quinta-feira, 15 de março de 2012

Pastéis de nata



(...)

"Todos os meses, Vítor Gaspar entregará ao Álvaro uma pequena soma, com a indicação de não gastar tudo em guloseimas. É mais uma medida de contenção de despesas e racionalização de custos: não tendo Portugal uma economia, acaba por não se justificar que tenha um ministério da Economia. É interessante constatar que a única economia que funciona bem em Portugal é a economia paralela - curiosamente, aquela que os economistas não definem nem programam. Talvez o misterioso esvaziamento do Álvaro se deva ao desajustamento das suas políticas.

Santos Pereira também é ministro do Emprego, o que nesta altura parece ser de mau gosto. O objectivo de uma sociedade moderna não é acabar com o desemprego. É fazer com que todos os desempregados sejam como André Villas-Boas. O Governo já está apostar, e com força, no desemprego. Só falta apostar no desemprego de qualidade. Basta uma pequena afinação política".

Ricardo Araújo Pereira in Visão, 8 de Mar de 2012.

http://visao.sapo.pt/ricardo-araujo-pereira=s23462

terça-feira, 13 de março de 2012

Marilyn Moore


LOVER COME BACK TO ME


Na cama do hotel, em Tulsa, limitava-se
a trautear a canção em que prometera
dar o seu melhor, num esboço de epitáfio.

Percebia agora que há temas
que cantamos melhor deitados,
longe de qualquer palco.
Bebeu um copo de Woodford,
para trazer um pouco mais de sombra à voz.

Não podia adivinhar, em Tulsa, que
a volúpia em breve se tornaria uma súplica,
o género de coisas que só dizemos a ninguém.

Manuel de Freitas, Marilyn Moore,Lisboa, Assírio e Alvim, 2011.

quarta-feira, 7 de março de 2012

No Bartleby Bar


Apresentação esta sexta-feira, pelas 22h30, no Bartleby Bar. Rua Imprensa Nacional, 116b
(cave do restaurante BS). Em Lisboa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A Criança Que Ri


CXXXII

O suspiro é uma palavra que me é próxima. Existirão, certamente, palavras um tanto ou quanto mais confusas, tais como alívio ou consolo. Eu sou um vivente disléxico. Quero dizer uma palavra e sai-me outra.

Morro sem soltar um único suspiro.

Construo o muro. Sobreponho argamassa sobre argamassa e não chego à flor.

Os comprimidos são tão ruidosos como a porta a que bato. Vinda do negrume vem a injecção. Enterrada no rabo amolecido.

Lembro-me de uma palavra e quero dizê-la. Quero dizer a palavra. Procuro de memória a palavra que não chego a dizer. Não basta saber dizer uma palavra para a dizer.

Eu altero a palavra para a dizer. Altero a palavra e isso basta.

Carlos Torres Figueiredo, Modo de Ler,Porto, 2012, p.p. 140.

Foi atribuído a este livro o Prémio de Poesia Eugénio de Andrade 2011 conforme vem assinalado na capa.

"Nasceu a 5 de Março de 1968, em Lisboa. Curta biografia. Tudo o mais são pormenores que poderiam ter sido de outro modo. Assim fossem".

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Câmara Escura



ALTERNADEIRAS

Contigo, leitor, celebro
esta união sem facto, abro
este habitáculo, algumas gavetas
secretas para demorar contigo emoções
e escárnios. És, talvez, como eu
uma alternadeira de palavras, destas
que vendem no papel, os objectos
trucidados pelo olhar em lençóis
de falsa transparência e ficção
furtiva. Outras, mais reais
e mais humanas, professam
uma devastada arte de amar
e nós um devastado amor
à arte dos versos que ninguém
lê. Só nos lemos
uns aos outros, tal como elas
se vigiam sobre o trottoir.

http://edlinguamorta.blogspot.com/

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Mais poesia para “tempos de indigência”

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

In Até Amanhã , 1956, Limiar, Porto

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Para que servem poetas em tempos de indigência?"

Uma das respostas ao célebre dito de Hölderlin, poderá também estar neste conhecido poema do português António Ramos Rosa, nascido a 17 de Outubro de 1924.

Não posso adiar o amor

para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque

na garganta
ainda que o ódio estale

e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese

séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore,
não posso adiar para

outro século a minha

vida
nem o meu amor
nem o meu grito de

libertação
Não posso adiar o coração


In “Viagem Através de Uma Nebulosa”

“Signos” – Lisboa Editora.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Whitney Houston (1963 - 2012)

Triplo Homicídio

Mais três pessoas do sexo feminino que foram exterminadas barbaramente pelo homem da casa. A mais nova era uma criança de, pelo que dizem alguns jornais, 4 anos. Pergunto-me se ocasionalmente fosse um neto em vez de uma neta, o assassino susteria a sua fúria homicida. Haveria a esperança de que esse neto, por uma espécie de legado ancestral, quando chegasse a adulto, fosse herdeiro desse ímpeto agressivo inominável, que permite que o número de mulheres e meninas assassinadas em Portugal cresça numericamente todos os anos, sem que o inverso se verifique, isto é: são raríssimos os casos de homens mortos pelas companheiras ou esposas.

Resta averiguar se a sanha homicida que incluiu os animais domésticos da casa também teve em conta a semelhança de género.

http://aeiou.visao.pt/triplo-homicidio-em-beja-ainda-sem-explicacao=f646172