sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mário de Sá Carneiro - Nascido a 19 de Maio



Álcool


Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.


- Mário de Sá-Carneiro





Porto, Porto, Porto, Porto

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Vernáculo

As recentes catroguices, introduzindo no argumentário que se pretende político certos vocábulos e certas comparações a figuras históricas, que só a um esgar burlesco podem corresponder, confirmam-nos cada vez mais que estas eleições eram desnecessárias, com o seu cortejo de troikas e respectivas consequências. Sim, porque o actual PM demissionário, não cumpriu o mandato de mais dois anos, para que foi eleito democraticamente.
Este facto é sucessivamente mascarado por toda a gente; assim como a nociva acção de toda a oposição durante a governação de Sócrates, aliando-se contra qualquer medida de racionalização de serviços e custos do Estado. A hipócrita entente de direitas e esquerdas, de braço dado em manifestações e votações de leis, só com o fito de derrubar o odiado PM (isto sem falar nas campanhas ad hominem), foi um espectáculo triste e degradante sobre o exercício da política.
Na última edição do semanário Expresso, Miguel Sousa Tavares acaba a sua crónica com a seguinte constatação: "Já sabíamos que Sócrates tem sete vidas, mas oito?" Esperemos que o vernáculo catroguismo, o estilo pimba de Passos Coelho e de outras abencerragens do PSD, mais as retóricas à 1917 de uma esquerda irrealista, não nos lancem para a apagada e vil tristeza, de além de sermos pobres, sermos pindéricos mentais.
E os que gostam de liberdades sociais, não se iludam. Com o advento da nossa Direita, ligada à Igreja Católica e ao respeitinho cavernícola, trará revisões das leis da IVG, da homossexualidade e o testamento vital, que ficará adiado para daqui a cem anos.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Manuel António Pina


O livro


E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.


Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.


- Manuel António Pina, Os Livros, Assírio & Alvim, 2003

Nota:
Parabéns pela distinção, caro Manel.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ano Liszt

Este ano perfazem-se 200 anos sobre o nascimento de Franz Liszt (22 de Outubro de 1811-31 de Julho de 1886). O genial compositor e intérprete esteve em Lisboa em 1845 (ver aqui). Actuou igualmente, em concerto a dois pianos, com João Guilherme Daddi, pianista em voga à época.
Atendendo ao depressivo momento que vive o nosso país e a maior parte do mundo, e ao incerto e nebuloso futuro que se antevê, Logros propõe aos seus leitores esta Consolação No. 3, do mesmo Liszt, interpretada pelo lendário Vladimir Horowitz.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O califado universal

Osama bin Laden já está com Alá. E, esperemos, com muito mais virgens do que as que conheceu cá na terra. Pois, além das quatro esposas da praxe, muitas outras prováveis serventuárias o terão acompanhado. Aliás, o próprio Osama era o 17º filho de um rico construtor civil e restaurador de mesquitas que produziu mais de cinquenta descendentes.
Existem, na net, amplas referências a todo o percurso familiar, político e guerrilheiro de Osama. O seu ódio ao Ocidente, entre tantos outros ódios que cultivava, era quase demencial.
Há quem considere que não existem choques civilizacionais. Mas, será fácil encontrar no Ocidente alguém nascido em 1957, que tenha mais de cinquenta irmãos, como facto comum? Voltámos ao problema central da situação das mulheres no Islão, umas meras barrigas para fornecerem população aos Estados. Serem seres humanos de pleno direito é ideia que não cabe no formato arcaico e delirante dos mentores de califados universais.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sem Sócrates?

Eu também queria uma Presidência da República sem Cavaco, uma Oposição sem Coelhos, Relvas, encomendadores de submarinos sem mísseis, esquerdas com verdete, etc.
Afinal, Sócrates não foi eleito democraticamente? E agora também vai servindo de mestre de cerimónias para os credores da Nação, enquanto lhe mandam biqueiros todos os dias, esses lazarentos candidatos ao poder que precipitaram a queda do Governo.
Se querem PS sem Sócrates, também quero Belém sem Cavaco, PSD sem Coelho, PP sem Portas, PC sem Jerónimo e Bloco sem Louçã. Ou não foram estes senhores eleitos democraticamente, como Sócrates?

Mudar de vida



A identidade portuguesa desta música de Carlos Paredes impõe-se aos nossos ouvidos com uma nostálgica inquietude. A nossa identidade envolve o conflito entre a ânsia de mudança, ultrapassagem de limites e a necessidade videirinha e matreira de segurança e lucro, sem qualquer perspectiva de ideal a atingir. O 25 de Abril foi a eclosão de um desses períodos de mudança, de ultrapassagem de limites, de actualização com os tempos modernos. As vozes que desvalorizam esta data e esta mudança sofrem, infelizmente, de um total embotamento mental, desinformação analfabeta ou aproveitamento duvidoso de prebendas de questionável licitude. Isto para já não falar naquele grande "clássico" dos chamados "espoliados".
Viva o 25 de Abril!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Paixão segundo São Mateus, J.S. Bach


O coro final de "A Paixão Segundo São Mateus" de J. S. Bach, pelo coro e orquestra d0Collegium Vocale de Gent, sob a direcção de Philippe Herreweghe

terça-feira, 19 de abril de 2011

Intoxicadores


Medina Carreira, esse sénior tão cultuado por certa opinião pública, teve o desplante de, há uns dias, exibir um gráfico numa estação de TV, onde demonstrava que durante a ditadura salazarista, a nossa dívida pública não existia.
Como é possível esquecer os concomitantes tempos de penúria e miséria social, com criancinhas piolhosas e descalças? Frequentei uma escola primária no centro do Porto, e tive colegas que iam descalças para as aulas, e a quem a professora tinha de pôr pó contra os parasitas na cabeça.
O panelão da sopa e um pãozinho era o que a servente (que hoje se chama auxiliar de acção educativa) dava ao almoço a grande parte das alunas. Só meia dúzia de miúdas, mais remediadas, iam almoçar a casa.
Quanto ao ambiente rural, nem é bom falar. Vnham para as cidades exércitos de meninas de nove anos, para criadas de servir, que ainda mal chegavam ao fogão e só tinham livre a tarde de domingo. Isto para não falar no assédio dos patrões e outros homens da casa. Sim, que isto de pedofilia não começou com a Casa Pia.
Logo, confrange-me ver esse respeitável economista não levar em linha de conta o ambiente social, a miséria mais negra, a repressão da dignidade dos pequenos, a História, a Sociologia, a Política. Afinal, ao serviço de quem e de quê está a economia? Duma mentalidade de balancete ou de caixa registadora?
Outra personagem que já enfada na Quadratura do Círculo, a apelidar de "homem perigoso" o PM, é o famigerado ficcionista Pacheco Pereira. E di-lo com um ar odiento, de quem fala de Hitler ou de Gengis Khan. Se não fosse tão ridículo, seria quase humorístico.
Será que, realmente, o PM é efectivamente perigoso para a mediocridade sem remédio das pessoas que povoam o partido orangista?