sábado, 16 de março de 2013

Natália Correia

São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993



A defesa do poeta



  Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Natália Correia

terça-feira, 12 de março de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

Fruto Proibido


Ela era a árvore da sabedoria. Erguia-se no centro do Éden. E o par bíblico estava impedido pela divindade, uma certa divindade bastante despótica, de consumir os frutos que dela pendiam iridiscentes e mágicos. Até que no decorrer daquele tempo indefinível e sem medida, que é o tempo gerido pelos deuses, a parte feminina do casal decidiu ceder à tentação da busca do conhecimento, às rotas ignoradas do Bem e do Mal, coisas imponderáveis até ali. Não sabia, pois a acção de saber era-lhe interdita, se ela própria existia há séculos ou milénios naquele ininterrupto estado edénico de inconsciência. Pois nada se renovava porque nada morria, nada se construía porque nada era destruído. E assim se iniciou a História da Humanidade, graças a uma mulher e a uma árvore.

A celebração de cinco décadas da Cooperativa Árvore, sita no Passeio das Virtudes, na cidade do Porto, convocando simultaneamente a data de 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, numa tessitura criativa da autoria de 50 mulheres, transporta-nos pelos materiais eleitos, como a lã em diversos estádios ou o burel, a uma ancestralidade simbólica de onde é possível interrogar percursos, avanços e recuos. Assim como a simbólica que acompanha a figuração da árvore se impõe pela completude que a define: simultaneamente ligada às raízes e à Mãe Terra mas também a uma verticalidade celeste, que a faz assim detentora de todas as forças do Cosmos, num todo harmonioso, onde não há exclusões.

Neste ano de 2013 e apesar da enorme caminhada percorrida no que ao estatuto das mulheres nas sociedades diz respeito, sobretudo nas sociedades do comummente denominado Ocidente, interrogamo-nos ainda perante práticas selváticas como a da violência doméstica e os assassínios de esposas e companheiras que perfazem, no nosso país algumas dezenas por ano, sem contar com as tentativas de homicídio que não chegam a provocar a morte, mas originam brutais lesões físicas e psíquicas. A realização profissional sai muitas vezes prejudicada e até abandonada devido às tarefas familiares, que muito lentamente começaram a ser partilhadas pelo elemento masculino do casal. De notar que as próprias mulheres tardam em reconhecer estas candentes questões de género e não se obstinam em mudar os modelos arcaicos que herdaram das mães e avós e prolongam nos filhos e na auto-estima, que reduzem apenas às proporções da silhueta, as segregações de género em que foram educadas. No mundo islâmico a condição feminina é deplorável, desde as burkas e outras peças de vestuário obrigatórias, até às mutilações genitais de meninas, aos casamentos encomendados pela família ou às sentenças de morte pelo crime de violação de que foram as vítimas. Casos recentes desde a Nigéria ao Paquistão têm sido notícia e motivo de pedidos de clemência por parte de organizações internacionais de Direitos Humanos. O flagelo das violações, em muitas zonas do Planeta, foi ultimamente posto em evidência pelo horrendo episódio indiano, em que uma jovem estudante foi vítima de um grupo de estupradores, dentro de um autocarro, incluindo o próprio motorista.

Para terminar esta breve evocação da situação actual das mulheres, no mundo, terá porventura algum interesse lembrar aqui a figura de Carlota Beatriz Ângelo (1871-1911), nascida na Guarda, onde há uma escola com o seu nome, que foi a primeira eleitora portuguesa e das primeiras da Europa. Licenciada em Medicina pela Escola Politécnica de Lisboa, conseguiu mercê do veredicto de um tribunal, o direito a votar para a Assembleia Constituinte, em 1911, direito só atribuído aos cidadãos chefes de família, que soubessem ler e escrever. Como Carlota estava viúva e era mãe, foi possível apresentar-se como chefe de família e assim poder votar após larga controvérsia. Porém, logo no ano seguinte a lei foi modificada, não fosse o diabo tecê-las e foi aposto no texto legal aos ditos cidadãos “do sexo masculino”. O sufrágio universal, a que iriam ter acesso todas as mulheres portuguesas, só se concretizou após a revolução de 25 de Abril, de 1974. Tinham passado mais de 60 anos.

Março de 2013
Inês Lourenço

domingo, 24 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Vasco Graça Moura

sobre a minha cidade

sobre a minha cidade, falei-te ontem mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.

in "visto da margem sul do rio - o porto", Porto, Modo de Ler 2012.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mamografia de Mármore

in Expresso - Caderno de Economía, 26 de Janeiro 2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

José Ángel Cilleruelo

PRESENTACIÓN DE BARCELONA 08009

Cómo se aburriría entre nosotros
Rimbaud. Sin su melena, su pipa,
sin un talud al borde del caminho
donde echarse a dormir, nos saludamos.

Oficia el viejo sacerdote, ateo
por desmemoria, de la poesía.
Café del Centro, calle de Girona
sesenta y nueve. Junio ensucia y afea.

Qué nos haría hermanos de Rimbaud?
Envejecemos muy despacio, en calma.
Nadie nos amenaza en el asilo

de malos editores y ninguna
reseña. Pero nos queremos mucho,
porque, muerto Rimbaud, no queda vida.

in MALEZA (Cilclo completo 1990-2010), pág. 204
HUACANAMO, Barcelona.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Avacalhamentos

     Há algumas diferenças entre boçalidades e vernáculo. No programa de entretenimento, de uma das nossas estações televisivas, a famigerada "Casa dos Segredos", só da mais repelente boçalidade se trata. Sim, porque umas vernáculas caralhadas ou exclamativos "foda-se", usam-se na melhor literatura. Mas, aquela insistência badalhoca de falar constantemente em "por cima e por baixo", se os concorrentes estão, ó suprema epifania, encaixar-se debaixo dos edredons é de vómitos, reduzindo as pessoas a microcéfalos apenas com existência da cinta para baixo. Recuso-me a admitir, que aquela gentinha rasca, tem alguma coisa a haver com uma desejável juventude portuguesa. Engalanar os corpos, bem despidinhos e depilados, sem cuidar de outras características do humano é uma orientação horrenda e condenável, sobretudo se se trata de um programa de larga audiência, visto por pré-adolescentes e crianças.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

7 de Janeiro de 1355

Faz hoje 658 anos que foi

executada Inês de Castro

por ordem de Dom Afonso IV




Episódio da linda Inês


Passada esta tão próspera vitória,

Tornado Afonso à Lusitana Terra,

A se lograr da paz com tanta glória

Quanta soube ganhar na dura guerra,

O caso triste e dino da memória,

Que do sepulcro os homens desenterra,

Aconteceu da mísera e mesquinha

Que despois de ser morta foi Rainha.



Tu, só tu, puro amor, com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga,

Deste causa à molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que a sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.



Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuito,

Aos montes insinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.



Do teu Príncipe ali te respondiam

As lembranças que na alma lhe moravam,

Que sempre ante seus olhos te traziam,

Quando dos teus fernosos se apartavam;

De noite, em doces sonhos que mentiam,

De dia, em pensamentos que voavam;

E quanto, enfim, cuidava e quanto via

Eram tudo memórias de alegria.



De outras belas senhoras e Princesas

Os desejados tálamos enjeita,

Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,

Quando um gesto suave te sujeita.

Vendo estas namoradas estranhezas,

O velho pai sesudo, que respeita

O murmurar do povo e a fantasia

Do filho, que casar-se não queria,



Tirar Inês ao mundo determina,

Por lhe tirar o filho que tem preso,

Crendo co sangue só da morte ladina

Matar do firme amor o fogo aceso.

Que furor consentiu que a espada fina,

Que pôde sustentar o grande peso

Do furor Mauro, fosse alevantada

Contra hûa fraca dama delicada?



Traziam-na os horríficos algozes

Ante o Rei, já movido a piedade;

Mas o povo, com falsas e ferozes

Razões, à morte crua o persuade.

Ela, com tristes e piedosas vozes,

Saídas só da mágoa e saudade

Do seu Príncipe e filhos, que deixava,

Que mais que a própria morte a magoava,



Pera o céu cristalino alevantando,

Com lágrimas, os olhos piedosos

(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando

Um dos duros ministros rigorosos);

E despois, nos mininos atentando,

Que tão queridos tinha e tão mimosos,

Cuja orfindade como mãe temia,

Pera o avô cruel assi dizia:



(Se já nas brutas feras, cuja mente

Natura fez cruel de nascimento,

E nas aves agrestes, que somente

Nas rapinas aéreas tem o intento,

Com pequenas crianças viu a gente

Terem tão piedoso sentimento

Como co a mãe de Nino já mostraram,

E cos irmãos que Roma edificaram:



ó tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar hûa donzela,

Fraca e sem força, só por ter sujeito

O coração a quem soube vencê-la),

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela;

Mova-te a piedade sua e minha,

Pois te não move a culpa que não tinha.



E se, vencendo a Maura resistência,

A morte sabes dar com fogo e ferro,

Sabe também dar vida, com clemência,

A quem peja perdê-la não fez erro.

Mas, se to assi merece esta inocência,

Põe-me em perpétuo e mísero desterro,

Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,

Onde em lágrimas viva eternamente.



Põe-me onde se use toda a feridade,

Entre leões e tigres, e verei

Se neles achar posso a piedade

Que entre peitos humanos não achei.

Ali, co amor intrínseco e vontade

Naquele por quem mouro, criarei

Estas relíquias suas que aqui viste,

Que refrigério sejam da mãe triste.)



Queria perdoar-lhe o Rei benino,

Movido das palavras que o magoam;

Mas o pertinaz povo e seu destino

(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.

Arrancam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,

Feros vos amostrais e cavaleiros?



Qual contra a linda moça Polycena,

Consolação extrema da mãe velha,

Porque a sombra de Aquiles a condena,

Co ferro o duro Pirro se aparelha;

Mas ela, os olhos, com que o ar serena

(Bem como paciente e mansa ovelha),

Na mísera mãe postos, que endoudece,

Ao duro sacrifício se oferece:



Tais contra Inês os brutos matadores,

No colo de alabastro, que sustinha

As obras com que Amor matou de amores

Aquele que despois a fez Rainha,

As espadas banhando e as brancas flores,

Que ela dos olhos seus regadas tinha,

Se encarniçavam, fervidos e irosos,

No futuro castigo não cuidosos.



Bem puderas, ó Sol, da vista destes,

Teus raios apartar aquele dia,

Como da seva mesa de Tiestes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia !

Vós, ó côncavos vales, que pudestes

A voz extrema ouvir da boca fria,

O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,

Por muito grande espaço repetistes.



Assi como a bonina, que cortada

Antes do tempo foi, cândida e bela,

Sendo das mãos lacivas maltratada

Da minina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está, morta, a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas e perdida

A branca e viva cor, co a doce vida.



As filhas do Mondego a morte escura

Longo tempo chorando memoraram,

E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transformaram.

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês, que ali passaram.

Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água e o nome Amores.   


  Camões, Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135

(Gama conta ao rei de Melinde a História de Portugal- e aí se insere o episódio da linda Inês)

         

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A árvore de Natal tardia

Aquele canto do corredor continuava ornamentado com o pinheiro artificial, as bolas douradas, os sininhos mais a cena pastoril do estábulo de há dois mil anos. Merda de Festas, que têm de começar pelos adereços e não por uma vontade de comemorar seja o que for. Não era a  primeira vez que chegava ao Carnaval sem desarmar a tenda dos enfeites natalícios.  Arlindo já tinha pensado, várias vezes, em anos anteriores, porque raio não se podia fazer o Natal de quatro em quatro anos como os Jogos olímpicos ou os anos bissextos. Era um descanso para tanta gente e tornaria o evento desejado e não um cumprimento de rituais penosos, que se têm de transmitir às gerações mais novas para poderem acompanhar o rebanho. É certo que quando os miúdos nasceram e havia um choro de recém-nascido em casa, pelo Natal, vinha à cabeça uma espécie de quebranto e de amolecimento, como quando somos pequenos e alguém nos entoa uma canção para adormecer e esconder o mundo cheio de repressões e aprendizagens estúpidas que nos aguarda no dia seguinte. Assim rememorando, Arlindo voltou à cozinha, tirou uma mini do frigorífico e ligou a televisão para ouvir o telejornal e adormecer na cadeira perante as crises e cataclismos globais.

Inês Lourenço

in  ephemeras