quarta-feira, 4 de abril de 2012

Bach - St. Matthew Passion, BWV 244 - Part Two



Nikolaus Harnoncourt

Concentus Musicus Wien
King's College Choir Cambridge
1970

terça-feira, 3 de abril de 2012

NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO...



Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
 ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.


Jorge de Sena , Fevereiro 1976

Mário  Viegas:


(rapinado no abracadabra)

quinta-feira, 29 de março de 2012

Pintura e Poesia


Manuela Imar, «Da saia que te fica a matar-me»(pormenor), óleo s/tela.
Carcavelos,2009.


sei que já não podes chegar a esta hora

Sei que te espero porque te inventei

Mas tudo isto não é suficiente para que não espere para que não espreite de 14 em 14 minutos a chegada de quem vem de autocarro


Sei que não existes Ou se existes é apenas porque existo Ou talvez existas sem saber que existo Mas continuo a espreitar os autocarros de 14 em 14 minutos Trazem menos gente esta noite Alguns vêm até vazios Tantos que vêm vazios

E todos os carros têm barulho de autocarros esta noite Até os miúdos na rua imitam os autocarros E os homens despedem-se apressados gritando que vão apanhar o autocarro
E eu cá em cima à espera do que não tenho
Á espera do autocarro contigo lá dentro
Á espera do autocarro que te deixará na paragem ao cimo
da rua
À espera


Manuela Imar, AS COISAS (INTERVALO), 1961.

OUÇAM-NOS




Temos muitos nomes
temos muitos nomes em todo o mundo
tantos

E temos rosto
e palavras
que às vezes calamos
ou criam raízes nodosas nos nossos corpos
ou guardamos nos corações dos nossos filhos
mas
de outras vezes
estilhaçam a barriga peçonhenta da mentira
ou são claridade
espalham pequenas sementes
palavras novas
Qualquer mulher é mãe
a primeira
ou a última
do mundo

Não desejámos
que tivesse sido sangrenta
a primeia ferida
aberta do nosso corpo

Por nós
em nós
entraram
a primeira luz do mundo
e o negrume dos seres nascidos das sombras

O nosso ventre
quente de terra
é mundo aberto ao mundo

Do escuro
quente
das nossas entranhas
sai luz a jorros
odores inebriantes
de vida
sal
e espuma
e sangue
e água
de vida

Somos
somos corpos
com a sabedoria
do amor
somos amor
antes e depois
de todos os deuses
antes e depois
de haver
homens
e plantas
e peixes

Inventamos canções
quando um corpo sabe
dar-se em nós
inventamos mares
quando dois corpos
se erguem divinamente
oferecemos o nosso sal
inesgotável
e sorrimos como ninguém

Somos fortes como montanhas
mas às vezes
parecemos ceder
como toalhas velhas de linho
à força dos brutos
mas um dia
havemos de dizer
basta
aos anjos negros

Temos a sabedoria
de sermos assim
nem deusas
nem génios
incompletas
vigilantes do mundo
ou do que resta dele

Alguns seres
vestidos de sombras
querem dar-nos
prazo de validade
e dizem-nos:
"Mulheres
acabou o tempo da claridade"

E querem rasgar-nos os ventres
e entregar meninas e meninos
à madrasta do dever cego
querem vergar-nos
os malditos anjos negros

Esses seres não-nascidos
não sabem
que nós somos a longa paciência do mundo
os olhos que vêem para além das estrelas
um barco levantado em direcção ao princípio

Sabemos
dizer não
o sim da obediência
só o terão de nós
rasgando-nos os lábios
e fechando-nos os ventres

Mas
se isso acontecesse
o mundo deixaria de ser mundo

Não
a luz é mais forte

Os nossos corpos
largos
sempre
hão-de ser
mundo

Ouçam as nossas vozes
são vozes
de todas nós

Às vezes somos apenas
em corpos doridos
e em almas apagadas
mas somos sempre nós
vivas

Ouçam-nos.

Carlos Alberto Machado, CORPOS, azulcobalto, Lajes do Pico, 2011.

terça-feira, 27 de março de 2012

Das Lied Im Grünen



Amava naquele lied uma infância
de peixes brilhantes, quedas de água,
incomparáveis prados, poldros
de olhar meigo, o jardim de Inverno
para as confidências e as pequenas
traições. A grande biblioteca
com bafo de capela. O mistério
oculto no vestuário dos homens e
nas lágrimas das mulheres. O dorso
do pai levando-a adormecida
para o leito, no quarto ermo
povoado de infindáveis, a lassidão
melódica feria um corpo
demasiado escasso
para a morte.

Berlim, 96

Inês Lourenço, Um Quarto com Cidades ao Fundo, Quasi, V.N.Famalicão, 2000.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia

Também nasceu neste dia, em Leipzig, Johann Sebastian Bach (1685 - 1750). Aqui, na genial interpretação de Glenn Gould.




ARTE POÉTICA I
Do texto não as pinças mas o lábio
da trama não o fio mas o hausto
do rosto não o facto mas o feixe
do timbre não o fundo mas a fenda
da venda não a fresta
mais que o laço.


ARTE POÉTICA II
(coda)
Poluída e rútila
é a beleza de um verso
cercado o movente sangue
sobre a neve,
lugar sem bússola onde escassos chegam,
sem país, sem linho, sol ou noite.


ARTE POÉTICA III
O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
algum método de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras
resistindo ao tráfego do fim da tarde,
pouco se interessavam
pela carpintaria dos versos.

Inês Lourenço, Câmara Escura,Ed. Língua Morta, Lisboa, 2012.
Poemas escolhidos por Manuel de Freitas

segunda-feira, 19 de março de 2012

APRENDIZ DE MAQUIAVEL

O Prof. Jorge Miranda, num artigo da “Actual”, defende o Acordo Ortográfico. Percebe-se que, para ele, os fins justificam os meios. Mesmo que os fins sejam um mero e vago palpite de que o Português lucrará qualquer coisa com o AO. E mesmo que os meios sejam o abastardamento grotesco e a descaracterização caricatural da nossa Língua. Parabéns, professor! Está a caminho de se tornar um Maquiavel chapado!

António Manuel Pires Cabral, in Facebook
https://www.facebook.com/profile.php?id=100002359432836

quinta-feira, 15 de março de 2012

Pastéis de nata



(...)

"Todos os meses, Vítor Gaspar entregará ao Álvaro uma pequena soma, com a indicação de não gastar tudo em guloseimas. É mais uma medida de contenção de despesas e racionalização de custos: não tendo Portugal uma economia, acaba por não se justificar que tenha um ministério da Economia. É interessante constatar que a única economia que funciona bem em Portugal é a economia paralela - curiosamente, aquela que os economistas não definem nem programam. Talvez o misterioso esvaziamento do Álvaro se deva ao desajustamento das suas políticas.

Santos Pereira também é ministro do Emprego, o que nesta altura parece ser de mau gosto. O objectivo de uma sociedade moderna não é acabar com o desemprego. É fazer com que todos os desempregados sejam como André Villas-Boas. O Governo já está apostar, e com força, no desemprego. Só falta apostar no desemprego de qualidade. Basta uma pequena afinação política".

Ricardo Araújo Pereira in Visão, 8 de Mar de 2012.

http://visao.sapo.pt/ricardo-araujo-pereira=s23462

terça-feira, 13 de março de 2012

Marilyn Moore


LOVER COME BACK TO ME


Na cama do hotel, em Tulsa, limitava-se
a trautear a canção em que prometera
dar o seu melhor, num esboço de epitáfio.

Percebia agora que há temas
que cantamos melhor deitados,
longe de qualquer palco.
Bebeu um copo de Woodford,
para trazer um pouco mais de sombra à voz.

Não podia adivinhar, em Tulsa, que
a volúpia em breve se tornaria uma súplica,
o género de coisas que só dizemos a ninguém.

Manuel de Freitas, Marilyn Moore,Lisboa, Assírio e Alvim, 2011.

quarta-feira, 7 de março de 2012

No Bartleby Bar


Apresentação esta sexta-feira, pelas 22h30, no Bartleby Bar. Rua Imprensa Nacional, 116b
(cave do restaurante BS). Em Lisboa.