terça-feira, 27 de novembro de 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

EPHEMERAS

COISAS QUE SE FAZEM DE PÉ

Gervásio resolveu pensar nas coisas que se podiam fazer de pé, sentado ou deitado. De pé, podia-se fazer quase tudo; até dormir, pois tinha visto umas litografias antigas, onde, num albergue de mendicidade, havia uma grossa corda suspensa de um lado a outro, para os mendigos passarem a noite, apoiando os sovacos. Afinal, quase tudo se podia fazer de pé, desde uma honesta mijadela até uma rapidinha ocasional. Também já vira carteiros, polícias e cobradores a escreverem de pé, na rua. E até já frequentara umas aulas super-lotadas, em que os alunos tomavam apontamentos de pé. Também assim se exercia a maioria dos ofícios e trabalhos agrícolas, se tocavam vários instrumentos, se dançava. Mas, pensando melhor, quando um gajo tem azares, até se faz tudo de outras maneiras. Deitado. Sentado. Recostado. E fazem-se coisas sonhadas, imaginadas. Sonhar e imaginar, dizem alguns, são acções. Mexem. Coisa batida, bahhh! Mas, dá jeito acreditar nisso, ao menos, de vez em quando… Assim pensava, ao colo da companheira. A cadeira ortopédica.

(pág.28)

PRECIPÍCIO

Quando o solista se precipita nas teclas como um ser arremessado aos abismos, está envolto na circunstância incerta a que se chama virtuosismo. Esta permite-lhe pôr a técnica laboriosamente entretecida no corpo desde a infância, como suporte da densidade das emoções com que nos vai contagiando. Quando num prestíssimo ou numa coda rutilante de velocidade e percussão melódica ou pós-melódica os meus olhos se fixam na figura frágil do intérprete na sua miraculosa performance, experimento sempre, por osmose, aquele frisson do trapezista antes do triplo salto ou do esquiador em descendente trilho. As palmas e os bravos são a catarse necessária e desejável. Numa sala de concertos pode assistir-se ao que não se assiste na vida. Finais felizes.

(pág.32)

Ed. Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Outubro 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Balada da Bola de Berlim

Que bem sabiam
as bolas de Berlim
das antigas pastelarias de bairro
no regresso a pé das aulas, saboreadas
ao balcão sem lavar as mãos. Nesse
tempo não havia meninos obesos.
Não sei se era de termos lombrigas
ou de andarmos a pé ou
jogarmos ao mata no recreio ou
porque ser criança ainda era
um estado de obediência a tudo
que medisse mais que nós, fosse
irmão mais velho, catequista ou
tio analfabeto.


Hoje visita-nos uma bola de Berlim chamada
ângela,
que nos traz o amargor da sujeição e da
obediência. Somos de novo crianças
colonizadas pelos grandes ou
seja os mais crescidos em estratégia usurária
em território, em haveres do sub-solo. O servo
que a nossa indigência mental
erigiu em primeiro-ministro mostra os canhões prussianos
à poderosa bola de Berlim
que olha com ares imperialistas
a nossa costa atlântica.


Só te perdoo Alemanha
por seres o país de
Goethe, Beethoven, Nietzsche, Rilke e de tantos
outros génios
que certamente desprezariam esta tua chanceler.


Inês Lourenço

(12:nov:2012)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Duetto buffo di due gatti (Rossini)

 
Montserrat Caballé e Concha Velasco

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A.M. Pires Cabral

CÃES QUE BRINCAM

I

Dois cães brincam na relva.

Disputam entre si, como se fosse
um apetecido despojo de batalha,
um trapo que um deles descobriu algures.

Um trapo que a seu tempo foi julgado inútil
e jogado fora - mas que, como se vê,
tem afinal enorme utilidade.


II

Os cães são ainda muito jovens
e pouco experientes. Fazem da posse
do trapo velho uma questão de honra,
e não sabem
que não é realmente com um trapo
mas sim com a vida-ela-mesma
que estão a brincar, quando se roubam
com ardor o trapo e correm estouvados
com ele nos dentes, embatendo nas coisas.

Ou será que acham que
vida e trapo são uma coisa só?


III


Há nos cães que brincam,
que arruaçam e arremetem
e rosnam e sacodem entre os dentes
um trapo que pelos vistos não é
um trapo simplesmente -

há neles um equívoco que convém desfazer.

Eles não brincam com um trapo.
Nem tão-pouco com a vida,
como acima se disse precipitadamente.
Visto tudo a frio, nem sequer
se pode dizer que brinquem.

A vida, sim, essa é que brinca neles
até se cansar deles e os pôr de lado.


in Cobra-D'água, Livros Cotovia, Lisboa 2011

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Anna Netrebko & Daniel Barenboim


Romances Russes  (II - Rimski-Korsakov)
Berlin, 29 de março de 2010



Nicolai Rimski-Korsakov:

.Redeyet oblakov letuchaya gryada op. 42 Nr. 3
.Nimfa op. 56 Nr. 1
.Son v letnyuyu noch op. 56 Nr. 2

 Anna Netrebko (soprano)

Daniel Barenboim (piano)

Berlim, 29 de março de 2010

 


sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943 - 2012)




ESPLANADA


 Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

 agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

 O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.

  Manuel António Pina


Cecília Bartoli, casta diva

terça-feira, 16 de outubro de 2012