PRESENTACIÓN DE BARCELONA 08009
Cómo se aburriría entre nosotros
Rimbaud. Sin su melena, su pipa,
sin un talud al borde del caminho
donde echarse a dormir, nos saludamos.
Oficia el viejo sacerdote, ateo
por desmemoria, de la poesía.
Café del Centro, calle de Girona
sesenta y nueve. Junio ensucia y afea.
Qué nos haría hermanos de Rimbaud?
Envejecemos muy despacio, en calma.
Nadie nos amenaza en el asilo
de malos editores y ninguna
reseña. Pero nos queremos mucho,
porque, muerto Rimbaud, no queda vida.
in MALEZA (Cilclo completo 1990-2010), pág. 204
HUACANAMO, Barcelona.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Avacalhamentos
Há algumas diferenças entre boçalidades e vernáculo. No programa de entretenimento, de uma das nossas estações televisivas, a famigerada "Casa dos Segredos", só da mais repelente boçalidade se trata. Sim, porque umas vernáculas caralhadas ou exclamativos "foda-se", usam-se na melhor literatura. Mas, aquela insistência badalhoca de falar constantemente em "por cima e por baixo", se os concorrentes estão, ó suprema epifania, encaixar-se debaixo dos edredons é de vómitos, reduzindo as pessoas a microcéfalos apenas com existência da cinta para baixo. Recuso-me a admitir, que aquela gentinha rasca, tem alguma coisa a haver com uma desejável juventude portuguesa. Engalanar os corpos, bem despidinhos e depilados, sem cuidar de outras características do humano é uma orientação horrenda e condenável, sobretudo se se trata de um programa de larga audiência, visto por pré-adolescentes e crianças.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
7 de Janeiro de 1355
Faz hoje 658 anos que foi
executada Inês de Castro
por ordem de Dom Afonso IV
Episódio da linda Inês
Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.
Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fernosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte ladina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hûa fraca dama delicada?
Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia:
(Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:
ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar hûa donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem peja perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.)
Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?
Qual contra a linda moça Polycena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:
Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, fervidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia !
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.
Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.
Camões, Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135
(Gama conta ao rei de Melinde a História de Portugal- e aí se insere o episódio da linda Inês)
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
A árvore de Natal tardia
Aquele canto do corredor continuava ornamentado com o pinheiro artificial, as bolas douradas, os sininhos mais a cena pastoril do estábulo de há dois mil anos. Merda de Festas, que têm de começar pelos adereços e não por uma vontade de comemorar seja o que for. Não era a primeira vez que chegava ao Carnaval sem desarmar a tenda dos enfeites natalícios. Arlindo já tinha pensado, várias vezes, em anos anteriores, porque raio não se podia fazer o Natal de quatro em quatro anos como os Jogos olímpicos ou os anos bissextos. Era um descanso para tanta gente e tornaria o evento desejado e não um cumprimento de rituais penosos, que se têm de transmitir às gerações mais novas para poderem acompanhar o rebanho. É certo que quando os miúdos nasceram e havia um choro de recém-nascido em casa, pelo Natal, vinha à cabeça uma espécie de quebranto e de amolecimento, como quando somos pequenos e alguém nos entoa uma canção para adormecer e esconder o mundo cheio de repressões e aprendizagens estúpidas que nos aguarda no dia seguinte. Assim rememorando, Arlindo voltou à cozinha, tirou uma mini do frigorífico e ligou a televisão para ouvir o telejornal e adormecer na cadeira perante as crises e cataclismos globais.
Inês Lourenço
in ephemerassegunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Bach - Magnificat, Es-dur, BWV 243a (First Version, 1723)
Johann Sebastian Bach (1685~1750) Magnificat, Es-dur, BWV 243a (First Version, 1723) Amsterdam Baroque Orchestra & Choir. Ton Koopman (conductor)
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Manuel de Freitas
INVENTÁRIO PLEBEU
para o José Miguel Silva
é que tivemos muito pouca sorte
com os poetas (?) nossos contemporâneos.
Um nasceu em Galveias e tatua-se
ou alfineta-se para disfarçar um vazio evidente;outro gosta de andar nu em Braga,
muito depois - e aquém - de qualquer Pacheco.
(Ignoram, ambos, que a única pila maior
do que o mundo era a do João César Monteiro.)
Um terceiro, cujo nome nunca escreverei,
é a mulher moderna da ediçãoàs cegas e da sacanice quotidiana. O quarto
e o quinto (gabo quem os logra distinguir)
arrotam melancolia e não admitem
o mínimo desvio à sacrossanta transfiguração da lírica.
Consola-nos, isso sim, saber que uns se tornaram
entretanto romancistas (pilim,pilim), e que os restanteshão-de ser, muito em breve, ministros
ou somente pulhas (é, no fundo, a mesma coisa).
Enquanto, de esgoto em esgoto,
Portugal progride a olhos vistos
e é bem capaz de levar, um dia destes,
com outro Nobel nas trombas.in CÓLOFON, Manuel de Freitas, pág.27, FAHRENHEIT 451, Lisboa 2012.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Manoel de Oliveira (Porto, Cedofeita, 11 de Dezembro de 1908)
1942 - aniki bobó
«Aniki-Bóbó» estreou a 18 de Dezembro de 1942 no cinema Eden, Lisboa. Intérpretes: Nascimento Fernandes - Lojista; Fernanda Matos - Teresinha; Horácio Silva - Carlitos; António Santos - Eduardinho; António Pereira - Batatinhas; Vital dos Santos - Professor; António Morais Soares - Pistarim; Feliciano David - Pompeu; Realização - Manoel de Oliveira.
2012 – O Gebo e a Sombra (Trailer)
«Aniki-Bóbó» estreou a 18 de Dezembro de 1942 no cinema Eden, Lisboa. Intérpretes: Nascimento Fernandes - Lojista; Fernanda Matos - Teresinha; Horácio Silva - Carlitos; António Santos - Eduardinho; António Pereira - Batatinhas; Vital dos Santos - Professor; António Morais Soares - Pistarim; Feliciano David - Pompeu; Realização - Manoel de Oliveira.
2012 – O Gebo e a Sombra (Trailer)
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Fernando Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de novembro de 1935
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
O que me falha ou
finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!
Fernando Pessoa
![]() |
| por Almada Negreiros |
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Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é
igual aos deuses.
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