sexta-feira, 19 de abril de 2013

Manuel Gusmão


uma árvore é um anjo

um anjo lenhoso, altamente inflamável,
de alto a baixo prometido
a um incêndio que a si mesmo se combatesse

uma árvore é um anjo da terra
um anjo que está sempre a enraizar-se
e a erguer-se a poder de braços

Uma árvore conhece pouco
das nossas maneiras de lutar
e morrer; por isso:

uma árvore é e não é um anjo



in Da Linguagem das Árvores e do Vento,
pág.27 , em PEQUENO TRATADO DAS
FIGURAS, 2013.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Jorge Sousa Braga


 O novíssimo testamento

     para acabar de vez com os direitos humanos
     e restaurar os direitos divinos

Escrevi este testamento com sangue
de galinha
eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas
condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de
      galinhas-da-índia patos perus gansos garnizés
e a cacarejar pela noite fora
sem que um só galo da vizinhança me responda
nem os galos dos cataventos
- quando o galo cantar renegar-me-ás três vezes quando o galo
      cantar -
Quando era criança antes de matar uma galinha
a minha mãe pedia-me para lhe prender as pernas e as asas
eu metia as mãos por debaixo da saia e prendia-lhe as asas e as
      pernas com todas as minhas forças
O sangue jorrava da sua cabeça para uma malga com vinagre
e ficava depois muito tempo ainda a espernear no alguidar
o pequeno olho muito aberto...
Os meus sonhos estão cheios de cabeças de galinha
ainda escorrendo sangue
de milhões de asas de milhões de patas de galinha de milhões
       de ovos
Quem vai bater esta gigantesca omeleta de ovos
na frigideira celeste?
A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas
Que tamanho tem a alma dum mosquito?
Proclamo a minha solidariedade com todos os biliões de frangos
       do planeta
que tentam em vão escapar à máquina de depenar eléctrica
com todos os carneiros cabras ovelhas avestruzes
- Eu sou um cordeiro inocente que se perdeu do pastor
e não sabe senão balir -
com todas as vacas
condenadas a comer rações impróprias e a um orgasmo gelado
No silêncio dos estábulos elas preparam a sua vingança
enquanto sonham com um prado verde de gramíneas
- e essa vingança será terrível -
Este é um testamento escrito com o sangue
do último dos genocídios
- e esse sangue é da cor do alcatrão -
tendo como testemunhas apenas as duas metades
do meu coração

in RESUMO a poesia em 2012, pág.102 e 103, Ed. Documenta.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

ANA HATHERLY


A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se


... O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita


O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende


E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta


- ANA HATHERLY -

terça-feira, 9 de abril de 2013

Fernando Guimarães

    Morte

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.


in RESUMO a poesia em 2012,
pág. 82, Ed. Documenta.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

António Ramos Rosa

O mais seguro abrigo
é o que oscila um pouco
como se oscilássemos
sobre a matéria viva
ou no coração do espaço

             pág.46


O poema deve
aparecer
como um objecto supérfluo
e surpreendente

              pág.47


Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida

              pág.48


in RESUMO a poesia em 2012, Ed. DOCUMENTA, Lisboa.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A obra magistral de Óscar Lopes



«Neófito, a morte não existe»
- lembrando Óscar Lopes

Óscar Lopes foi um homem bom. E foi um homem humilde como só os homens sábios sabem ser. Humilde no saber, nas certezas, sempre pronto a rever-se e a ensaiar novas soluções para o mar de interrogações por onde navegava procurando persistentemente respostas, sem que isso implicasse perda de um norte ideológico que toda a vida procurou com perseverança, estudo e abertura de espírito. A vida desafiava-o quotidianamente e todos os planos da realidade o interpelavam, por isso nunca se fechou numa única área do saber, nunca foi rato de biblioteca, embora tivesse sido um leitor compulsivo, nunca se fechou ao chamamento do mundo, quer o mundo fosse a sua escola, a sua cidade, o seu partido, o seu país, o planeta, o cosmos. Tudo o interessava e por isso era tão fascinante ouvi-lo, sempre apaixonado pelo ato de pensar, falar, quer da história duma palavra, como da de um longínquo astro, quer de uma qualquer estrutura linguística, como de um verso de Camilo Pessanha, quer da música que tanto amava, como do último problema de lógica com que se debatia. Amava a humanidade e o mundo tão agreste em que lhe foi dado viver.

A curiosidade intelectual insaciável faz dele, jovem professor de português nos liceus, já com duas licenciaturas feitas, um incansável estudioso da literatura e da língua. Começa por se dedicar à historiografia literária, publicando abundantemente já nos anos 40, mas, depois, a crítica literária da produção contemporânea atrai-o e torna-se um brilhante ensaísta, que publica nas páginas do Comércio do Porto, durante as décadas de 50 e 60, uma crítica extremamente original, atenta à materialidade formal do texto literário, na qual vai construindo o seu conceito singular de “realismo problemático ou dialético”, um realismo longínquo da tradição oitocentista e heterodoxo relativamente a neorrealismo imperante, que se manifesta sempre que a literatura resiste ao senso comum e produz um alargamento de mundos. Através desse exercício crítico vai afinando o seu conceito de que a leitura tem sempre um carácter provisório. Ler é fazer tentativas, é ensaiar sínteses, pontos de equilíbrio num palco de conflitos que um texto sempre constitui. Por isso, para Óscar Lopes, a leitura de um texto literário constitui um desafio para quem lê: “compreender, realmente, uma obra é compreender-se melhor.”

Esta tentativa de ler com propriedade e instrumentos tão rigorosos quanto possível leva-o a mergulhar mais no estudo da língua. Nos anos 60, num clima intelectualmente adverso, impedido até, por algum tempo, de ensinar, controlado nos contactos, movimentos, correspondência, em clima de grande solidão intelectual, Óscar Lopes torna-se um investigador de ponta no campo da linguística. Escreve, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, a inovadora Gramática Simbólica do Português, a partir das experiências que faz com os seus estudantes adolescentes, cruzando formalmente o ensino do português com o da matemática. Quando, com o 25 de Abril, vê finalmente abrirem-se-lhe as portas da Universidade, será no campo da linguística que exercerá o seu magistério. Eu, então jovem assistente universitária, recordo o pasmo com que assisti a algumas das aulas de Linguística Matemática e Computacional que dava nos intervalos que a gestão da Faculdade de Letras do Porto, em quotidiano processo de mudança e democratização lhe permitiam, gestão que ele abraçou com o entusiasmo que punha em tudo.

Claro que todos o lembramos por essa obra fundadora de uma historiografia literária nova, arredada da historiografia positivista imperante, que escreveu a duas mãos com o amigo de sempre, António José Saraiva, a História da Literatura Portuguesa, a qual, com cerca de 20 edições, formou gerações de estudantes em Portugal e no Brasil. Mas ela é apenas a parte com mais visibilidade da obra muito mais vasta e complexa, até muito tarde desconhecida, deste homem do norte.

A bondade já evocada de Óscar Lopes, fruto evidentemente da sua elevada dimensão ética, também decorre em grande medida do ensaísmo que sempre praticou em todos os domínios – ensaísmo no seu sentido etimológico de ensaiar, tentar, encontrar soluções e tentar de novo novas hipóteses. A sua bondade manifestava-se neste espírito de abertura ao conhecimento e ao diálogo com o outro. Das coisas de que mais gostava era de trocar, debater, defender ideias e por isso ouvia o outro com uma disponibilidade sem limites: do aluno principiante ao intelectual ou ao criador de maior renome. Ouvia-os com um interesse genuinamente idêntico conjugando ao máximo os seus próprios preconceitos ou pressupostos ideológicos. O membro do Comité Central do PCP que também foi durante algum tempo não adotava qualquer ortodoxia nas suas opções ideológicas ou epistemológicas.

Um dia, em 1992, Óscar Lopes escrevia a um António José Saraiva doente e desalentado: “Só o enfraquecimento da convicção é que nos pode dar a obsessão da morte. Lembra-te do verso de Pessoa, no poema Iniciação: «Neófito, a morte não existe». Cada um de nós é muito mais (e muitos mais) do que aquele que se vê. (…) «Neófito, a morte não existe», a não ser na falta de convicção de verdade ou de valor».

Era assim Óscar Lopes, não acreditando na morte e perseguindo sentidos de verdade para a vida no pensamento.

Isabel Pires de Lima
Publicado no JN a 28-03-2013









segunda-feira, 25 de março de 2013

Amalia Bautista

OS MEUS MELHORES DESEJOS

Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.

in "Estou Ausente", Averno 2013, pág 21, trad. de Inês Dias.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Oscar Lopes


Seu filho, Sergio Lopes,  acaba de nos comunicar o falecimento de seu pai, Oscar Lopes,
esta tarde.

O corpo estará até amanhã exposto na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, em frente do café Garça Real, na Praça D.João I .

Sábado, ás 15 horas , haverá uma pequena cerimónia, com uma intervenção de um membro do PCP e  outra a cargo da Prof. Doutora Isabel Pires de Lima,  finda a qual o corpo seguirá para o crematório do cemitério de Matozinhos

 
Breve Nota Biográfica


 









Oscar Lopes (1917 – 2013)
 Licenciou-se em Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Foi professor efectivo do Liceu Nacional de Vila Real e dos liceus Alexandre Herculano e Rodrigues de Freitas, do Porto. Em 1975 ingressou, como professor catedrático, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se jubilou.
Militante do Partido Comunista Português, fez parte do seu Comité Central.
Crítico literário, publicou uma vasta colaboração em diversos jornais e revistas, onde se destacam a Seara Nova, a Vértice, o Mundo Literário, o Colóquio/Letras e o suplemento literário de O Comércio do Porto.
Pelos seus trabalhos de ensaio e crítica recebeu o prémio Rodrigues Sampaio da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e o prémio Jacinto do Prado Coelho (1985), instituido pelo Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários.

 Na Universidade do Porto desempenhou, entre outros cargos, o de vice-reitor da Universidade (1974-1975) e o de director da Faculdade de Letras (1974-1976).
Recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, em 1989, e a Ordem da Liberdade, em 2006.
É autor de dezenas de obras no domínio da linguística e da literatura, de que destacamos:
 na  Linguística
- Gramática simbólica do português. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2.ª ed., corrigida, 1972.

 - Entre a palavra e o discurso: Estudos de Linguística (1977-1993). Porto, Campo das Letras, 2005.
na Literatura e crítica literária
-  História da Literatura Portuguesa (com António José Saraiva).

-  Antero de Quental: Vida e Legado de Uma Utopia. Lisboa, Editorial Caminho, 1983.
-  Os Sinais e os Sentidos: Literatura Portuguesa do Século XX. Lisboa, Editorial Caminho, 1986.

- Entre Fialho e Nemésio: Estudos de Literatura Portuguesa Contemporânea. 2 vols., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia

ANONYMUS


Não me tragas um poema
de sentidos inócuos, nem engenharias gráficas a ocupar
a página. Afasta-te dos bons sentimentos, das
mansas paisagens com asas de permeio
ou brancas flores de salgueiro. Modela o barro
das palavras como um artesão anónimo
inventa a própria ferramenta
a ferir os dedos
na proximidade da pedra


E não incandesças no ludíbrio
do amor. Esse também pouco vale
mais que um mero espelho, se
a ti próprio procuras possuir ou vencer
em quem julgas amar


Nem me fales da luz dos deuses,
que já envelheceram
há milhares de galáxias
caídos na demência senil
e caídos nós nesta orfandade sem mistério


No dia paralelo ao
teu nascimento, decerto transporás
a porta das horas pela derradeira vez
ciente por fim da vacuidade
dos versos onde te escondeste.


Inês Lourenço
2013