por cá e pelo restante habitáculo terrestre, os motivos de perplexidade multiplicam-se.
Desenrolam-se os costumeiros fogos florestais, que há quem diga são encomendados pela "indústria dos fogos". As personagens governamentais sãode uma mediocridade e impúdica matreirice, que nos assalta uma espécie de saudade de Sócrates, da sua dignidade e consistência, pirante a torva malevolência que orquestrou a ingénua e ignorante irresponsabilidade de muitos portugueses.
A morte jovem de cantantes pop, corroídos pelas drogas e pelo álcool, começa a ser um lugar-comum; e o facto de lhe serem dedicadas tantas jaculatórias, é já de uma rotineirice tanatológica. O talento lançado na sarjeta dos estupefacientes deveria causar alergia e não panegíricos de comovente lembrança. Os grandes heróis e heroínas deste mundo, são as pessoas que fazem quotidianamente um enorme esforço para existir, por diferentes motivos ( sociais, de saúde, económicos, étnicos, etc ).
O caso do norueguês psicopata, filiado na Extrema Direita e na Maçonaria, pelo menos, demonstra como as Instituições albergam toda a casta de malvados. Não basta reclamar-se "da verdade, fraternidade, humanismo".
A fézada das irmandades não vê mais...
quarta-feira, 27 de julho de 2011
quarta-feira, 13 de julho de 2011
"nihil sub solo novum"
«Quando, em Abril de 1945, a paz pairou sobre a Europa, depois de os Aliados terem derrotado a Alemanha nazi e a Itália fascista, qual era o panorama que se podia ver no Velho Continente e nos EUA?
Na Europa, era tanta a fome na Alemanha, na Áustria, na Itália, como na vitoriosa Grã-Bretanha ou na desocupada França e na mártir Bélgica. A fome estendia-se, também, aos países neutros como Portugal e Espanha. Os circuitos produtivos estavam completamente destruídos e as correntes comerciais eram quase inexistentes. Milhões de desalojados deambulavam de um lado para o outro à procura das suas antigas raízes. Era dantescamente um caos. Em contrapartida, nos EUA, pesem embora as elevadíssimas perdas de vida entre a juventude americana, não havia desemprego, a economia era florescente, as fábricas trabalhavam a bom ritmo e produziam em abundância.
Este cenário era magnífico para os americanos e péssimo para os europeus. Mas o que interessa uma economia florescente se não puder expandir-se? Rigorosamente nada, porque transporta no seu seio o feto da crise. Uma crise que, mais tarde ou mais cedo, estalará em função da retracção que se irá verificar no mercado interno por estar saturado. Assim, interessa expandir-se, abrir-se ao exterior, para continuar a fazer crescer a produção, as vendas, o emprego e o rendimento das famílias e o lucro dos capitais.
Isto mesmo percebeu George Marshall, Secretário de Estado dos EUA, que propôs uma ajuda financeira à Europa, para recuperação da máquina produtiva. Claro que a ajuda saía por um lado, mas o retorno fazia-se por outro, na medida em que o Velho Continente passou a ser um excelente comprador dos produtos americanos. Isso permitiu, de facto, a recuperação europeia, mas uma recuperação dependente dos EUA que se concretizou melhor e mais eficientemente na imediata criação da OTAN ou NATO.
O progresso europeu foi tal que, uma dezena de anos após a guerra, vivia-se por cá um boom económico muito significativo. Ao romper a década de 60 do século passado a Europa tinha recuperado e estava a lançar as bases da Comunidade Económica Europeia (CEE). Era o nascer de uma nova temporada. Uma temporada que veio desembocar na União Europeia e na moeda única, o Euro. De repente (duas dezenas de anos em História é um curto lapso de tempo), aquilo que começou por ser um plano para manter os altos padrões de produção e de consumo da economia dos EUA tornou-se numa ameaça série à economia americana. A palavra de ordem, depois da última crise económica dos EUA, foi simples: destrua-se o Euro, destruindo, se necessário for, a Europa. E por onde se inicia essa destruição? Pelos flancos mais frágeis: Grécia, Portugal e Irlanda, passando, depois aos restantes. E até onde se pode e deve ir? Até que a Europa fique, sem nela rebentar uma bomba, tal e qual como estava em 1945, ou seja, com os circuitos económicos todos destruídos. Para quê? Para que os EUA possam, uma vez mais, desenvolver um qualquer programa de auxílio semelhante ao plano Marshall. Um plano que auxilia mais quem o dá do que quem o recebe.
Só não vê quem não quer ver! A História dá as lições… é necessário saber interpretá-las! Esse era (é) o motivo porque nas Academias Militares se ensinava (ensina) História militar, pois, os campos de batalha podem variar e mudar os intervenientes, mas não mudam as táctica nem as estratégias… Alteram-se em função da tecnologia, nada mais! Infelizmente, não há academias para formar os políticos… Assim, poderiam estudar História e saber que nihil sub solo novum.»
Luís Alves de Fraga (*)
(*) É diplomado pela Academia Militar (1965), licenciado em Ciências Político-Sociais pelo ISCSP –UTL – 1977, mestre em Estratégia – ISCSP – 1991 e doutor em História pela Universidade Autónoma de Lisboa – 2009. Antigo professor efectivo titular do Instituto de Altos Estudos da Força Aérea (1981/85), antigo professor efectivo da Academia da Força Aérea (1985/96), é professor auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa desde 1992. É membro do Conselho Científico da Comissão Portuguesa de História Militar.
Na Europa, era tanta a fome na Alemanha, na Áustria, na Itália, como na vitoriosa Grã-Bretanha ou na desocupada França e na mártir Bélgica. A fome estendia-se, também, aos países neutros como Portugal e Espanha. Os circuitos produtivos estavam completamente destruídos e as correntes comerciais eram quase inexistentes. Milhões de desalojados deambulavam de um lado para o outro à procura das suas antigas raízes. Era dantescamente um caos. Em contrapartida, nos EUA, pesem embora as elevadíssimas perdas de vida entre a juventude americana, não havia desemprego, a economia era florescente, as fábricas trabalhavam a bom ritmo e produziam em abundância.
Este cenário era magnífico para os americanos e péssimo para os europeus. Mas o que interessa uma economia florescente se não puder expandir-se? Rigorosamente nada, porque transporta no seu seio o feto da crise. Uma crise que, mais tarde ou mais cedo, estalará em função da retracção que se irá verificar no mercado interno por estar saturado. Assim, interessa expandir-se, abrir-se ao exterior, para continuar a fazer crescer a produção, as vendas, o emprego e o rendimento das famílias e o lucro dos capitais.
Isto mesmo percebeu George Marshall, Secretário de Estado dos EUA, que propôs uma ajuda financeira à Europa, para recuperação da máquina produtiva. Claro que a ajuda saía por um lado, mas o retorno fazia-se por outro, na medida em que o Velho Continente passou a ser um excelente comprador dos produtos americanos. Isso permitiu, de facto, a recuperação europeia, mas uma recuperação dependente dos EUA que se concretizou melhor e mais eficientemente na imediata criação da OTAN ou NATO.
O progresso europeu foi tal que, uma dezena de anos após a guerra, vivia-se por cá um boom económico muito significativo. Ao romper a década de 60 do século passado a Europa tinha recuperado e estava a lançar as bases da Comunidade Económica Europeia (CEE). Era o nascer de uma nova temporada. Uma temporada que veio desembocar na União Europeia e na moeda única, o Euro. De repente (duas dezenas de anos em História é um curto lapso de tempo), aquilo que começou por ser um plano para manter os altos padrões de produção e de consumo da economia dos EUA tornou-se numa ameaça série à economia americana. A palavra de ordem, depois da última crise económica dos EUA, foi simples: destrua-se o Euro, destruindo, se necessário for, a Europa. E por onde se inicia essa destruição? Pelos flancos mais frágeis: Grécia, Portugal e Irlanda, passando, depois aos restantes. E até onde se pode e deve ir? Até que a Europa fique, sem nela rebentar uma bomba, tal e qual como estava em 1945, ou seja, com os circuitos económicos todos destruídos. Para quê? Para que os EUA possam, uma vez mais, desenvolver um qualquer programa de auxílio semelhante ao plano Marshall. Um plano que auxilia mais quem o dá do que quem o recebe.
Só não vê quem não quer ver! A História dá as lições… é necessário saber interpretá-las! Esse era (é) o motivo porque nas Academias Militares se ensinava (ensina) História militar, pois, os campos de batalha podem variar e mudar os intervenientes, mas não mudam as táctica nem as estratégias… Alteram-se em função da tecnologia, nada mais! Infelizmente, não há academias para formar os políticos… Assim, poderiam estudar História e saber que nihil sub solo novum.»
Luís Alves de Fraga (*)
(*) É diplomado pela Academia Militar (1965), licenciado em Ciências Político-Sociais pelo ISCSP –UTL – 1977, mestre em Estratégia – ISCSP – 1991 e doutor em História pela Universidade Autónoma de Lisboa – 2009. Antigo professor efectivo titular do Instituto de Altos Estudos da Força Aérea (1981/85), antigo professor efectivo da Academia da Força Aérea (1985/96), é professor auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa desde 1992. É membro do Conselho Científico da Comissão Portuguesa de História Militar.
domingo, 3 de julho de 2011
Ana Paula Inácio
O poeta carreirista
está sempre a morrer nos poemas
de cancro do pulmão ou cirrose hepática
mas na verdade cuida da sua obra (e do respectivo autor)
data-a e arquiva-a minuciosamente
trava mesmo amizade com uma bibliotecária
que o auxilia em braile
não vá acontecer-lhe
como o Camilo
frequenta o ginásio,
masca Trident Senses
e milita nos partidos certos.
O poeta carreirista já nasceu poeta
foi bem orientado desde pequeno
inscrevendo-se na Associação Portuguesa de Autores
mesmo sem obra publicada
não fosse alguém roubar-lhe a ideia
dorme com um olho aberto outro fechado
- nos poemas lê-se insónia –
e namora rapariga letrada
embora aos 35 sofra uma crise de orientação sexual
e aos 40 tente uma escrita erótica mais abrangente
a manquejar Sena e a farejar alguns espanhóis.
O poeta carreirista não bebe cerveja
mas vinho tinto do Alentejo
abre às vezes excepções e acompanha-a com
tremoços ou caracóis.
O poeta carreirista vai a tudo
rádio, TV e revistas,
coquetterie fina
e instala-se, de preferência, na capital.
Acrobacias
sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre mãos
treinávamos o inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
- superiores ou inferiores –
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
torna-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ia
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.
ANA PAULA INÁCIO
in «2010 - 2011»
Edições AVERNO, 2011.
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poesia/ novas edições
terça-feira, 28 de junho de 2011
Música Portuguesa da República
Sofia Lourenço (Piano)
Maria João Matos (Soprano)
Francisco de Lacerda, Alfredo Keil e Vianna da Motta
Concerto em Paredes de Coura, a 25 de Abril de 2011
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Quadras sanjoaninas
S. João faz uma graça
Ao bom povo português:
O agiota escorraça
mais a mãezinha que o fez.
Dá-nos juros a Europa
Que não podemos pagar;
Matar à fome esta tropa
É o que nos vai calhar.
E já agora não se enjeita
Um favorzinho também:
Livra-nos desta Direita
Pater noster, gloria, amen.
Vamos comendo as sardinhas
E os pimentos na brasa,
Esquecendo as magrinhas
Alegrias cá de casa.
De Portas e de Coelho
E da Esquerda arruaceira
Salva apenas em vermelho
Uma rosa toda inteira.
Ao bom povo português:
O agiota escorraça
mais a mãezinha que o fez.
Dá-nos juros a Europa
Que não podemos pagar;
Matar à fome esta tropa
É o que nos vai calhar.
E já agora não se enjeita
Um favorzinho também:
Livra-nos desta Direita
Pater noster, gloria, amen.
Vamos comendo as sardinhas
E os pimentos na brasa,
Esquecendo as magrinhas
Alegrias cá de casa.
De Portas e de Coelho
E da Esquerda arruaceira
Salva apenas em vermelho
Uma rosa toda inteira.
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Quadras S. Joaninas
segunda-feira, 20 de junho de 2011
João Habitualmente
APOCALIPSE
João Habitualmente
1
recatai-vos velhas
fugi para a igreja
abanai o sino
fechai bem no quarto
o vosso netinho
o vosso menino
para que não veja
para que não saiba
para que não seja
assim como esses
que são cabeludos
que só têm barba
dizem palavrões
e dão encontrões
nas ruas da baixa
aos senhores sisudos
são uns parvalhões
recatai-vos velhas
trazei um polícia
uma esquadra inteira
ai tanta sujeira
imaginem só
andam-se a drogar
até metem dó
a cambalear
isto está perdido
ó velhas fugi
e para ali
que aqui está fodido
recatai-vos velhas
tapai as orelhas
guardai o menino
fechai-o no quarto
metei-o na cama
para que não veja
para que não ouça
para que não seja
para que não tenha
para que não venha
perdeu-se o respeito
já não há moral
ó velhas fugi
olhem para ali
beijam-se na rua
fodem ao luar
antes de casar
já nem vão à tropa
só querem dinheiro
todo para estourar
já nem vão às putas
mostrar que são homens
ó senhor prior
já nem vão à missa
não têm missal
isto é um horror
vamos mesmo mal
fechai os olhos
não vejais o netinho
guardai-o no fundo
de um quarto comprido
para que não veja
para que não tenha
para que não seja
para que não venha
recatai-vos velhas
que já nem na praia
se consegue estar
ó virgem maria
ó senhor do céu
essas estrangeiras
deu-lhes para andar
de mamas ao léu
a tremelicar
ó velhas cuidado
assim é que não
inda a procissão
só vai no adro
não deixes que a merda
se ponha a medrar
gritai pelas ruas
falai prós jornais
morra a juventude
fine a desvergonha
chamemos quem ponha
estes animais
c'o a corda rente
ó velhas chamai
o presidente
2
libertai-vos velhas
vinde para o sol
dançar rock n' roll
ide até a lua
c'uma ganza fixe
esticai o dedo
panhai boleia
fumai muito haxixe
ponde a casa cheia
dos nossos poetas
dos nosso malucos
andai de autocarro
a fugir ao pica
libertai-vos velhas
não pagueis a taxa
acabai com a graxa
aos vossos patrões
cagai no juízo
nas boas maneiras
cagai nas peneiras
ó velhas então?
vinde para aqui
para a confusão
ó velhas vesti
uma mini-saia
deixai que vos caia
esse ar tão mortiço
essa cara chocha
mostrai a coxa
gritai uma asneira
uma malandrice
pelos microfones
das rádios-pirata
ouvi os Police
os Rolling Stones
não vos afoguei
em mais água benta
bebei um bagaço
jogai a dinheiro
ide ao cangalheiro
adiai a morte
ide pelo mundo
por estradas à sorte
vinde para aqui
para o reviralho
e se não quiserdes
ide para o caralho!
(in "Agradecemos", Edições Pé-de-Cabra, 1995)
João Habitualmente
1
recatai-vos velhas
fugi para a igreja
abanai o sino
fechai bem no quarto
o vosso netinho
o vosso menino
para que não veja
para que não saiba
para que não seja
assim como esses
que são cabeludos
que só têm barba
dizem palavrões
e dão encontrões
nas ruas da baixa
aos senhores sisudos
são uns parvalhões
recatai-vos velhas
trazei um polícia
uma esquadra inteira
ai tanta sujeira
imaginem só
andam-se a drogar
até metem dó
a cambalear
isto está perdido
ó velhas fugi
e para ali
que aqui está fodido
recatai-vos velhas
tapai as orelhas
guardai o menino
fechai-o no quarto
metei-o na cama
para que não veja
para que não ouça
para que não seja
para que não tenha
para que não venha
perdeu-se o respeito
já não há moral
ó velhas fugi
olhem para ali
beijam-se na rua
fodem ao luar
antes de casar
já nem vão à tropa
só querem dinheiro
todo para estourar
já nem vão às putas
mostrar que são homens
ó senhor prior
já nem vão à missa
não têm missal
isto é um horror
vamos mesmo mal
fechai os olhos
não vejais o netinho
guardai-o no fundo
de um quarto comprido
para que não veja
para que não tenha
para que não seja
para que não venha
recatai-vos velhas
que já nem na praia
se consegue estar
ó virgem maria
ó senhor do céu
essas estrangeiras
deu-lhes para andar
de mamas ao léu
a tremelicar
ó velhas cuidado
assim é que não
inda a procissão
só vai no adro
não deixes que a merda
se ponha a medrar
gritai pelas ruas
falai prós jornais
morra a juventude
fine a desvergonha
chamemos quem ponha
estes animais
c'o a corda rente
ó velhas chamai
o presidente
2
libertai-vos velhas
vinde para o sol
dançar rock n' roll
ide até a lua
c'uma ganza fixe
esticai o dedo
panhai boleia
fumai muito haxixe
ponde a casa cheia
dos nossos poetas
dos nosso malucos
andai de autocarro
a fugir ao pica
libertai-vos velhas
não pagueis a taxa
acabai com a graxa
aos vossos patrões
cagai no juízo
nas boas maneiras
cagai nas peneiras
ó velhas então?
vinde para aqui
para a confusão
ó velhas vesti
uma mini-saia
deixai que vos caia
esse ar tão mortiço
essa cara chocha
mostrai a coxa
gritai uma asneira
uma malandrice
pelos microfones
das rádios-pirata
ouvi os Police
os Rolling Stones
não vos afoguei
em mais água benta
bebei um bagaço
jogai a dinheiro
ide ao cangalheiro
adiai a morte
ide pelo mundo
por estradas à sorte
vinde para aqui
para o reviralho
e se não quiserdes
ide para o caralho!
(in "Agradecemos", Edições Pé-de-Cabra, 1995)
segunda-feira, 13 de junho de 2011
O recato dos cães-de-fila
A Direita recentemente eleita em Portugal, pede agora recato, discrição e congeminações políticas fora da "praça pública". Então onde estão as "transparências" que tanto apregoavam enquanto depejavam as piores escórias sobre Sócrates e o seu governo?
Ainda há-de ser feito um estudo de base psicanalítica da identidade lusa, acerca da demonização da figura de Sócrates levada a efeito, não só pelas classes pouco instruídas, mas também pelas classes mais informadas e com responsabilidades teóricas. Estas, mal dissimulando os seus interesses partidários e ressentimentos de vária índole, acabaram por engrossar o caudal de mastins agressivos e mentalmente pútridos que se colocaram ao lado dos guerrilheiros anti-Sócrates.
A parvoíce foi tamanha que, na noite das eleições, ouvi ingénuas cidadãs a festejar a vitória das direitas com a frase: "O que interssava era tirar de lá o Sócrates." Ainda hoje fui ao meu dentista, que citando o merceeiro Belmiro de Azevedo, disse mais ou menos o mesmo.
E então qual a reflexão, o progresso social ou ideológico, a ética republicana, o humanismo que reflectem estes "desabafos"? Ou o ganho económico?
Da cegueira de um Zé Povinho iletrado, com os seus "tomas" e outros meneios básicos, ainda se poderá esperar tudo e, quiçá, desculpar outro tanto, mas de gente como José Gil, que escreveu sobre o medo de existir dos portugueses, ou António Barreto, sociólogo com peneiras a presidenciável, não se esperava atitudes tão odientas.
Quanto ao António Barreto, indigitado para presidir às comemorações do Dia de Portugal por Cavaco Silva, é de facto mais uma das singulares opções para tal efeito, do PR. Pobre Camões, tão menosprezado pelos poderes do seu tempo, e que serve de álibi para uns políticos narcísicos, cheios de ganância de poder e das mais-valias que ele confere, cantarem de galo umas soturnas contradições.
Aliás, o PR Cavaco Silva tem uma espécie de toque de Midas invertido: rodeia-se de gente questionável a muitos títulos, tipo Dias Loureiro, Catroga, Manuela Ferreira Leite, etc. Foi deprimente a lista de condecorações do 10 de Junho. A seguir a MFL, boa percentagem de grandes postos militares. A disfarçar, lá estava um bombeiro com cem anos.
Ainda há-de ser feito um estudo de base psicanalítica da identidade lusa, acerca da demonização da figura de Sócrates levada a efeito, não só pelas classes pouco instruídas, mas também pelas classes mais informadas e com responsabilidades teóricas. Estas, mal dissimulando os seus interesses partidários e ressentimentos de vária índole, acabaram por engrossar o caudal de mastins agressivos e mentalmente pútridos que se colocaram ao lado dos guerrilheiros anti-Sócrates.
A parvoíce foi tamanha que, na noite das eleições, ouvi ingénuas cidadãs a festejar a vitória das direitas com a frase: "O que interssava era tirar de lá o Sócrates." Ainda hoje fui ao meu dentista, que citando o merceeiro Belmiro de Azevedo, disse mais ou menos o mesmo.
E então qual a reflexão, o progresso social ou ideológico, a ética republicana, o humanismo que reflectem estes "desabafos"? Ou o ganho económico?
Da cegueira de um Zé Povinho iletrado, com os seus "tomas" e outros meneios básicos, ainda se poderá esperar tudo e, quiçá, desculpar outro tanto, mas de gente como José Gil, que escreveu sobre o medo de existir dos portugueses, ou António Barreto, sociólogo com peneiras a presidenciável, não se esperava atitudes tão odientas.
Quanto ao António Barreto, indigitado para presidir às comemorações do Dia de Portugal por Cavaco Silva, é de facto mais uma das singulares opções para tal efeito, do PR. Pobre Camões, tão menosprezado pelos poderes do seu tempo, e que serve de álibi para uns políticos narcísicos, cheios de ganância de poder e das mais-valias que ele confere, cantarem de galo umas soturnas contradições.
Aliás, o PR Cavaco Silva tem uma espécie de toque de Midas invertido: rodeia-se de gente questionável a muitos títulos, tipo Dias Loureiro, Catroga, Manuela Ferreira Leite, etc. Foi deprimente a lista de condecorações do 10 de Junho. A seguir a MFL, boa percentagem de grandes postos militares. A disfarçar, lá estava um bombeiro com cem anos.
Álvaro de Campos
Poema em linha recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Nota:
Hoje é dia de aniversário de Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935). Evoca-se aqui este célebre poema do heterónimo Álvaro de Campos, o sensacionista ("Sentir tudo de todas as maneiras"), dedicado a todos os portugueses que nas últimas eleições votaram à Direita.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Nota:
Hoje é dia de aniversário de Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935). Evoca-se aqui este célebre poema do heterónimo Álvaro de Campos, o sensacionista ("Sentir tudo de todas as maneiras"), dedicado a todos os portugueses que nas últimas eleições votaram à Direita.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Camões sempre luminoso
Esparsa ao desconcerto do mundo
no mundo graves tormentos;
e, pera mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só pera mim
anda o mundo concertado.
Luís de Camões (1524? - 1580)
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Vitaly Margulis
Vitaly Margulis, pianista, pedagogo e autor de estudos filosóficos musicais, nasceu a 16 de Abril de 1928, na cidade ucraniana de Charkov. Morreu, no passado dia 29 de Maio em Los Angeles onde, desde 1994, ensinava na Universidade da Califórnia.
Com o pai, que teve como professor Alexandre Horowitz, aluno de Alexander Scriabin, teve as suas primeiras lições de piano. Continuou os seus estudos no conceituado Conservatório de Leninegrado, com o professor Samarij Sawshinskij, onde, de 1958 até à sua partida para a América em 1974, ministrou a sua própria classe de piano. Durante essa época, Vitaly Margulis triunfou em mais de um milhar de concertos por toda a Rússia.
(Ver mais aqui e aqui)
Nota:
Conheci este grande pianista nos anos 90, em São Petersburgo, e tive a honra de o ter como guia em algumas zonas da cidade, inesquecíveis para a minha memória cultural. Cito, por exemplo, uma área habitacional do tempo de Dostoievski, onde teria tido lugar o enredo do conhecido romance "Crime e Castigo". Outros lugares, como o Conservatório Rimsky-Korsakov, onde a Sofia (Lourenço) actuou, a casa-museu Alexander Pushkin, a necrópole dos artistas onde estão sepultados, além de Dostoievski, Tchaikovsky, Borodine, Glinka, etc. Revi-o há uns anos, em Óbidos, onde costumava deslocar-se no Verão para ministrar cursos de aperfeiçoamento e, simultâneamente, deliciar-nos com as suas performances.
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