-feira, 24 de abril de 2013
terça-feira, 23 de abril de 2013
Dia Mundial do Livro
LIVROS USADOS
Tudo que se disse depois e
ainda se diz, pode estar num usado
exemplar de Crime e Castigo ou da Utopia.
Os livros usados - mesmo
mesmo que se chamen Utopia -
têm aquela terna docilidade
das páginas em que outras
mãos passaram, ao contrário
dos novos, que em rígidas e
intactas páginas são só apenas
papel impresso.
E para escassos amigos, quando
se fugiu duma livraria de
consumíveis tops,
talvez seja essa
a melhor oferta.
Inês Lourenço
in A Disfunção Lírica, & etc, 2007 Lisboa.
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sexta-feira, 19 de abril de 2013
Manuel Gusmão
uma árvore é um anjo
um anjo lenhoso, altamente inflamável,
de alto a baixo prometido
a um incêndio que a si mesmo se combatesse
uma árvore é um anjo da terra
um anjo que está sempre a enraizar-se
e a erguer-se a poder de braços
Uma árvore conhece pouco
das nossas maneiras de lutar
e morrer; por isso:
uma árvore é e não é um anjo
in Da Linguagem das Árvores e do Vento,
pág.27 , em PEQUENO TRATADO DAS
FIGURAS, 2013.
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sexta-feira, 12 de abril de 2013
Jorge Sousa Braga
O novíssimo testamento
para acabar de vez com os direitos humanos
e restaurar os direitos divinos
Escrevi este testamento com sangue
de galinha
eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas
condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de
galinhas-da-índia patos perus gansos garnizés
e a cacarejar pela noite fora
sem que um só galo da vizinhança me responda
nem os galos dos cataventos
- quando o galo cantar renegar-me-ás três vezes quando o galo
cantar -
Quando era criança antes de matar uma galinha
a minha mãe pedia-me para lhe prender as pernas e as asas
eu metia as mãos por debaixo da saia e prendia-lhe as asas e as
pernas com todas as minhas forças
O sangue jorrava da sua cabeça para uma malga com vinagre
e ficava depois muito tempo ainda a espernear no alguidar
o pequeno olho muito aberto...
Os meus sonhos estão cheios de cabeças de galinha
ainda escorrendo sangue
de milhões de asas de milhões de patas de galinha de milhões
de ovos
Quem vai bater esta gigantesca omeleta de ovos
na frigideira celeste?
A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas
Que tamanho tem a alma dum mosquito?
Proclamo a minha solidariedade com todos os biliões de frangos
do planeta
que tentam em vão escapar à máquina de depenar eléctrica
com todos os carneiros cabras ovelhas avestruzes
- Eu sou um cordeiro inocente que se perdeu do pastor
e não sabe senão balir -
com todas as vacas
condenadas a comer rações impróprias e a um orgasmo gelado
No silêncio dos estábulos elas preparam a sua vingança
enquanto sonham com um prado verde de gramíneas
- e essa vingança será terrível -
Este é um testamento escrito com o sangue
do último dos genocídios
- e esse sangue é da cor do alcatrão -
tendo como testemunhas apenas as duas metades
do meu coração
in RESUMO a poesia em 2012, pág.102 e 103, Ed. Documenta.
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quinta-feira, 11 de abril de 2013
ANA HATHERLY
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
... O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
- ANA HATHERLY -
terça-feira, 9 de abril de 2013
Fernando Guimarães
Morte
Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.
in RESUMO a poesia em 2012,
pág. 82, Ed. Documenta.
Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.
in RESUMO a poesia em 2012,
pág. 82, Ed. Documenta.
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