terça-feira, 18 de setembro de 2012
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Elegia para um dia inicial
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.” Esperavas aquela madrugada do dia inicial, inteiro e limpo. Contigo esperavam milhões de vidas reprimidas, emigrações a salto, vítimas de toda a caterva de leis iníquas, perversamente retorcidas para limitarem consciências e horizontes. Contigo esperavam os colonizados mais antigos do século, os jovens estropiados, os desertores conscientes, os que seriam mobilizados, os que ainda iriam nascer. Largas estantes de livros censurados, quilómetros de película por projectar nos ecrás, beijos e abraços por dar nas ruas, clamores em uníssino nas praças. Abriram-se, de novo, os sítios de debate, sinistramente fechados e o direito de ser laico, humano e provisório, liberto de todos os pecados originais de ter nascido.
Ainda bem, Sophia, que já não podes assistir a esta lepra que garrotou a nossa nova noite e este ruído de chacais e abutres que invade foruns e parlamentos, os velhos areópagos da nação. Uma nova tirania nos sufoca, com novos súbditos dela a aniquilar o povo. Leio e releio, sei decor o teu poema. Já não creio num outro dia inicial. Mas ainda acredito que virás buscar os momentos que não passaste ao pé do mar e que nos cabe a nós que esse teu e nosso mar de navegações e naufrágios seja de novo o limite líquido de uma nação, onde possamos livres habitar a substância do tempo.
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Elegia para um país
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
JEAN-CLAUDE RISSET / Sofia Lourenço, piano
Duos pour une pianiste
(8 Sketches+ 1 World Premiere) - Part 2
NOTA:
Eight sketches: duet for one pianist This is probably the first piano "duet" for a single pianist: in addition to the pianist's part, a second part is played on the same piano - an acoustic piano, with keys, strings and hammers - by a computer which follows the pianist's performance. This requires a special piano - here a Yamaha Disklavier - equipped with MIDI input and output. On this piano, each key can be played from the keyboard, but it can also be activated by electrical signals: these signals trigger motors which actually depress or release the keys. Each key also sends out information as to when and how loud it is played. The information to and from the piano is in the MIDI format, used for synthesizers. A Macintosh computer receives this information and sends back the appropriate signals to trigger the piano playing: the programming determines in what way the computer part depends upon what the pianist plays. In these eight sketches, I have tried to explore and demonstrate different kinds of live interaction between the pianist and the computer.
1. Double.
2. Mirrors.
3. Extensions.
4. Fractals.
5. Stretch.
6. Resonances.
7. Up Down.
8. Metronomes. This "duet for one pianist" was realized in 1989 as I was was composer in residence in the Music and Cognition Group, Media Laboratory; M.I.T., thanks to a grant of the Massachusetts Council of the Arts. It was implemented with the real-time program MAX written by Miller Puckette at M.I.T. and at IRCAM. I acknowledge the highly dedicated and competent help of Scott Van Duyne.
The sketches, recorded by Jean-Claude Risset at MIT, appear on CD "Electro-Acoustic Music III", Neuma 450-87 (with works by Saariaho, Karpen, Nelson & Fuller). Jean-Claude RISSET
WORLD PREMIERE_ REFLECTIONS (9th Sketch)
ded. to Sofia Lourenço
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Manuel de Freitas - JUKEBOX 3
PHILIPPE HERREWEGHE, 2010
Chovia muito, mas não serei eu a afirmar
que as últimas notas (Lux aeterna)
faziam da própria morte uma certeza branda.
Até porque a dor impediu um amigo meu
de sair esta noite, até porque sabemos todos que
o amor não é, infelizmente, a única doença incurável.
Nisso, pelo menos, concordamos os três com Mozart (e com Leonard Cohen). Quase nem parecemos tristes,
saltando de poça em poça, esperando como única estrela
a luz verde de um táxi qualquer em que possamos,
de mãos dadas, esquecer os pecados deste mundo.
Teatro de Vila Real Edição, 2012.
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domingo, 5 de agosto de 2012
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
O Território do claro-escuro
(Colhido aqui: http://www.nocentrodoarco.blogspot.pt/)
Acaba de ser publicada no México em Junho de 2012, pelas Ediciones Libera, a antologia de poesia portuguesa contemporânea, "Cortei a laranja em duas", organizada e traduzida por Fernando Reyes, professor na UNAM - Universidade Nacional Autónoma do México e que, com bastante satisfação, tenho o prazer de integrar .
A antologia inclui poemas de onze autores portugueses (Maria do Rosário Pedreira, Ruy Ventura, João Rasteiro, Fernando Aguiar, Inês Lourenço, Aurelino Costa, Pedro Ribeiro, Alexandre Nave, Filipa Leal, Américo Teixeira e José Rui Teixeira). O prefácio é de Jesús Gómez Morán.
Neste, afirma o autor: (…) “a cultura portuguesa caracteriza-se por ser o oposto da brasileira. Se, grosso modo, o temperamento polícromo e alegre é claramente brasileiro, o lusitano tem como qualidades intrínsecas o claro-escuro e a melancolia. Penso, por exemplo, na poesia de Pessoa, cuja figura enorme seria capaz de eclipsar qualquer nome: poeta com a altura de Eliot e de Pound na língua inglesa e de Octavio Paz e Neruda em espanhol, o seu impacto (juntamente com o de Mário de Sá-Carneiro) é tão evidente que a sua sombra caiu praticamente sobre todos os autores portugueses dos períodos posteriores, a tal ponto que explorar o seu contributo lírico se transformou num repto difícil mas iniludível.
(…) Quando se pensa nas conexões culturais existentes entre Portugal e México, é possível aceitar que a poesia lusa foi reinventada em 1888, ano do nascimento de Fernando Pessoa. Além disso, esse temperamento taciturno e saudoso parece gémeo do meio-tom, dessa nota crepuscular que caracteriza, por sua vez, a poesia Mexicana, pela voz do seu autor mais representativo nesse período, Ramón López Velarde. Logo, o que se aplica a um poeta pode ser válido para o outro, e o nosso conhecimento das letras e da cultura portuguesa, além desse temperamento, não manifestou em todo este tempo um eixo ou um acontecimento particular que as tenha vinculado.
(…) Estas ligações não passariam muito tempo despercebidas e Pessoa haveria de ser analisado, principalmente por Octavio Paz, e traduzido profusamente por Francisco Cervantes, a quem devemos, além disso, a publicação póstuma da antologia Cara Lusitana, editada pelo Instituto de Cultura Queretano (2010), cuja lista se compõe de nomes posteriores a Pessoa e a Sá-Carneiro: Adolfo Casais Monteiro, Raul de Carvalho, Luiza Neto Jorge, Manuel Gusmão, Miguel Torga, Fiama Hasse Paes Brandão, Vitorino Nemésio, Eugénio de Andrade, Alberto de Lacerda, António Osório, Fernando Guimarães e outros. Essa abordagem a esta etapa da lírica portuguesa teve, contudo, pelo menos mais duas antologias prévias. Uma foi preparada por Fernando Pinto do Amaral, Antología de la poesía portuguesa contemporânea, publicada pela UNAM (1997), e a outra foi dada a estampa pela editora madrilena “Hiperión”, Portugal: la mirada cercana (2001). Em qualquer delas, o rol de poetas incluídos anda muito próximo da supracitada Cara Lusitana.
Apesar disto, já se notava a necessidade de uma incursão pelas vozes lusitanas mais recentes, lacuna que a actual antologia preparada e traduzida por Fernando Reyes vem colmatar. O leitor terá oportunidade de tirar as suas próprias conclusões, mas quanto a mim a característica mais relevante que posso destacar desta nova empresa compiladora é a tensão estabelecida entre tradição e inovação nos autores selecionados. Nota-se, desde logo, a aparição do temperamento taciturno antes mencionado, a saudade nascida ante a contemplação do mar (com clara índole sebastianista), o espirito órfico herdado de Fernando Pessoa e da sua geração, ao lado de continuas referências intertextuais e das definições da função que o poeta deve assumir, como nestes versos de Inês Lourenço: “habitar um planeta / de versos suicidas / é o primeiro ofício do poeta”. Em união com estes traços, verifica-se uma inquietude experimental que dinamiza a expressão lírica, tanto em poemas dialogados de forma tal que se aproximam bastante da heteronímia (como é o caso de Ruy Ventura), quanto noutros com versos tao breves que parecem enformar linhas verticais (como sucede com Fernando Aguiar). Apesar disso, há poetas como João Rasteiro em cuja obra se unificam a tendência experimental, quando publica poemas em prosa (com versos praticamente justapostos), e a tendência tradicional, quando escreve em tercetos medidos.
Ao analisar o temperamento do romantismo, Octavio Paz traçou dois enfoques primordiais: a analogia e a ironia. E é este segundo elemento o que emprega Fernando Aguiar para rasgar o véu melancólico da tradição poética lusitana. Isto acontece quando descreve algo aplicável tanto na operação de uma torre aéreo-portuária quanto na composição de um texto literário: “para quem julga que estou a / exagerar, não diga apenas que / não há dúvida que está realme / nte mesmo cada vez mais um / ito difícil. nem que está d / ificílimo. está dificilíssimo” E certamente, “ não há dúvida”. Por mais difícil que pareça, neste caso, estender uma ponte sobre este território poético marcado pelos contrastes de um claro-escuro, existem dois pontos salientes: estamos diminuindo a distância que nos afastava da poesia portuguesa contemporânea e, paulatinamente, essa tradição vai mostrando evidentes signos de regeneração (que, ao fim de contas, é um postulado de ascendência órfica) e frescura lírica.
Jesús Gómez Morán
(Tradução: Ruy Ventura)
terça-feira, 31 de julho de 2012
Agosto amanhã?
De hoje a um ano, como estará a Europa, a união a 27, o Euro, este país Portugal e a vida dos onze milhões que habitam neste rectângulo? Como estará o ensino, a saúde pública, as derrapagens salariais, o desemprego, o previsivel aumento até ao delírio da carga fiscal que reduz a classe média à circusntância de quase penuria? Quantas mais árvores e casas vão ficar carbonizadas, sem se encarar de frente o facto de que pirómanos analfabetos ou débeis mentais devem ter mandantes interessados numa provável "indústria de fogos"? E tantas interrogações nos ocorrem em tropel neste dealbar de Agosto. Entretanto, os portugueses que elegeram este governo estão a ter a paga merecida, pela credulidade com que se eludiram acerca de jótinhas, seus patrocinadores e outras personagens que povoam actualmente a cena política. Verificado já o logro, que foi culpar o ex-primeiro ministro de todos os males da nação e arredores. Porém, aqueles que estavam cientes da cena internacional e da rapina usurária das instâncias financeiras, não se deixaram eludir e não votaram neles. Este, não será um dos pontos fracos da tão glorificada Democracia? Haver uma maioria de interesses económicos matreiros somada à pouca instrução e muita ignorância que instala no governo de um país uns servis mandatários às ordens da usura financeira dos intitulados mercados? "Ir para além da troika", aumentando os iva(s) à restauração, cortando subsídios, comprometendo gravemente o consumo e os pequenos empresários e por via disso diminuir a receita fiscal é governar pessimamente um país em crise económica. E convém não esquecer as histórias mal contadas das público-privadas, de BPN, privatizações escuras, submarinos e outros sorvedouros. Não é preciso ser economista para perceber isto. O resto, o grande resto prevê-se triste: o ensino superior, as universidades, a investigação, etc, ou seja, tudo que faz a diferença entre um país de mentes esclarecidas ou de meros empregados de turismo da Europa.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Corté la naranja en dos
Esta antologia de poesia portuguesa contemporânea, "Cortei a laranja em duas", acaba de ser publicada no México em Junho de 2012, pelas Ediciones Libera, organizada e traduzida por Fernando Reyes. Inclui poemas de onze autores portugueses (Maria do Rosário Pedreira, Ruy Ventura, João Rasteiro, Fernando Aguiar, Inês Lourenço, Aurelino Costa, Pedro Ribeiro, Alexandre Nave, Filipa Leal, Américo Teixeira e José Rui Teixeira). O prefácio é de Jesús Gómez Morán.
Versos Suicidas
Os verdadeiros versos suicidas, não
induzem a um tempo desistente
ou à indiferença ou à insuportável náusea
de existir, mas são deveras aqueles
que apesar de reescritos várias vezes,
desapareceram
atirados para qualquer receptor de
detritos,
que agora se diz: pasta de reciclagem.
Habitar um planeta
de versos suicidas
é o primeiro ofício do poeta.
Inês Lourenço página 23 ( inédito).
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quarta-feira, 25 de julho de 2012
José Ángel Cilleruelo
A CASA
Verão livros amontoados e sem ordem.
Muito lidos, os romances de Joaquín Belda
Assustarão a alguém. Não vão achar diário
Nem sublimes escritos com intimidades.
Não há quadros no quarto. Não há outra ilusão
Além de uma esferográfica que ainda escreva,
Um envelope, um selo... E quando procurarem cartas
Apenas verão velhos recortes de jornal.
Os cadernos que me ofereceram em Málaga.
Péssimas fotografias de família. Onze
Versos casuais de um soneto inexistente.
E um feixe de razões para o esquecimento.
Quando abandonar a casa o último dia
Pouca vida mais nela encontrarão.
trad. de Joaquim Manuel Magalhães.
in Hífen 9 - Poesia Hispânica, Porto, Setembro de 1995.
Verão livros amontoados e sem ordem.
Muito lidos, os romances de Joaquín Belda
Assustarão a alguém. Não vão achar diário
Nem sublimes escritos com intimidades.
Não há quadros no quarto. Não há outra ilusão
Além de uma esferográfica que ainda escreva,
Um envelope, um selo... E quando procurarem cartas
Apenas verão velhos recortes de jornal.
Os cadernos que me ofereceram em Málaga.
Péssimas fotografias de família. Onze
Versos casuais de um soneto inexistente.
E um feixe de razões para o esquecimento.
Quando abandonar a casa o último dia
Pouca vida mais nela encontrarão.
trad. de Joaquim Manuel Magalhães.
in Hífen 9 - Poesia Hispânica, Porto, Setembro de 1995.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
El balcon en frente - J. A. Cilleruelo
http://elbalconenfrente.blogspot.com.es/2012/06/la-poetica-oracular-de-ines-lourenco.html
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