segunda-feira, 7 de maio de 2012

Au revoir petit Sarko



A França é sempre a França. País de gente como Pascal, Proust, Camus, Sartre, S. de Beauvoir, Rimbaud, Cézanne, etc, etc...

Vive la France!!!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

GRITOS



É de uma ironia devastadora ver um ícone artístico do sofrimento e angústia humanos render a um anónimo (humano ?) uma quantia obscena. Faça-se uma consulta rápida à biografia do pintor e às circunstâncias da criação da obra e é caso para nos interrogarmos acerca das reais e actuais finalidades da Arte

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ladrador



Homem do Lixo


O último a chegar à festa tem
como castigo varrer o lixo,
o subproduto da embriaguez
organizada. Náo é justo nem
injusto, é a lei dos retardatários.

A essa hora já os gastos foliões
mergulham no sono que se segue
a toda a felicidade, cientes
de que irão acordar ressacados
mas contentes por terem feito tudo
o que era humanamente possível
para se divertirem uma última vez.

Sozinho no recinto, o retardatário
dança com a sua vassoura,
recolhe sobriamente os detritos
a exaltação - preservativos,
cartazes, garrafas vazias -
e consola-se com a mentira
de ter sido poupado à desilusão.


Findo o trabalho, tem ainda tempo
para se apiedar dos vindouros,
que da festa não terão sequer notícia,
que nunca poderão participar
sequer remotamente em algo
tão aparentado com a esperança.


José Miguel Silva
In Ladrador, pág. 37, Edições Averno, Lisboa, 2012.
Nota: Integram esta edição da Averno os seguintes poetas: Ana Paula Inácio; Diogo Vaz Pinto; João Almeida; Jorge Roque; Manuel de Freitas; Miguel Martins; Rui Baião; Rui Nunes; Rui Pires Cabral e Vitor Nogueira. 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Relâmpago - Revista de Poesia - Nº 28


DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS




Não sei, meu amigo, o que

irradiava mais calor, se

a chávena escaldada, se

o cimbalino fervente, se

as conversas sobre livros de poesia

que nesse tempo, ainda

acreditávamos ser a maior

razão



Curto, normal, cheio

o cimbalino, esse negro odor

com moldura branca

numa mesa de café, na cidade

onde habitávamos desde sempre.



I.L.


In 7 Poemas, pág. 168.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Abrir Abril




Era esta a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio


E livres habitamos a substância do tempo.

SMBA

sábado, 21 de abril de 2012

Festival Black & White

De 18 a 21 de Abril de 2012, a Escola das Artes da Universidade Católica no Porto volta a abrir portas à estética a duas cores. A 9ª edição do Festival Audiovisual Black & White, que recebe vídeos, áudio e fotografias a preto e branco, levará a competição obras provenientes dos 4 cantos do mundo.


Com características únicas a nível mundial, a iniciativa nasceu da necessidade de responder a uma crescente sensibilidade do público para a especificidade do preto e branco, abandonando o preconceito que relaciona esta estética com obras dos primórdios do cinema.

Além da aposta em vídeos e fotografias a duas cores, o festival estimula igualmente a criação de ambientes sonoros que remetam para o "preto e branco".

Ao longo de quatro dias, para além das competições, serão levadas a cabo diversas actividades ligadas ao mundo audiovisual, desde artist talks, screenings, até extensões de outros festivais internacionais. As noites serão também animadas com um programa cultural paralelo.

Dia 21 de Abril
Festival B&W - Closing ceremony
Soirée - Concert Jean-Claude Risset ()
21:45 - "Duos pour un(e) pianiste" - Jean-Claude Risset
Piano: Sofia Lourenço
Live electronics: André Perrotta & Samuel Van Ransbeeck




quarta-feira, 18 de abril de 2012

POESIA & RESISTÊNCIA






[Resposta ao inquérito sobre Poesia e Resistência realizado por Ana Luísa Amaral, Joana Matos Frias, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo para a LyraCompoetics]


INQUÉRITO


A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição? Ou apenas em determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e a quê?

Respondem os poetas:




A associação destes dois vocábulos “poesia e resistência” corresponde, usualmente, numa certa vulgata algo superficial, ao conjunto de poéticas ou aos denominados textos de intervenção, que têm por objectivo a denúncia de um regime político criminoso e repressivo.
Parece, não sei se por definição ou dúvida, que a poesia desde tempos imemoriais foi sempre uma forma de resistência aos discursos dominantes, às tarefas esclavagistas, ao torpor repetitivo das horas, às finitudes de todo o género. Desde as velhas tradições orais, do rimance e da canção de gesta, que graças a oportunas recolhas vêm resistindo até à actualidade, podemos igualmente relembrar as canções de trabalho que ainda hoje perduram na cada vez mais parca ruralidade portuguesa.
A poesia é, decerto, um outro olhar para além do senso comum, e de todos os condicionalismos sociais, morais, estéticos ou outros. Como disse Artur Rimbaud, La liberté libre não pode ser assenhoreada por nenhum mandato. Quando me acerco de um novo poeta quero ser surpreendida, entrar numa mundividência que desconhecia, sair daquele livro de poemas com algo jamais lido. Por isso, o poema será tanto mais surpreendente, quanto mais altere a percepção do leitor. Com isto se preservará da usura do tempo e para além de respeitáveis e necessários comprometimentos circunstanciais a poesia resistirá.
É, no entanto, possível aliar, simbioticamente, várias “resistências” num só texto. Citarei, por exemplo, Paul Celan, no conhecido poema Todesfuge (Fuga da Morte), que conseguiu ser resistente a todos os títulos:
Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro
Margarete
(trad. de João Barrento e Y. K. Centeno)
Na nossa Literatura, é de sublinhar a lírica da resistência à ditadura desde final da década de trinta até 1974, tendo alguns autores sofrido até penas de prisão (Jaime Cortesão, Miguel Torga, Casais Monteiro, Borges Coelho e Veiga Leitão). Outros incluíram no seu discurso poético a denúncia da iniquidade da repressão, cantando O dia inicial inteiro e limpo da liberdade recuperada (Sophia de Mello Breyner).
Para terminar este breve depoimento, quero deter-me em dois exemplos maiores que não costumam ser conotados com o binómio “poesia e resistência”: um deles será Fernando Pessoa que, com a sua heteronímia conseguiu ultrapassar os condicionalismos de uma voz unívoca, de um só sujeito lírico, construindo um “drama-em-gente”, onde todas as inter-subjectividades são possíveis. O outro exemplo é do século XVI, mas, surpreendentemente, parece aplicável ao Portugal da actualidade:
Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.
(Os Lusíadas, Canto X, Est. 145)
Mas, como se verifica, já estamos no século XXI e resistimos à austera, apagada e vil tristeza quinhentista, lendo estes geniais decassílabos.


I.L.
Dezembro de 2011


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Antologias breves



Vem do grego antigo, como quase tudo, a palavra "antologia". Sendo que "anthos" significa "flor" e o resto da palavra: "conjunto", "reunião". Assim, as "reuniões" ou compilações de textos de um autor costumam ser suculentas brochuras, para que a amostragem seja o mais elucidativa possível, duma obra ou temática.

No caso da Poesia, que é um género literário que pende mais para avocação da intensidade e contenção, em oposição à quantidade do que qualquer outro género, as antologias bem fornidas de lombada e inclusas páginas, são frequentes. Só que nunca são lidas na íntegra, a não ser por eventuais ensaístas ou outros estudiosos do texto poético. Os parcos leitores folheiam escassas páginas e colocam na estante, se é que as estantes não-virtuais ainda se vão continuar a usar.

As convencionais antologias de poemas recorrem, muitas vezes, a certos estratagemas: têm, por exemplo, umas protecções, no início e no final, chamadas prefácios e posfácios, geralmente encomiásticos, que se destinam a recomendar e a explicar, ao presumível e desinformado incauto, as virtudes e potencialidades do livro e do autor. Depois há mais uns truques gráficos e de custos editoriais, tipo: papel com boa gramagem, um poema por página, mesmo que sejam dísticos, texto só impresso nas páginas pares ou ditas nobres, etc. Já vi obras mais que escassas em títulos e textos aparecerem antologiadas em grossos volumes, numa legitimação de papel de boa gramagem e pouco mais de substantivo. Está bem que o denominado aspecto gráfico é importante na edição do texto poético, mas deixem a poesia ter o seu corpo-a-corpo com o presumível leitor. Ela já tem suficientes imagens dentro das palavras para nos iluminar os sentidos. Autonomizem-se dos padrinhos prefaciadores e posfaciadores. Gozem as antologias breves, escolhendo as palavras e o gosto delas, a  vosso bel-prazer. Essa liberdade, que nem sempre existiu, ainda é nossa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Passos da Cruz ( IV )

Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse p'los desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse.


Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra - reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...


Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...


Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e perdê-lo!... E o sonho é o resto...


Fernando Pessoa

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Bach - St. Matthew Passion, BWV 244 - Part Two



Nikolaus Harnoncourt

Concentus Musicus Wien
King's College Choir Cambridge
1970